A Filha do lobisomem, Capítulo um: Prólogo.

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A noite caía como um manto espesso sobre as colinas do sertão, rasgado por relâmpagos que iluminavam, por breves instantes, a vastidão deserta e molhada. A chuva caía pesada, como se o próprio céu chorasse. Trovões ribombavam como rugidos de uma fera ancestral, e o vento uivava pelas frestas de uma velha casa de barro, o teto de palha curvado sob o peso da tempestade.

Dentro da casa, a luz trêmula de uma lamparina mal iluminava o cenário. O cheiro de sangue, suor e terra molhada se misturava ao som lancinante dos gritos de uma mulher em trabalho de parto. Ela estava deitada sobre panos velhos, as mãos apertando as bordas de um colchão fino enquanto seu corpo se arqueava em dor. Seu rosto estava pálido, os cabelos colados à testa. Era bonita, mesmo em agonia. Seu nome era Helena.

Ao seu lado, sua irmã, Dolores segurava firme sua mão, os olhos arregalados pela tensão, enquanto a parteira, uma mulher idosa de mãos calejadas e expressão endurecida, dava ordens rápidas, firmes, como quem já vira a morte espreitar em momentos assim.

— Força, minha filha. Tá vindo… tá vindo! — a parteira dizia, ajoelhada entre as pernas da mulher.

Helena soltou um último grito, longo, desesperado, antes que o choro estridente de um bebê cortasse o ar como um relâmpago cortando o céu. A parteira envolveu a criança ensanguentada em panos e a ergueu. Dolores recuou, ofegante. O silêncio caiu por um instante, denso como a lama lá fora. A mãe, ofegante e fraca, estendeu os braços, recebendo o bebê junto ao peito. Um sorriso tênue se formou em seus lábios trêmulos, mesmo com os olhos já começando a perder o brilho.

— Maria... — sussurrou ela, quase sem voz. — Vai se chamar Maria...

O choro da criança ecoou alto pela casa, acompanhando um trovão que sacudiu a noite, um trovão que ribombeou com fúria sobre os telhados da noite, e junto dele, como se chamado por forças sombrias, veio um som seco e pesado contra a porta da frente, um baque que fez tremer a casa de barro. Helena arregalou os olhos, o bebê ainda em seus braços, o fio de vida esvaindo-se aos poucos. Sua voz saiu fraca, mas carregada de terror:

— É ele... Ele veio...

O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som da chuva, até que passos começaram a rondar a casa, passos pesados, arrastados, como garras cravando a terra molhada ao redor. Logo, pancadas fortes se espalharam pelas janelas, como se mãos, ou algo pior, testassem a resistência da madeira.

— A porta e as janelas são de madeira de lei — disse a parteira, tentando se manter firme, embora o medo já lhe tremesse a voz. — Isso não vai ceder fácil.

Dolores, porém, estava pálida, os olhos fixos no teto de palha que se curvava sob a tempestade.

— Não é a porta que me preocupa... — sussurrou ela, com a voz baixa e tensa. — É o teto.

Um silêncio pesado caiu mais uma vez. Então, como se a noite tivesse prendido o fôlego por um instante, ouviu-se o som de passos se afastando… e logo depois, um uivo. Um uivo longo, grave, vindo das profundezas da floresta e da alma. Um som que gelava o sangue, que fazia o mundo parecer pequeno diante da besta que chamava.

A tempestade ainda rugia do lado de fora, mas por um breve instante, o mundo pareceu suspirar. As pancadas cessaram, os passos sumiram na distância, e o silêncio foi preenchido apenas pelo choro fraco de Maria e os trovões ao longe. Dolores e a parteira trocaram olhares tensos, os ombros finalmente relaxando, como se a noite tivesse decidido poupá-las. Mas então Helena começou a tossir, uma tosse seca, profunda, que sacudia seu corpo frágil. A parteira se apressou, tirando a criança de seus braços e entregando-a a Dolores. O pequeno corpo de Maria ainda chorava, mas algo naquela fragilidade trouxe força às mãos trêmulas de Dolores. Ela apertou o bebê contra o peito, enquanto a parteira se inclinava sobre Helena.

— Ela tá queimando… — murmurou, ao sentir a testa da jovem mãe. — Tá ardendo em febre, mas… tem algo errado… muito errado…

Então, num piscar de olhos, tudo mudou. Os olhos de Helena, antes marejados e suaves, agora brilhavam num amarelo doentio, feroz. Suas pupilas se contraíram como as de uma fera. Dentes começaram a crescer, rompendo a gengiva com estalos repulsivos, transformando seu rosto em algo monstruoso. A pele tremia, os ossos estalavam, e um grunhido rouco, gutural, emergiu de sua garganta.

— Helena... não — sussurrou Dolores, horrorizada, recuando um passo.

A parteira tentou se afastar, mas Helena já não era mais Helena. Com um movimento brutal, ela cravou os dentes no ombro da mulher, rasgando carne e tendões com uma ferocidade animalesca. O grito da parteira se perdeu sob outro trovão, e o sangue espirrou quente, manchando o chão de barro.

— Helena! Por favor! — Dolores gritou, sua voz se quebrando, desesperada, enquanto tentava alcançar o que restava da irmã.

Mas os olhos da criatura que já foi Helena estavam vazios, famintos. Ela largou o corpo da parteira, que caiu mole no chão, e girou o rosto ensanguentado na direção de Dolores. Um rosnado baixo escapou de seus lábios deformados, enquanto ela se arrastava sobre os joelhos, garras crescendo das mãos como espinhos.

Dolores arfava, o coração batendo no peito como um tambor de guerra. Ela recuou, um passo de cada vez, até sentir a madeira fria da porta às suas costas.

Helena rosnava, arrastando os pés pelo chão manchado de sangue, os olhos bestiais fixos em Dolores e na criança em seus braços. O som de sua respiração entrecortada preenchia a casa, como o farfalhar de um predador prestes a saltar. Em um impulso de desespero, Dolores girou a chave da porta e a escancarou, mas ela colidiu, encontrando resistência. Um corpo.

Ela parou ao bater no peito largo e rígido de um homem. Emanuel. Sua presença era tão perturbadora quanto a criatura que Helena se tornara. Tinha pele morena, olhos escuros e fundos como um poço sem fim, e cabelos negros que escorriam pelos ombros, ensopados de chuva. A camisa branca estava aberta até o peito, revelando cicatrizes antigas que pareciam contar histórias de lutas inumanas. Ele era bonito, de uma beleza cruel e sombria, mas havia algo errado em seu semblante calmo demais, frio demais. Seus olhos passearam pela cena, o corpo da parteira, Helena deformada, e então pousaram sobre a criança nos braços de Dolores. Algo brilhou em seus olhos, algo primitivo. Dolores, tomada pela dor e fúria, começou a socar o peito dele com os punhos fechados.

— O que você fez com ela?! O que fez com a minha irmã?!

Emanuel não reagiu aos golpes. Apenas olhou para Helena, com um pesar fingido.

— Ela se tornou uma lupina, Dolores... Já não tem mais consciência. Não há nada que possamos fazer.

— MENTIRA! — gritou ela, a voz quebrada de dor. Dolores caiu de joelhos, abraçando Maria com força. Lágrimas escorriam pelo rosto enquanto Helena soltava um grito selvagem e avançava. Mas antes que pudesse alcançar a irmã, Emanuel a agarrou pelo pescoço.

Helena se debateu, garras tentando cravar na pele dele. Mas Emanuel nem se mexeu. Com um movimento seco e preciso, ele girou o pescoço dela com um estalo seco. O corpo caiu no chão, inerte, voltando pouco a pouco à forma humana, frágil, manchada de sangue. Dolores gritou de novo, mas desta vez sem som. Apenas dor. Emanuel se virou para ela, os olhos ardendo de desejo e poder.

— Me dê a menina.

Dolores apenas a apertou mais contra o peito, como se seu amor pudesse protegê-la.

— Eu posso tomá-la de você com facilidade — disse ele com um sorriso torto, como se se divertisse com a resistência dela.

Mas Dolores não cedeu e Emanuel estreitou os olhos, irritado, e começou a andar na direção dela. Ela se arrastou para trás, desesperada, os olhos procurando algo, qualquer coisa. Seus dedos encontraram o crucifixo sobre a mesa. Quando ela o ergueu, Emanuel parou. Um chiado gutural escapou de seus lábios. Ele deu um passo para trás. Dolores viu a reação. E ali encontrou sua força. Levantou-se com dificuldade, o crucifixo em punho, e o manteve firme entre ela e o monstro.

— Você não vai tocá-la!

— Isso não vai te salvar — rosnou ele.

— Sai da minha casa, demônio! — gritou ela. Ele hesitou, recuando, mas os olhos prometiam vingança.

— Isso não vai durar. Eu voltarei, Dolores. Um dia, ela será minha.

E então, ele se foi. Os passos pesados se afastando, engolidos pela chuva. Dolores trancou a porta com mãos trêmulas, os olhos fixos na madeira como se o mantivesse longe apenas com a vontade. Caiu no chão, chorando, e apertou Maria contra o peito. Olhando ao redor, viu o corpo ensanguentado da parteira e o da irmã, já humana outra vez, os olhos vazios voltados ao teto. Um trovão rasgou o céu, e Dolores apertou Maria ainda mais forte, como se o amor que sentia fosse a única coisa capaz de salvá-la da noite que nunca terminava.