A Rasga Mortalha

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Ceará - Brasil

Dizem que foi há uns trinta anos, quando o sertão do Ceará ainda era mais mata do que estrada, que tudo aconteceu. Naquele tempo, o silêncio da noite era tão profundo que o estalar de um galho podia parecer um grito. E o canto da coruja — a velha Rasga Mortalha — ecoava pelos vales como um presságio ruim, desses que fazem os cachorros se encolherem e as velhas rezarem baixinho.

Dois rapazes, Miguel e Davi, com seus dezoito anos e coragem de sobra, resolveram testar o que chamavam de “besteira de gente velha”. Ouviram desde pequenos que, se alguém caminhasse em círculo ao redor de uma coruja, ela seguiria o movimento com o pescoço até quebrá-lo. Mas quem é que acredita nessas histórias?

Naquela noite quente, de lua minguante, resolveram descobrir por conta própria. Saíram com lanternas e risadas, jurando que iam provar que nada disso existia. O vento trazia o cheiro de terra molhada e o chiado distante dos grilos. Quando chegaram perto da antiga mata — um lugar onde, segundo os mais velhos, ninguém devia andar depois da meia-noite — ouviram o som que gelou a espinha: um grito agudo, longo, rasgando o ar. A Rasga Mortalha.

A luz da lanterna encontrou o animal empoleirado num galho seco, olhos dourados, redondos, fixos. Era pequena, mas tinha uma presença que fazia o ar parecer pesado.

— Olha só, Miguel… parece que ela tá te encarando. — É agora — respondeu ele, rindo. — Vamos ver se essa tal de lenda é real.

E então Miguel começou a caminhar em círculo ao redor da coruja. Passo a passo, lentamente. O animal o seguia com os olhos. Depois com o pescoço. O movimento era tão fluido, tão antinatural, que Davi sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.

A cada volta, o pescoço da coruja girava mais. Mais. Mais. Até completar um giro completo. E outro. E outro. Mas a ave não caía morta. Não quebrava o pescoço. Pelo contrário — parecia cada vez mais viva, mais alerta, mais... humana.

Então algo mudou. Os olhos dourados da coruja escureceram por um instante, como se uma sombra passasse por dentro deles. Davi jurou ter ouvido um som úmido, de ossos se contorcendo, e um cheiro leve de ferro tomou o ar.

O riso de Miguel foi morrendo aos poucos, tornando-se um ruído rouco, arrastado, como se o próprio fôlego lhe fugisse. Ele tentou rir outra vez, mas só saiu um som fraco, sem voz, sem ar — um sopro quebrado. Davi o chamou, uma vez, duas. E então viu — jura até hoje que viu — o pescoço do amigo começar a girar. Primeiro devagar, como se imitasse o movimento do animal. Depois rápido demais, impossível, até um estalo seco ecoar pela mata.

Miguel tombou de lado, os olhos ainda abertos, virados para o céu. A coruja soltou outro grito — o mesmo som que o povo diz anunciar a morte — e voou, desaparecendo na escuridão.

Davi correu de volta para o povoado, gritando, dizendo que a Rasga Mortalha tinha levado o amigo. Mas ninguém acreditou. Diziam que era o medo, que ele tinha enlouquecido. O corpo de Miguel nunca foi encontrado.

Naquela mesma noite, Davi trancou-se em casa. Fechou janelas, cortinas, portas. Mas quando apagou a luz, ouviu o som — um bater de asas dentro do quarto. Virou devagar, e lá estava ela. A coruja, parada sobre a cômoda, olhos fixos nele.

Ela começou a girar o pescoço, lenta, hipnótica. E o rapaz, petrificado, sentiu uma dor subir pela nuca, um estalo surdo ecoando por dentro da cabeça. Ninguém soube dizer o que aconteceu depois.

Só se conta que, desde aquela noite, quem caminha pelas estradas de terra pode ouvir, entre os galhos e o vento, um grito cortando o silêncio — o da coruja que nunca quebrou o próprio pescoço, mas levou muitos a quebrar o deles.

E o povo ainda diz: “Quando a Rasga Mortalha canta, é porque já tem alma pra buscar.”