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“Eu não me lembro de como as coisas começaram, o cheiro de tabaco e fumo era o que eu sentia todas as manhãs… então, eventualmente, acabei me acostumando com esse cheiro. Bem… minha mãe era uma mulher ocupada, ela trabalhava muito, em casa, mas trabalhava muito. A maior parte do dia, era um silêncio ensurdecedor, quase como se eu morasse sozinha naquela pequena casa no interior — exceto nos fins de semana. Quando meu pai chegava na sexta-feira, deixava com minha mãe dinheiro suficiente para fazer uma feira para casa, ele pegava o resto e saía de casa. Chegava no domingo de manhã, caindo de bêbado, marcas de batom em seu pescoço, arranhões nas costas… sempre achei que ele tinha se metido em alguma briga e que alguém “tinha dado um beijinho para sarar". Minha mãe ficava furiosa… e ali, eu sabia que ia começar. Ela gritava, jogava tudo que estivesse perto dela na direção dele. Ele, ainda cambaleando, ficava de pé e pegava uma foice que ficava sempre no mesmo lugar. Por sorte, nunca passaram de ameaças e xingamentos. Mas eu me sentia tão impotente perante aquele cenário… Lembro que nos dias de semana, minha mãe sentava na sala e começava a ver algum filme… às vezes aqueles que passavam diretamente na tv, outras vezes os que ela comprara em DVD. Bem… o que posso dizer? A violência explícita em cada cena era assustadora… bem… era para ser. Eu não sentia medo da violência, dos gritos, da quantidade de sangue que mostrava… As manhãs eram quentes de uma forma que os dias atuais fazem parecer que eram frios… As noites eram frescas e não precisávamos de ventiladores na época. Lembro-me da primeira vez que vi o filme “Doce vingança" com minha mãe… eu tinha cinco anos. Foi estranho… mas eu não questionei, sempre confiei na minha mãe, ela não me dava motivos para não confiar nela. Mas ainda parecia errado. Nos feriados, ela me preparava um prato de macarrão instantâneo e me deixava ver algum desenho na TV, sempre que eu sentia aquele cheiro, eu podia sentir meu interior se aquecer, eu sentia segurança com um pratinho de miojo… é engraçado pensar nisso hoje, porque… era exatamente nesses momentos que minha mãe e meu pai tinham suas brigas mais fortes. Mas eu estava tão imersa, que eu não percebia na época… ou escolhi não perceber… “Acorrentados", filme de 2012… eu já tinha sete anos quando vi o filme pela primeira vez. Minha mãe estava na sala almoçando e eu estava ao lado dela, estava acostumada a ver os filmes que ela via, então, não me incomodou… mas se você já viu esse filme… sabe que não era para uma criança de sete anos estar vendo. Eu sentia uma mistura de raiva, tristeza e medo… mas essas palavras nunca foram ditas por mim na época. Eu me sentia mais uma telespectadora dos horrores que minha mãe adorava ver. Acho que depois de tanto tempo vendo esse tipo de filme, em algum momento da minha vida eu reproduzi isso nas brincadeiras. Estava no fundo do quintal brincando com minhas bonecas e comecei a fingir que elas eram parte de um desses filmes, imitando sons, gritos baixos para não chamar atenção e… bem… estava perdida em minha própria imaginação. Por algum motivo, essa memória foi esquecida até pouco tempo atrás, quando eu me lembrei do ocorrido, eu chorei; já tinham se passado 12 anos desde aquele incidente, como eu demorei para perceber isso? Me questionei tantas vezes que perdi as contas de quantas vezes eu me fiz essa pergunta. Sete anos… sete anos, reproduzindo uma coisa que ninguém me explicou sobre. Um acontecimento isolado, foi meu primeiro beijo… eu tinha cerca de seis anos e o filho da vizinha, que na época tinha doze, me perguntou se eu sabia beijar. Eu tinha seis anos, o que eu deveria dizer? Bem… a memória fica um pouco borrada nessa parte… a última coisa que me lembro é dele me beijando… nesse momento, algo aconteceu, algo que foi, no mínimo, estranho. Eu comecei a me ver. Ao ver aquela cena, estava prendendo o ar, estava apertando minha mão em punho, um desconforto subia por meu ventre, eu queria parar aquilo, mas ninguém nunca me disse que podia dizer “não". Depois disso eu não tenho nenhuma memória… foi como se tivesse sido um pesadelo… um pesadelo que aconteceu, mas que eu não lembrava de mão nada sobre. 2013, quase oito anos, meu tio havia falecido de AVC… eu jurava que podia ouvir sua bengala sendo arrastada atrás da parede do meu quarto… provavelmente era meu cérebro lembrando os sons que costumava ouvir. Algumas noites após ele morrer, sonhei com o mesmo, ele estava vestido de branco, um jardim muito bonito atrás de si… era quase… mágico… quando acordei, estava eufórica, contei a todos de casa que meu tio estava no céu agora. O que é irônico, porque, olhando agora, eu sei que aquele homem nunca iria para o céu se existe um Deus de verdade. Provavelmente, na época eu queria acreditar que ele estava num lugar bom, por não saber que as coisas que ele me fez eram erradas.
Nota do chat 8,5