Uma Clássica História de Espírito Zombeteiro

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Você acredita nessa história de "espíritos zombeteiros"? Nos causos que contam de fantasmas dos mortos que desencarnam e vem ao plano dos vivos para atazanar e pregar peças nas pessoas?... Ora, pois... Não? Pois bem! Deixe-me contar-lhe um acontecido que sucedeu com esse narrador que vós fala. Sabe... Eu nunca fui lá um grande exemplo de moralidade... Sempre gostei muito de ir para as festas. Deixava de ir às missas aos Domingos justamente para me embebedar e farrear junto com as pessoas. Ah... Se lhe contasse o número de mulheres que namorei você ficaria surpreso... Quero dizer... O meu número de relacionamentos deve ter sido maior que a paixão que Vinícius de Moraes tem pela poesia. São tantas lembranças... Mas bem, sigamos, se não falarei das festinhas e de todas as pessoas que conheci que isto viraria simplesmente um livro de crônicas sobre a boêmia de um cafajeste, enfim... Essa história aconteceu em um Domingo, estava em época de Quaresma e o povo festejava com se não houvesse amanhã. Sei que nesse período o respeito ao sagrado é algo importante, entretanto, eu e meus colegas de farra não estávamos ligando tanto para isso, digamos que não era Jesus no altar... Era o nosso prazer acima de tudo. Nós dançávamos, bebíamos, brincávamos, namorávamos, tudo isso e muito mais. Eu estava eufórico, em estado de êxtase, claro! Ora, mas, rapaz! E quem não ficaria em uma grande festança? Esse era o caso: uma grande festança. O festejo durou até a meia noite com muita alegria desvairada, era um verdadeiro festejo do carnal... Tudo deu-se por muito bom e as uma da manhã, já haviam todos se cansado, claro, ainda havia quem estive querendo por mais um bis, porém consenso era geral: "Vamos que o espírito da farra já foi-se a muito tempo". Já havia tido diversão a breca demais, então todos presentes deram um último comprimento aos camaradas e foram, aos poucos, indo para casa. Fui quase um dos últimos a ir-me embora, demorei demasiado, pois fiquei ainda jogando conversa fora com alguns colegas. Falávamos de como a festa tinha sido o maior barato e já dialogávamos sobre a possibilidade de estarmos na próxima... Duas e meia da manhã... Fiquei até às duas e meia da manhã. Olhei para o relógio em meu pulso: "É... Tenho que ir! Até a próxima, cambada!" - falei a meus colegas, em tom serelepe. Despedimo-nos e fomos cada um para seu caminho. Moro a algumas quadras do salão aonde a festa tinha ocorrido, Eram longas quadradas... Fui descendo a rua. As luzes dos postes iluminavam todo o caminho a minha frente. A noite era silencioso, As estradas vazias, Todas as moradias trancadas. Só ouvia-se o som dos meus sapatos na calçada. Enquanto caminhava parei um tempo para prestar atenção no céu: Um lindo céu estrelado, a lua cheia destacando-se, maravilhosa a sua maneira. "Ah... Quem me dera poder fazer isto todos os dias de minha vida... Festejar e voltar só de madrugadinha, que bom seria" - pensei, ainda fitando o esplendoroso céu. Voltei a atenção para meu caminho. Passava por postes, latas de lixo e casas, subia e descia pequenos altos que tinham na calçada: "Diacho de caminho grande" - pensei, reclamando. Em um determinado momento, enquanto eu estava em mais uma de minhas subidas de alto, avistei ao longe um único poste com a luz apagada. Nele, havia uma figura encostada, apenas um vulto. Estranhei um pouco... Aquele era o único poste da rua apagado e junto a aquela figura, deixava o cenário para um típico filme de horror destes que passam na TV. Eu aproximava-me mais daquela cena... A cada passo que dava, a figura se tornava, obviamente, maior pela perda da distância, oque culminou o meu inevitável encontro com ela... Passei pelo vulto, sem fazer contanto visual. Dei um "boa noite" e fui seguindo. De repente, aquela silhueta falou... Disse bem assim pra mim: "Boa... Vens da festa, moço?" Parei, virei-me e respondi: "É... Venho. Foi uma baita festa" Então, a figura se descontou com poste e indagou uma pergunta: "Divertiu-se?" Respondi-lhe: "Ora, se não!" Aquilo então falou: "E não te importas de perder os Domingos? E mais! Desobedecer a Quaresma?" Eu então respondi ao espectro sombrio: "Não. Para mim isso são coisas triviais, compreende?" A figura então deu uma risada e me respondeu: "Faz bem, moço! És um dos meus hahaha!" Não pude deixar de não rir junto... Era uma gargalhada contagiante. A silhueta parou de rir... E falou-me em voz animada: "Ei! Sabe de algo? Próxima semana vai ter uma festa animal! Vou para ela. Não quer ir junto comigo?" Eu respondi-lhe: "Olha... Não nos conhecemos direito, nos sei se... Sabe, posso confiar..." O ser falou para mim, insistindo: "Por favor, camarada! É um lugar bem legal!" Eu então perguntei: "E onde é que é?" Nesse momento a luz do poste que estava apagada se acendeu e revelou algo que deixou-me perturbado e só de lembrar já me deixa de cabelo em pé... Aquela figura que conversava comigo se mostrou ser um... Esqueleto! Uma caveira viva em minha frente! Vestia um terno elegante e uma cartola, só podia ser coisa ruim. A criatura então respondeu a minha pergunta: "VAI SER LÁ NO INFERNO HAHAHAHAHA!!!" Falou isso e gargalhou maléficamente. Fiquei paralisado por um instante quando vi a caveira, mas quando escutei a sua resposta, não pestanejei sai correndo o mais rápido que pude. Atrás de mim eu escutava: "Ei! Espere! Volte aqui! Eu estava gostando do nosso papo! HAHAHAHAHA" Aquela assombração ria muito... Zombava de mim. Corria pela calçada como se não houvesse amanhã. A estrada parecia se alongar a cada carreira que dava e em cada beco parecia que aquele esqueleto estava por me espreitar. De tanto correr, cheguei em casa. De forma desajeitada tentei tirar a chave do bolso, elas caíram no chão... Quando abaixei para apanhar e peguei-as, a criatura das trevas se materializou em minha frente. Vi aquele par de sapatos engraxados... Levantei lentamente. A caveira me fitava, seus olhos vazios me encaravam... Eu estava paralisado de medo. O ser então pegou com as duas mãos os meus ombros e me segurou. Ele abriu a sua boca e, junto a um cheiro de fumo nauseante, saíram as palavras mais assustadoras da minha vida: "Vamos ao inferno, meu chapa?" Isso veio seguido de uma enorme gargalhada que ecoou por toda a cidade. Eu desmaiei... No dia seguinte, Acordei em minha cama, estava com uma ressaca das brabas. Lembrei do bizarro caso que acontecera comigo antes... Tive a impressão de ter sido um enorme pesadelo, mas ainda em dúvida se realmente havia vivido aquilo... Levantei e fiquei sentado em minha cama, refletindo sobre aquilo. Enquanto eu tentava dizer para mim mesmo se tudo tinha sido só um sonho febril ou um verdadeiro contato com o paranormal, percebi que em minha mesa de cabeceira havia um papel amassado. Era um bilhete... Nele, dizia uma frase reconhecível para mim e que tinha cheiro e uma voz aterradora junto a ela: "Vamos ao inferno, meu chapa?"... Depois desse acontecimento eu nunca mais sai para festas, na verdade, digamos que agora eu tenha dado um basta nas pequenas farras que eu vinha colecionando. Se me chamam pra ir em um festejo eu logo nego. Festa pra mim agora é só aniversário de parente, jantar de família ou festa de padroeiro. Deus me livre ir pra outra coisa.