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Bem... a partir daquele dia, eu nunca mais dormi de verdade. Toda vez que fechava os olhos, acordava no meio da madrugada, coberto de suor, com o coração prestes a explodir. Os pesadelos nunca eram iguais.
Em alguns momentos, Madre Eleanor me encontrava e me matava das formas mais cruéis que minha mente conseguia imaginar.
Em outros, era pior.
Eu apenas permanecia imóvel na cama, incapaz de me mexer, enquanto sentia alguém parado ao lado do meu colchão, observando cada respiração minha. Nunca tive coragem de abrir os olhos. Porque eu sabia, com toda certeza, que, se abrisse, ela estaria lá.
Depois de algumas semanas, dormir deixou de ser descanso e passou a ser uma punição.
Então eu simplesmente parei de tentar. As noites se tornaram longas demais, silenciosas demais.
E os dias...
Os dias começaram a mudar também, lenta e tortuosamente. Passei a perder o apetite aos poucos. Toda comida que colocavam diante de mim tinha gosto de carne podre, como se estivesse apodrecendo havia semanas. O cheiro era ainda pior. Às vezes, eu precisava prender a respiração para conseguir engolir um único pedaço de pão.
A água também mudou.
Não importava de qual poço ela viesse, sempre parecia amarga, pesada e impossível de beber. Os moradores diziam que eu estava apenas doente. Madre Eleanor dizia exatamente a mesma coisa.
Mas, toda vez que ela colocava a mão sobre minha cabeça e dizia que rezaria pela minha recuperação, os enjoos aumentavam. Era como se meu próprio corpo rejeitasse qualquer coisa que viesse dela.
Mas a realidade era diferente. Ela estava me mostrando que eu já não pertencia ao mesmo mundo que os outros moradores de Dav-Lós. Como eu havia recusado sua proposta, também não poderia mais permanecer em sua ilusão.
Em outras palavras, eu estava enxergando a verdadeira face de Dav-Lós.
Enquanto todos viviam cercados pelos milagres que Madre Eleanor oferecia, eu era o único condenado a contemplar a verdade.
E a verdade era repugnante.
As plantações que antes pareciam verdes e fartas agora revelavam caules enegrecidos, folhas tomadas por fungos e frutos que, ao menor toque, se desfaziam em uma massa escura, repleta de vermes. Os moradores, entretanto, colhiam aquelas mesmas frutas com sorrisos no rosto, agradecendo a Deus pela abundância. Comiam com prazer, elogiavam o sabor e levavam cestos cheios para suas casas.
Eu só conseguia sentir o cheiro da podridão.
As ruas também haviam mudado. O branco impecável das construções desaparecera. As paredes estavam rachadas, cobertas por manchas de umidade que lembravam rostos distorcidos. A tinta descascava em longas tiras, e o perfume de flores que costumava preencher a vila dava lugar ao odor constante de terra molhada e carne em decomposição.
O mais assustador era que ninguém parecia notar.
As crianças ainda corriam pelas vielas, brincando umas com as outras. As mães conversavam nas janelas. Os homens trabalhavam na lavoura, assobiando canções religiosas, como se tudo continuasse perfeito.
Era como assistir a duas realidades ocupando o mesmo espaço.
Uma delas era bela.
A outra era a única que realmente existia.
Passei a evitar sair de casa. Não apenas por medo de Madre Eleanor, mas porque cada passo dado por Dav-Lós fazia minha sanidade vacilar. Quanto mais eu observava, mais detalhes grotescos surgiam diante dos meus olhos. Estátuas de anjos exibiam rachaduras profundas, das quais escorria uma substância escura. As flores depositadas diante da igreja estavam completamente secas, embora todos comentassem sobre seu perfume. Até o sino que marcava as horas produzia um som estranho para mim, grave e arrastado, quase como um lamento.
Foi então que compreendi a verdadeira crueldade daquilo. Madre Eleanor não havia amaldiçoado apenas a vila; ela havia condenado a percepção de cada um de seus habitantes. Todos acreditavam viver em um paraíso, e eu era o único condenado a viver no inferno que existia por baixo dele.
Chegou a um ponto em que eu simplesmente não queria mais sair de casa. Até ela parecia podre; na realidade, tudo estava podre. Eu não aguentava mais. Queria desistir e dar a Eleanor aquilo que ela queria: me entregar ao mundo de cegueira e felicidade.
Mas meu cérebro e meu coração, teimosos, se negavam.
Então eu apenas segui meu ciclo, tentando continuar minha rotina: acordar cedo, tomar café da manhã, tomar banho, trabalhar e, finalmente, voltar para casa.
Eu não consegui.
Tudo estava horrível, tenebroso e repugnante. Meu estômago se embrulhava a cada refeição. Meus banhos eram em uma água preta e fétida. As lavouras eram mortas e cheias de cadáveres de animais e insetos.
Eu não queria mais acordar e ter que fazer aquilo de novo...
E de novo.
E de novo.
E de novo...
Eu só queria que tudo aquilo acabasse. Eu não queria mais aquilo. Eu desisti. Agora você já deve pensar duas coisas: eu aceitei a proposta de Madre Eleanor ou fugi como o covarde que sou. Mas, para o meu azar, mesmo que eu quisesse ir embora, era impossível. Todos estavam ligados a um pacto que nem eu conhecia.
E, segundo, eu não aceitei nada.
Apenas não saí mais daquele casebre podre e decadente. Não comia, não tomava banho e virei praticamente um mendigo, só que com uma casa e comida — que, depois de alguns meses, apodreceu rápido demais.
E sabe, Eleanor não gostou. Claro que não gostou. Na verdade, ela odiou. E sabe o que eu sentia quanto a isso?Medo, Agonia e uma vontade desesperada de fugir, como já falei, eu não sou um herói. Então para acabar de uma vez com tudo aquilo.. Eleanor me “convocou” para não dizer que me sequestrou com ajuda dos seus seguidores lunáticos e ali naquele altar, naquela igreja, minha vida acabou de vez.