Entre mundos parte 4

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ATENÇÃO: História longa! Tempo médio de narração da história completa: 1h.

Capítulo 6:

Eu corri muito, talvez mais do que minhas pernas podiam suportar.

Em determinado momento, parei em uma rua vazia e silenciosa. Minhas pernas vacilaram e eu caí de joelhos sobre o asfalto molhado.

Fui atingida por uma pontada terrível na lateral do abdômen, consequência da minha corrida frenética.

Então senti aquela sensação terrível de coceira na garganta e tossi sobre minha mão. Me assustei ao ver a mesma ficando salpicada de gotas de sangue.

Alex… o que eu faço agora? Como posso encontrar o caminho de volta sem você aqui?

A imagem do meu único amigo no meio daquele pesadelo, de joelhos… morto… sem cabeça, me atingiu como um soco no estômago e eu desatei em lágrimas, grudando minha testa no asfalto.

Mas então… ouvi algo.

Parecia distante, mas ainda assim era inconfundível.

Era música.

Ergui minha cabeça e procurei pela origem daquilo, mas não encontrei nada.

O fato de haver uma música tocando em um mundo tão silencioso me atraía, quase como se despertasse algum instinto primitivo em mim.

E uma parte de mim desejava que, de alguma forma, fosse Alex.

Ele sabia que eu gostava de música, e não só isso, ele havia colocado música naquele outro momento.

Mas como poderia ser ele? Ele estava morto.

Mesmo assim, aquilo me fez levantar e olhar ao redor com uma expressão confusa no rosto.

Quando eu finalmente encontrei a direção da qual o som parecia vir, não hesitei em caminhar até lá.

A música foi ficando cada vez mais alta à medida que eu avançava, mostrando que eu estava no caminho certo e aquilo fez o meu coração dar cambalhotas dentro do peito.

Finalmente cheguei em um ponto onde a música era simplesmente inconfundível de tão nítida.

Era Dancing Queen, da banda ABBA.

Meus passos ficaram mais urgentes, eu virei uma esquina e finalmente me vi diante do lugar de onde a música vinha.

Era um ginásio e ele era muito familiar.

Eu devo ter ficado parada ali por um minuto inteiro, enquanto a melodia nostálgica atingia meus ouvidos e eu tentava buscar aquele lugar no fundo das minhas memórias.

E eu encontrei.

Era o ginásio onde aconteceu minha festa de formatura, uma das melhores noites da minha vida, e aquela música em particular também era um grande marco daquela noite.

Avancei em direção à entrada, sem me importar que não fazia o menor sentido aquele ginásio estar ali… naquele maldito mundo.

Assim que empurrei as portas e coloquei meus pés para dentro, vi minhas roupas esfarrapadas serem substituídas, em um passe de mágica, por um belo vestido azul — o mesmo que eu usei na noite do verdadeiro baile.

Me senti agradecida por estar livre da calça jeans, da regata branca suja de sangue e da blusa xadrez que eu usava antes.

Avancei até o centro do salão e fui banhada por diversas luzes coloridas e piscantes. Confesso que fiquei encantada e passei bons segundos olhando para cima, para as luzes. Só parei quando senti minha visão ser ameaçada por tanto brilho.

Luzes naquele mundo eram difíceis, ainda mais tão coloridas e vívidas, então não me admira o meu encanto.

Assim que desviei meu olhar das luzes, olhei ao redor.

Do lado esquerdo do ginásio havia uma mesa repleta de guloseimas, do lado direito estava a arquibancada e na parede à minha frente havia uma grande bandeira exibindo o nome da escola e algo como “baile de formatura”, escrito com uma letra bonita.

O lugar estava exatamente igual à noite do verdadeiro baile, exceto que dessa vez estava vazio, sem qualquer pessoa que não fosse eu.

E a música continuava.

Cada verso tocando profundamente a minha alma e fazendo aquele pesadelo parecer algo distante e incapaz de me alcançar.

You can dance, you can jive, having the time of your life.

Cantei a plenos pulmões e me assustei ao perceber que… minha voz estava de volta!

Eu estava virada na direção da entrada do ginásio, pois tinha acabado de dar um giro de braços abertos no meio do salão. Eu olhava para o chão completamente atônita, nem conseguia piscar e mantinha meu dedo indicador no meu lábio inferior.

Minha voz… havia voltado!

Sorri.

Mas logo vi meu sorriso morrer quando uma estranha voz surgiu atrás de mim, me assustando.

— Sim, sua voz está de volta.

Me virei num sobressalto, enquanto um arquejo de surpresa escapava pelos meus lábios.

Dei de cara com uma mulher. Ela parecia normal, quer dizer, parecia humana.

Ela era muito alta e vestia uma roupa toda preta, composta por uma blusa decotada que possuía mangas flare, uma saia longa de renda com forro liso que tinha um caimento solto sobre o seu corpo esguio, um coturno e o detalhe que mais chamava atenção: uma cartola, que fazia parecer que ela estava em uma festa fantasia e ao mesmo tempo a tornava elegante.

Seus cabelos castanhos caíam sob seu busto, se misturando com os diversos colares que adornavam seu pescoço.

Ela me fitava com seus olhos azuis tão profundos que pareciam feitos de cristal puro. E sustentava um sorriso sem mostrar os dentes, que se assemelhava ao de um gato astuto.

— Q-quem é você? — Finalmente tomei coragem para perguntar.

— Meu nome é Carmilla e eu estou aqui para te ajudar a encontrar seu caminho — ela disse, me olhando fixamente e dando um passo na minha direção.

Instintivamente, dei um passo para trás.

Isso a fez parar, parecendo quase confusa com a minha reação. Ela colocou suas mãos atrás do corpo e se inclinou na minha direção.

Algo nela me deixava hesitante, deixava o ar denso e fazia eu sentir como se estivesse em uma corrida contra o tempo, como se a qualquer momento uma bomba fosse explodir.

— Venha comigo, prometo que irei te ajudar. Veja só, tudo o que eu preparei para você aqui — ela disse, suavizando a voz e olhando ao redor.

Acompanhei o olhar dela e vi aquele lugar e tudo aquilo como uma simples armadilha para me fisgar.

Engoli seco enquanto um estranho arrepio percorria minha espinha.

A música continuava a tocar em looping e a mulher continuava a esperar por uma resposta que eu tinha receio de dar.

Então me lembrei… me lembrei de quando Alex disse que, para identificar os monstros perigosos, bastava procurar por uma marca no pescoço, pois todos tinham uma.

Meu olhar foi direto para o pescoço da mulher… e lá estava… a maldita marca.

Dei outro passo para trás e ela inclinou a cabeça para o lado, com o cenho franzido, percebendo que algo estava errado.

— Não confia em mim? — ela perguntou, endireitando o corpo. Seu olhar ficou mais severo.

— Eu… eu vi muita coisa essa noite…

— Confia ou não? — ela gritou, me interrompendo.

— Não! — gritei de volta.

Carmilla explodiu em gargalhadas de repente, algo que fez o meu sangue gelar.

— Garota tonta.

As luzes começaram a piscar de uma forma irregular e frenética e eu vi os olhos de Carmilla ficarem tão negros quanto uma noite sem estrelas.

A música também ficou estranha, começou a tocar de trás para frente.

Carmilla começou a caminhar em minha direção e eu automaticamente comecei a caminhar para trás, pensando em possíveis formas de escapar.

Pensei em correr, simplesmente correr o mais rápido possível até a saída, mas antes que meus pés pudessem sequer fazer o primeiro movimento, senti meu corpo ser tirado do chão.

Carmilla me arremessou direto na mesa de doces.

Vi todos aqueles doces caírem sobre mim e ouvi o som de diversos talheres se espatifando no chão.

Pela primeira vez desde que entrei naquele ginásio, senti dor e fui tomada pela vertigem.

Arfei, colocando minha mão direita na cabeça, e tentei me recompor, mas antes que eu pudesse de fato fazer isso, vi, pela minha visão temporariamente embaçada, Carmilla avançando em minha direção em uma velocidade alucinante.

Ela subiu em mim e agarrou meu pescoço com as duas mãos. Eu podia sentir perfeitamente suas unhas afiadas e cobertas de esmalte preto perfurando a minha carne.

Minha visão finalmente se ajustou e eu pude ver seu sorriso sádico enquanto o ar começava a faltar em meus pulmões.

Minhas mãos tatearam o chão em busca de qualquer objeto que eu pudesse usar para me defender.

Em meio àquela terrível dança da morte, Carmilla separou seus lábios, mantendo seu sorriso vitorioso, e disse:

— Eu vou te levar para o inferno, sua desgraçada.

O tempo pareceu congelar. Senti meu corpo começando a se entregar para a inconsciência.

Era isso.

Tudo aquilo… era uma luta perdida.

Meus dedos continuaram a se arrastar pelo chão frio, quase sem propósito, até que eu senti uma superfície metálica… era um garfo.

Senti meu corpo se encher de vida de repente, a adrenalina traçando caminhos sinuosos pelas minhas veias.

Não pude evitar que um sorriso fraco surgisse em meus lábios… Carmilla estava enganada, ela não me levaria a lugar algum.

Ergui o garfo no ar e vi o metal refletir todas aquelas luzes trêmulas antes de perfurar o pescoço de Carmilla.

A mulher arregalou os olhos e diversas gotas do seu sangue quente respingaram em meu rosto, de um modo que eu pude sentir o gosto metálico em minha boca.

As mãos de Carmilla cederam até se desprenderem totalmente do meu pescoço e eu finalmente pude respirar, vendo seu corpo cair para o lado enquanto ela se engasgava com seu próprio sangue.

Me levantei, massageando meu pescoço e olhei com desprezo para a mulher moribunda no chão.

— Você que vai para o inferno, porque eu vou lutar até o fim e vou sobreviver!

Carmilla finalmente parou de se mover, seus olhos congelaram, declarando o fim de sua vida, e a música voltou ao normal, juntamente das luzes.

Me abaixei diante do corpo sem vida da mulher e arranquei o garfo de sua garganta, fazendo um pouco mais de sangue respingar no meu vestido.

Eu ia embora só com isso, mas vi aquela cartola e não pude resistir. A peguei também e a coloquei em minha cabeça enquanto sorria satisfeita.

Virei as costas e caminhei até a saída.

Abri as portas e saí para fora. Percebi a música ficando abafada assim que as portas bateram atrás de mim. Senti a brisa me atingir enquanto dava meus primeiros passos de volta para a noite, levando o garfo, a cartola e, claro… a minha voz.

You can dance, you can jive, having the time of your life.

Capítulo 7:

Segui meu caminho pelas ruas escuras e vazias, enquanto me perguntava quanto tempo eu ainda tinha.

Lembro de estar em uma rua bem larga e cheia de postes com luzes tremulantes quando ouvi o som inconfundível e aterrador de um motor moribundo, que naquele momento eu já conhecia muito bem.

Senti um arrepio percorrer o meu corpo. Sim, eu havia acabado de matar um demônio com a porra de um garfo, mas era meio óbvio para mim que aquele mesmo garfo não seria capaz de derrotar aqueles dois seres que ceifaram a vida de Alex.

Naquele instante, notei que uma luz fluorescente avançava em minha direção. Me virei e percebi que a luz branca vinha do letreiro de um supermercado.

O interior do lugar estava totalmente escuro, mas, mesmo assim, eu não hesitei em correr para dentro.

O lugar era bem grande e eu comecei a caminhar cautelosamente até os fundos, esperando não ser surpreendida por nada.

Eu podia ouvir o som do motor ficando mais próximo lá fora, e isso fazia o meu coração palpitar cada vez mais rápido.

Mais para o fundo do supermercado, os corredores estavam levemente iluminados pela luz da lua que entrava pelas janelas basculantes. Assim, era possível ver as prateleiras, cheias de coisas, como uma réplica perfeita do nosso mundo.

Um som lá fora me fez pular de susto, e eu rapidamente me enfiei dentro de um armário de limpeza que estava próximo de uma parede.

Um esconderijo quase perfeito, se não fosse tão clichê.

Fiquei lá dentro, desconfortável com o espaço apertado, mas muito atenta a qualquer som suspeito e, claro, com o garfo em punho.

Por um momento, tudo o que eu ouvi foi silêncio.

Algo que me preocupou, pois… eu sabia que eles estavam lá.

Então, finalmente ouvi o baque da porta de algum veículo se fechando. O som estava abafado devido à distância, mas eu sabia que era daquela maldita van.

Mas, outra vez, o silêncio preencheu tudo. O mundo lá fora parecia ter deixado de existir, e eu só podia ouvir o som da minha própria respiração pesada dentro daquele espaço minúsculo.

O tempo pareceu congelar enquanto eu me preparava para saltar daquele armário e me defender a qualquer momento.

Então…

O primeiro grito cortou a noite, fazendo meu corpo estremecer e o meu sangue gelar.

Era um grito gutural e animalesco, como se um animal selvagem tivesse sido brutalmente atacado na fachada do supermercado.

Na verdade, lembro que, ao ouvir, tive a impressão de ser uma briga entre gatos, mas gatos gigantes, e, considerando tudo o que eu havia visto até então, não parecia tão impossível assim.

Não demorou muito para um segundo grito irromper, esse ainda mais agonizante.

O som que se seguiu depois do segundo grito foi como algo batendo contra a lataria de um veículo.

E depois…

Passos.

Passos pesados e cada vez mais próximos, cada vez mais próximos do armário de limpeza, como se o que quer que estivesse chegando soubesse perfeitamente onde eu estava.

Segurei a respiração, como se esse ato pudesse fazer alguma diferença, e vi, pela fresta do armário, alguém parando do outro lado da porta.

Naquele momento, eu soube, soube que, se eu não fizesse nada, aquele alguém faria.

E isso não poderia acontecer de forma alguma.

Eu já não era a mesma do início daquela noite. Algo havia mudado em mim desde a morte de Alex e desde o ginásio, e tudo o que eu havia dito para Carmilla seria honrado.

Senti a adrenalina tomar conta de mim, enchendo meu corpo de coragem, e apertei o garfo com mais força.

Saltei bruscamente para fora, com o garfo erguido no ar e pronto para acertar meu inimigo.

O que eu encontrei foi um par de olhos brancos arregalados.

Uma mão gélida agarrou meu pulso, fazendo o garfo parar a poucos centímetros dos olhos leitosos.

E eu fiquei feliz por ter sido impedida.

E por ver aqueles olhos de novo, mesmo que tão diferentes.

— Sou eu.

A pessoa em minha frente falou com a voz abafada, e eu quase não pude acreditar, mas é claro que era ele, mesmo tão diferente… era ele.

— Alex?!

Pude ver a surpresa em seu olhar assim que ele ouviu minha voz.

E também tenho certeza de que não pude esconder a surpresa em meu olhar por estar diante dele novamente.

Uma enxurrada de perguntas surgiu em minha mente, mas, naquele momento, eu só podia reparar que Alex agora era um ser totalmente pálido.

Seus cabelos antes negros agora não tinham qualquer cor, sua pele estava branca como a neve, seus olhos eram leitosos e ele tinha… asas! Um enorme par de asas.

Ficamos bons segundos em silêncio, apenas tentando entender o que diabos havia acontecido um com o outro durante aquele tempo.

— A sua voz voltou!

Só aí que eu percebi que ainda estava apontando o garfo para ele, então abaixei o mesmo rapidamente.

— É… ainda não entendi como isso aconteceu — respondi.

— E eu gostei do seu novo visual — Alex falou em um tom bem-humorado, enquanto me olhava de cima a baixo.

— Também gostei do seu.

Mas então fui atingida por uma espécie de lucidez… E se aquele não fosse Alex? Quer dizer, Alex havia morrido na minha frente mais cedo naquela noite e agora aparecia esse indivíduo idêntico, mas também muito diferente.

E se fosse algo se passando por Alex para ganhar minha confiança? Algo que sabia que isso seria minha fraqueza.

Olhei com desconfiança para o ser em minha frente, procurando por alguma marca em seu pescoço pálido.

— Como posso saber que você realmente é o Alex?!

Ele sorriu, cheio de dentes, e enfiou a mão no bolso de sua roupa esquisita.

Em seguida, estendeu algo em minha direção…

O bloco de notas.

O nosso bloco de notas.

— Eu pensei que você ainda estaria sem voz, então trouxe isso.

Não pude evitar: avancei sobre a estranha criatura em minha frente, envolvendo meus braços ao redor de seu pescoço.

Acho que ele nunca tinha recebido um abraço, pois pareceu chocado.

— Alex! Meu Deus… Eu achei que tinha te perdido! Como você conseguiu sobreviver?

— Não sabia que você era tão sentimental e… falante! — Ele riu suavemente. — E bem, eu sou imortal.

Eu já ia responder algo totalmente bobo quando me assustei com algo que me fez saltar para trás, largando Alex.

Um líquido carmesim escorria pelos ombros pálidos do meu guardião.

E esse líquido… vinha de mim.

Eu estava sangrando.

Ergui meus dois braços na frente do meu corpo enquanto ouvia o som metálico do garfo encontrando o chão.

Alex olhou assustado para mim, muito assustado, e também… preocupado, assim que nós dois encontramos a origem daquilo.

Havia um corte profundo em cada um dos meus pulsos.

Eu engoli seco e olhei para Alex.

— O-o que isso significa?

Ele hesitou.

— Significa que o tempo está acabando.

Me senti tonta e muito fraca, como se toda a energia do meu corpo tivesse sido drenada de repente.

Cambaleei para o lado e senti Alex me segurar.

— Temos que ir… agora!