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O silêncio daquela biblioteca municipal sempre foi o meu único anestésico. Tenho duas décadas de vida, mas quando as pessoas olham para mim, elas não veem o Ryan; veem o monstro. As arquiqueimaduras cobrem meus braços e o meu pescoço como uma armadura de carne repuxada, avermelhada e rígida, lembrança do incêndio que quase me engoliu anos atrás. O meu dia a dia é um exercício diário de humilhação silenciosa. Acordar significa encarar o espelho e sentir aquela pontada de auto-aversão. Por que eu não morri naquele dia?, é o que minha mente repete, como um disco arranhado, todas as manhãs. Para sair na rua, preciso de calças compridas e casacos de gola alta, mesmo no calor sufocante. Eu ando de cabeça baixa, mas ainda assim consigo sentir os olhares. As pessoas desviam o caminho na calçada. No transporte público, o banco ao meu lado sempre fica vazio; as pessoas preferem ir de pé a encostar na minha pele morta. Eu me sinto um fantasma que insiste em respirar. A solidão não é apenas a falta de alguém; é o peso esmagador de saber que sou uma aberração aos olhos do mundo. Os livros eram o meu único refúgio. Ali, no meio das estantes, eu não precisava ser o "garoto queimado". Eu podia ser um cavaleiro, um astronauta, qualquer coisa. Naquela tarde de chuva, porém, o meu refúgio rachou. Eu estava nos fundos do prédio, uma área antiga e esquecida, procurando algo para anestesiar os pensamentos autodestrutivos daquela semana, quando ouvi um choro miúdo, abafado. Um som de puro choque. Quando me aproximei, vi uma criança encolhida no chão, entre as sombras. Tentei falar com ela, usando a voz mais mansa que consegui, lutando contra o pânico interno de que até aquela criança fosse gritar de medo ao olhar para o meu pescoço. — Ei... você está bem? Cadê seus pais? — perguntei. Ela não disse uma única palavra. Só ergueu os olhos marejados, estendeu a mão trêmula e colocou uma chave de ferro antiga e pesada na minha palma. Depois, apontou para o lado. Quando virei o rosto para ver o que era, meu coração deu um salto tão violento que o peito doeu. Ali, onde antes havia apenas uma parede de tijolos maciços, agora se estendia um corredor comprido e escuro. Aquilo não estava lá um segundo atrás. Minha mente gritou que eu estava enlouquecendo, que o isolamento finalmente tinha quebrado a minha sanidade. Mas meus pés se moveram sozinhos. Uma curiosidade mórbida, misturada com aquele velho desejo de sumir do mundo, me empurrou para a frente. Caminhei pelo corredor vazio até encontrar uma salinha escura. No teto, uma lâmpada nua piscava de forma intermitente, com um zumbido irritante que parecia vibrar dentro do meu crânio. No centro da sala, sobre uma mesa gasta, vi uma caixa de madeira escura. Dentro dela, repousava um livro. A capa era de um preto absoluto, mas a textura... Deus, a textura parecia pele humana ressecada, áspera e fria, tragicamente parecida com as minhas próprias cicatrizes. Em contraste, letras grandes e brancas formavam um título que eu não conseguia compreender. Estava trancado por um pesado cadeado de ferro. Lembrei da chave na minha mão. Encaixei, girei e ouvi um clique seco. Ao abrir a primeira página, um calafrio correu pela minha espinha. Havia o desenho de uma entidade grotesca. Os braços eram excessivamente longos, terminando em garras finas. O rosto não tinha olhos, apenas órbitas profundas e vazias de onde parecia escorrer uma escuridão líquida. A boca era uma fenda vertical cheia de dentes afiados como agulhas. As páginas seguintes eram preenchidas por contos de terror. Mas não eram histórias comuns. Eram relatos de absurdos brutais, torturas tão realistas que meu estômago revirou. À medida que meus olhos liam aquelas palavras malditas, uma pressão insuportável começou a crescer na minha cabeça, como se meu cérebro estivesse sendo espremido. Senti lágrimas grossas escorrendo pelas minhas bochechas e, logo depois, o calor de um filete de sangue brotando levemente dos meus ouvidos. A dor física não era nada comparada ao pavor psicológico; aquelas palavras pareciam arrancar todas as minhas memórias felizes e deixar apenas o puro desespero. “Chega, eu não aguento mais, por favor, me deixa parar!”, eu implorava em pensamento, tentando fechar o volume. Mas algo no fundo da minha mente — uma força magnética, intrusiva, uma vontade que não era minha — ordenou que eu continuasse. Meus dedos, completamente trêmulos e desobedientes, pularam dezenas de páginas direto para a última. Lá, escrito com um fluido escuro que o meu olfato reconheceu instantaneamente como sangue, a palavra "Continua" se destacava. Logo abaixo, em letras miúdas, quase sussurradas no papel, eu li:
“A dor é o banquete dos esquecidos. Aquele que caminha entre o apodrecimento do espírito e a carne rasgada não possui carne real, pois ele é a própria personificação do fim. Petros observa o rastro de cinzas que os mortais deixam para trás, alimentando-se do desespero dos que foram queimados pelo destino.”
Fechei o livro de golpe. O terror me dominou de um jeito que nunca experimentei antes. Caí de joelhos no canto daquela sala escura, soluçando alto, abraçando as minhas próprias pernas enquanto tentava processar a loucura daquele momento. Eu morri? Isso é o inferno?, eu me perguntava entre os prantos, o peito subindo e descendo em uma crise de pânico descontrolada. Depois de longos minutos de agonia, me forcei a levantar. Eu precisava sair dali, precisava da minha dor antiga, mas segura. Caminhei até a porta da salinha e a empurrei. Mas o corredor da biblioteca tinha sumido. Eu congelei. Diante de mim, abria-se um salão vasto e colossal, onde o teto se perdia na escuridão eterna. O ar era espesso, impregnado com um cheiro insuportável de sangue fresco, carne podre e algo sulfúrico, nauseabundo. No centro daquele lugar, erguia-se um trono feito de ossos entrelaçados e carne cinzenta. E, sentado nele, estava a mesma entidade do desenho. Petros. Um medo primitivo me atingiu como um soco no peito. Minhas pernas cederam instantaneamente. Caí de joelhos. A pressão no ambiente era tão violenta, a aura daquela coisa era tão esmagadora, que os vasos sanguíneos do meu nariz, dos meus olhos e da minha boca se romperam. Senti o sangue quente vertendo e pingando no chão de pedra escura, misturando-se com as minhas lágrimas. Eu queria desmaiar, queria que a minha mente se apagasse para não ter que encarar aquilo, mas eu estava terrivelmente lúcido. Então, uma voz ecoou de todos os cantos. Não era uma voz humana; era o som de mil sussurros de almas agonizantes, a própria essência do mal e dos podres de espírito. Petros fixou aquelas órbitas vazias em mim. — Pequena criatura... vejo teu sofrimento — a voz dele vibrou dentro dos meus próprios ossos, fazendo cada cicatriz do meu corpo arder como se estivesse pegando fogo novamente. — Eu estive lá, Ryan. Sentado nas cinzas do incêndio que moldou a tua pele. Eu vi cada segundo do teu isolamento, cada olhar de repulsa que o mundo te deu. Eu vi você chorar no escuro do seu quarto desejando o fim. Você sofreu muito, arrastando-se como um verme queimado... mas teve sorte. Teve a sorte de ler o meu livro. De ser escolhido. Me mata, por favor, só me mata de uma vez!, eu gritava mentalmente, mas a minha boca só conseguia soltar engasgos de sangue. Antes que eu pudesse emitir qualquer som, meu corpo perdeu o contato com o chão. Comecei a levitar no ar, com meus braços e pernas sendo esticados por uma força invisível que parecia querer arrancar meus músculos do lugar. Petros se inclinou ligeiramente para a frente no trono, exibindo um sorriso rasgado e cruel que ia de orelha a orelha. — Bem que eu o digo... tu és uma história agora. O mundo dos homens precisa de monstros clássicos para justificar o medo do escuro. Vista a pele da fera que caça nas sombras das árvores. Sinta os dentes crescerem, sinta a fome pelo sangue dos inocentes nascer nas tuas entranhas. O lobo que assombra os contos... agora tem as tuas cicatrizes. Sinta o focinho se alongar, sinta as garras rasgarem tuas unhas humanas e a sua nova pele uivar para a lua cheia que logo vai nascer. Você vai caçar aqueles que riram de você na escuridão. Aquilo foi a última coisa que ouvi. O horror psicológico de saber o que eu me tornaria quebrou o resto da minha sanidade. Meus olhos reviraram, tornando-se completamente brancos. Meu corpo começou a se chacoalhar violentamente no ar, espasmando em convulsões enquanto sentia meus ossos estalarem, quebrarem e se reconfigurarem em ângulos impossíveis, rasgando a carne queimada para dar lugar a algo peludo, imenso e faminto. Pensamentos de tortura e morte me consumiram. Eu estava perdendo a humanidade. O Ryan havia morrido. O Lobo Mau havia nascido.
Parte I: A Sombra na Janela (Por Arthur) Eu ainda lembro do som exato daqueles blocos de montar batendo uns nos outros no chão da sala. Era uma noite de chuva fria, dessas que fazem os galhos das árvores baterem no telhado de um jeito esquisito. A televisão estava ligada em um canal qualquer, mas o som estava baixo porque a minha mãe tinha desabado no sofá. Ela estava exausta, coitada, depois de trabalhar o dia todo para conseguir sustentar a gente. Foi quando eu ouvi. Não foi o vento. Foi um som seco, metálico. Garras longas arranhando o vidro da janela de um jeito lento, como se quisessem chamar a minha atenção. Eu congelei no chão. Quando olhei para o vidro embaçado, meu coração errou uma batida. No meio da escuridão do jardim, dois olhos redondos, dourados e brilhantes como duas brasas acesas, estavam fixos em mim. — Mãe... tem uma coisa ali na janela — sussurrei, sentindo um arrepio subir pela minha espinha. Eu andei de joelhos até o sofá e puxei a barra da calça dela. — Mãe, acorda. — É só um bicho da noite, querido... vá brincar — murmurou ela, sem conseguir abrir os olhos de tão cansada. Ela virou o rosto para o outro lado e continuou dormindo. Eu voltou para perto dos meus brinquedos, mas não consegui mais mexer em nada. Minhas mãos começaram a tremer. De repente, um vento gelado e com um cheiro horrível — um cheiro de carne estragada e terra molhada — invadiu a sala. A janela estava escancarada. Quando olhei para o sofá, o meu grito travou na garganta. Não era um animal comum. Aquela coisa estava de pé, sobre duas pernas traseiras, imensa e musculosa, coberta por um pelo preto e sujo que parecia morto. Ela estava curvada exatamente sobre a minha mãe. Mas o pior de tudo era o rosto. Não parecia o focinho de um lobo normal; parecia que a cara dele tinha sido rasgada em pedaços e costurada de volta com um fio preto e grosso, deixando cicatrizes rígidas, avermelhadas e repuxadas por toda a pele. A fera abriu a boca — e ela se abriu tanto que parecia rasgar o resto do rosto, indo de orelha a orelha. Uma saliva grossa, quente e espumosa pingava direto no estofado do sofá, bem do lado da cabeça da minha mãe. Dava para ver fileiras e fileiras de dentes afiados, amarelos e cheios de restos de carne. Eu fiquei paralisado, sentindo o pior medo que já experimentei na vida. O ar simplesmente sumiu do meu peito. — MÃE! — eu finalmente consegui gritar, com toda a força do meu desespero. No mesmo milésimo de segundo em que o grito saiu da minha boca, a bocarra do lobo se fechou com um estalo violento. O barulho de ossos quebrando ecoou pela sala toda. Antes que eu pudesse entender o que estava acontecendo, um jato de sangue quente e escuro espirrou direto no meu rosto, cobrindo meus olhos. Eu comecei a chorar e a soluçar alto. Limpei o sangue do rosto com a manga da camisa e corri desesperadamente em direção à porta da rua. Eu não sabia para onde estava indo, não conseguia pensar em nada, só precisava fugir daquele monstro.
A minha respiração queimava no peito enquanto eu corria pela floresta escura. Os galhos das árvores pareciam garras rasgando minhas roupas, e minhas bochechas ainda estavam pegajosas com o sangue da minha mãe misturado com a chuva. Eu não consegui parar de chorar. De repente, meu pé prendeu em uma raiz exposta e eu caí de cara no chão lamacento. O desespero foi tanto que achei que ia morrer ali, até que senti uma mão trêmula puxar o meu braço para cima. Era uma menina. Ela também estava chorando, com os olhos arregalados de pavor. — Foi o... o Lobo Mau... não foi? — ela perguntou, a voz falhando pelo choque. — Sim! — eu gritei entre os soluços, limpando a lama dos meus olhos. Olhamos em volta e, no meio daquela escuridão de tempestade, avistamos uma cabana velha com luzes acesas entre as árvores caídas. Nós corremos com todas as forças que nos restavam, empurramos a porta de madeira, entramos e passamos a tranca. Eu apoiei as costas na porta, tentando recuperar o fôlego, achando que estávamos salvos. Mas o meu alívio durou poucos segundos. Quando olhei para o interior da cabana, meu coração parou. O Lobo Mau já estava lá dentro. Ele nos esperava, perfeitamente camuflado nas sombras de um canto escuro da sala. — Vocês entraram na minha casa... — a fera rosnou, e a voz dele era um estrondo que fez o chão vibrar. Ele deu um passo à frente, exibindo aquele mesmo sorriso rasgado, costurado e cruel. — E agora nós iremos brincar. Com uma das patas peludas e grotescas, o lobo puxou uma terceira criança que estava escondida atrás dele e a jogou no chão, perto de nós. Era uma menina vestindo um capuz vermelho que parecia encardido de sujeira e sangue velho. O pavor nos olhos dela me deu um nó no estômago, mas o pior foi quando olhei para o rosto dela: a boca daquela menina tinha sido costurada. Os lábios estavam presos uns nos outros por uma linha preta e grossa, um trabalho feito de forma totalmente brutal e malfeita. Ela tentava gritar, mas só conseguia soltar gemidos abafados e desesperados. — Eu vou buscar mais alguns pequeninos... — o lobo disse, enquanto a saliva escorria grossa pelos seus dentes sujos. Ele passou por nós como uma lufada de vento gelado, abriu a porta, saiu e a trancou por fora, deixando a gente trancado naquela escuridão maldita.
O monstro caminhou para fora, pisando na grama encharcada sob a luz da lua cheia. Mais adiante, na clareira, ele avistou três casas de madeira. Na primeira delas, aproximou-se em silêncio e espiou pela janela de vidro. Uma mãe carinhosa estava ajeitando os filhos na cama. — Não abram a porta para ninguém, meus amores. A mamãe já volta — disse ela, pegando um casaco para buscar lenha do lado de fora. O lobo, observando da escuridão, começou a salivar intensamente. Uma fome indescritível e monstruosa dominou suas entranhas. Ele esperou a mulher se afastar alguns metros da casa e saltou sobre ela como uma sombra. Uma de suas garras cobriu a boca da mãe para abafar o grito, enquanto os dentes afiados rasgavam e arrancavam metade do seu estômago em uma única e violenta mordida. Dentro da casa, os dois filhos esperavam pela volta da mãe. — Eu sou o mais velho, eu estou no comando agora — dizia o irmão maior, tentando parecer corajoso diante do barulho da tempestade. BAM. BAM. BAM. Uma batida seca e pesada ecoou na porta de madeira. — É você, mamãe? — perguntou o irmão mais velho, aproximando-se com passos lentos. He se esticou e olhou pelo pequeno olho mágico da porta. Do outro lado, ele viu claramente o rosto de sua mãe, estático, encarando a entrada. — É a mamãe! — ele disse, aliviado, girando a chave e abrindo a porta. O horror se revelou por completo: o lobo estava de pé no batente, segurando apenas a metade superior do corpo mutilado e sem vida da mulher. Com um baque surdo, a criatura jogou os restos mortais no chão da sala. — Eu cheguei, pequeninos... — sussurrou a fera, com a voz vibrando dentro das paredes. O lobo abriu a boca enorme, coberta de sangue fresco e saliva, e ficou encarando as duas crianças aterrorizadas, fixando seus olhos dourados nelas sem piscar, antes de dar o primeiro passo para dentro da casa.
Enquanto o monstro estava lá fora, o silêncio na cabana era sufocante. Eu me aproximei devagar da menina do capuz vermelho. Ela gemia baixinho, tremendo da cabeça aos pés. Com as unhas trêmulas e muita pressa, ela começou a puxar e a romper a linha preta que prendia seus lábios. Eu virei o rosto por um segundo quando vi o sangue novo escorrer, mas ela aguentou a dor e conseguiu abrir a boca. Sua voz saiu fraca, fria e completamente sem vida: — Ele me torturou... Já faz tanto tempo que estou trancada aqui que perdi a conta dos dias. Mas, agora que vocês estão aqui, tem uma saída. Olhem lá em cima, perto do telhado... tem um buraco na madeira. Se um ajudar o outro e subir nas costas, dá para chegar... mas um de nós vai ter que ficar para trás para dar apoio aos outros. Eu olhei para o rastro de sangue no queixo dela, chocado com tanta crueldade, e perguntei: — Mas o que ele fez com você... para você estar desse jeito? A menina olhou para o chão de terra da cabana, com os olhos vazios, e começou a contar o seu pesadelo:
— Eu tinha que ir entregar uma torta para a minha avó — disse ela, e dava para ouvir os dentes dela batendo de frio e medo. — Ela era de idade, morava isolada bem no meio da floresta e não podia vir até a minha casa porque era longe demais. No meio do caminho, esse lobo completamente assustador me parou. Dava para ver a forma estranha dele, andando como um homem, e aquela saliva nojenta que não parava de cair da boca. Ele olhou para mim e perguntou: "Por que andas sozinha, pequenina?". Com muito medo, eu respondi que estava levando um doce para a minha avó. Ele sorriu de um jeito horrível e me mandou seguir por um atalho, dizendo que eu chegaria mais rápido... mas na verdade era o caminho mais longo. Ela engoliu o choro em seco e continuou: — Eu percebi que estava demorando muito. Quando finalmente cheguei na casa da minha avó e chamei por ela, ninguém respondeu. Abri a porta e vi o lobo deitado na cama, usando as roupas dela. Ele olhou para mim com aqueles dentes enormes e disse: "Oh, netinha, eu tenho um presente para você". De trás das costas, ele tirou uma torta... e quando eu olhei de perto, vi que ela tinha sido feita com os dedos decepados da minha verdadeira avó. Depois disso, ele me arrastou para cá e me fez coisas terríveis... vocês sabem bem do que ele é capaz.
Ouvir aquilo me deixou em estado de choque. Pensar no que aquele monstro tinha feito com a minha mãe e com a avó dela me deu uma náusea terrível. Mas a Rebeca, a menina que tinha me salvado na floresta, bateu no meu ombro e tomou a decisão por nós: — Eu sou a mais rápida. Eu subo primeiro, ajudo a menina do capuz a subir e vou correndo buscar ajuda na floresta o mais rápido que puder. Arthur, promete que vai aguentar firme aqui embaixo? Eu balancei a cabeça, engolindo o choro. Eu sabia que alguém precisava dar o apoio para elas subirem, então eu ia ficar. Eu me apoiei na parede, dobrei os joelhos e mudei de posição. Com muito esforço, as duas meninas subiram nas minhas costas. Eu usei toda a força das minhas pernas para empurrá-las para cima até que elas alcançaram a abertura escura no telhado. Eu vi as pernas delas sumirem para o lado de fora. Fiquei ali sozinho, na escuridão daquela cabana nojenta, ouvindo os passos delas correndo no telhado e, depois, os gritos de socorro sumindo aos poucos entre as árvores da floresta. Eu só conseguia rezar para que elas encontrassem alguém antes que o lobo voltasse.
As duas meninas correram pela mata fechada até que, após minutos de puro pânico, avistaram uma luz fraca entre os troncos. Era um lenhador robusto, trabalhando no corte de uma árvore sob a luz de uma lanterna de querosene. Elas caíram aos pés dele, gritando e chorando. Ao ouvir a história sobre o monstro, a cabana e o menino que havia ficado para trás, a fisionomia do homem mudou instantaneamente; ele lembrou dos terríveis relatos de desaparecimentos que vinham assombrando a região. Com o machado empunhado, o lenhador correu junto com as meninas de volta para a cabana. Eles invadiram o local bem a tempo, puxando Arthur do buraco antes que a fera retornasse. Porém, quando se viravam para fugir pela porta principal, a silhueta colossal do Lobo Mau bloqueou a saída. — Vocês acham que podem roubar as minhas crianças? — rugiu o monstro, as cicatrizes do rosto se repuxando em fúria. — Eu vou matar cada um de vocês! O lenhador não hesitou. Com um grito corajoso, ele avançou contra a fera. O lobo saltou com as garras estendidas, mas o homem girou o machado em um arco violento. O som de carne rasgando e osso partindo ecoou na cabana quando a lâmina decepou o rabo do lobo e arrancou um pedaço imenso de sua panturrilha. O monstro soltou um uivo de dor agudo e insuportável. Mas a força da criatura era devastadora. Ignorando o ferimento que jorrava sangue escuro, o lobo usou seu peso para derrubar o lenhador no chão. Com uma patada violenta, desarmou o homem e, abrindo a bocarra monumental, mordeu a cabeça do lenhador, esmagando o crânio e engolindo-o em uma cena de pura barbárie. O lobo virou o rosto coberto de sangue para as crianças, os olhos dourados brilhando com o desejo de vingança. Mas a menina do capuz vermelho já não era a mesma vítima de antes. Aproveitando os segundos de distração durante a briga, ela havia chutado a grande lanterna de querosene do lenhador sobre um monte de palha seca e tecidos velhos perto da parede. O óleo inflamável se espalhou rapidamente pelo chão de madeira. Quando o lobo deu o primeiro passo em direção a eles, a menina riscou um fósforo e o jogou no chão. As chamas explodiram instantaneamente. O fogo subiu pelas pernas feridas do lobo, espalhando-se rapidamente pelos seus pelos pretos e espessos. A fera começou a queimar viva, debatendo-se e uivando em agonia extrema enquanto o cheiro horrível de carne queimada infestava o ambiente. Ganhando uma última força antes que a estrutura desabasse, o lobo quebrado e em chamas cambaleou para fora da cabana, caindo de joelhos na lama sob a chuva fina. Sua pele estava totalmente carbonizada, rígida e destruída. — Olhe... olhe o que você fez comigo... — sibilou o lobo, a voz falhando, fraca, voltando a parecer o lamento de um humano desesperado. A menina do capuz vermelho aproximou-se lentamente, arrastando o pesado machado do lenhador que havia conseguido recolher do chão. Seus olhos não tinham mais nenhuma gota de medo, apenas uma frieza absoluta. — Esse é o seu fim, Lobo Mau — disse ela. Erguendo o machado com toda a força de seus braços, ela desceu a lâmina pesada diretamente contra a cabeça da criatura, partindo o crânio do monstro e encerrando, de uma vez por todas, o pesadelo daquela floresta.