Fantasmas não existem

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“Há certa beleza na tragédia”, penso, presenciando a maior delas desde que entrei para o Corpo de Bombeiros, a nove anos atrás.

Nos instantes logo após o incêndio, na maior loja de departamentos da cidade, um tumulto se formou na avenida, apesar dos esforços da polícia e da minha equipe em conter a multidão. A comoção já não me permite a preocupação com a fumaça e a dor de cabeça que ela causou, o corpo retesado, dolorido da roupa pesada, coberta de fuligem. Entre tapinhas nas costas e um microfone de uma repórter intrometida debaixo do meu nariz, tento dispersar curiosos, e até uma menina maltrapilha, perigosamente perto da zona de contenção.

Percebo que ela não deve ter mais de 10 anos, magricela, talvez vivendo na rua desde que nasceu. Os olhos azuis me fitam confusos. Não se move.

Engraçado o silêncio após a destruição, percebo. Olho ao redor, perdido, a mente confusa; uma chuva fina começa, como uma piada ruim. Água que não lava nada, porque certas coisas simplesmente não podem ser purificadas.Como as lembranças que agora inundam a minha mente.

Ela se chamava Letícia, um relâmpago, o anúncio de um tormento, daqueles bonitos, que se formam no céu com cor de chumbo, antes da tempestade. Ironicamente, bem no meio de uma lá estava ela, sentada no banco molhado, roupas e cabelos úmidos. Sempre esperando.

Não era incomum na época eu encontrar uns semelhantes, lobos solitários que saíam para correr no parque fugindo do purgatório de suas vidas, os quais eu observava enquanto fumava meu cigarro, sentado no banco, tarde da noite após um ou outro dia especialmente problemático.

Até a chuva constante, incômoda, parecia melhor. Ela se destacava porque os lobos solitários pareciam todos conhecê-la, e porque estava sempre lá, sem falta. Eu me perguntava quem era a moça esguia, sem traços particularmente bonitos, de pele albina, com quem alguns conversavam sempre,na entrada do pequeno bosque na área mais afastada do parque, ainda mais naquele horário.

Soube que era psicóloga. Minha curiosidade me levou à aproximação, e quando eu percebi já estava contando a ela como decidi seguir a carreira de bombeiro pelo fato de ter visto minha irmã pequena se afogar na piscina e não ter conseguido fazer nada para salvá-la. E ela compreendia.

Colecionava meus traumas escondidos. E os de muitos outros também.Quando nossos encontros se tornaram algo rotineiro, subitamente ela me fez o convite. A princípio eu pensei que fosse alguma besteira do tipo Alcoólicos Anônimos, terapia em grupo, ou qualquer outra tentativa inútil de me fazer superar o fato que me fizera chegar até aqui.

E porra,como eu estava enganado.

Nada teria me preparado para as sessões. As malditas sessões.

As noites de purificação ocorriam no surrado galpão mal iluminado, escondido no final de uma estradinha de terra depois da rodovia que ligava a cidade à interestadual. Eu ignorantemente aceitei. Na minha primeira noite, lá estava eu, desconfiado, junto de outras figuras que eu conhecia vagamente, dos assíduos corredores no parque, outros completamente estranhos para mim. Um homem de meia-idade, dois adolescentes parecendo entediados, uma senhora com fortes traços orientais vestida com um kimono. O vento gelado soprava constante, a apreensão pesada como uma bigorna. Letícia contava que aprendera sobre a purificação nos meses em que havia passado em um mosteiro recluso em um país desconhecido na Ásia.

“O medo é como um feto, precisa ser gerido.”, ensinava. “Só ele trará ao mundo a sua melhor versão.”. O princípio da libertação. Era necessário que os seus maiores medos se tornassem reais para despertar a sua essência. Aquela que o mundo precisava ver, precisava aceitar. Porque o mundo precisava ser punido, afinal. E com isso, as torturas, a implosão silenciosa da mente.

A penumbra encobria meus sentidos, aquela noite. A frágil senhora de kimono estava no centro do galpão, Letícia ao seu lado, e nós formávamos um círculo bagunçado. Ela se despiu completamente, e eu contemplei horrorizado enfim no que estava me metendo.

O corpo enrugado exibia cicatrizes de marcas gravadas a ferro. Símbolos, palavras, assinaturas estranhas. Desenhos. Não era possível. Como uma droga de muro pichado. A enorme cicatriz que cobria o vazio de um seio direito provavelmente consumido pelo câncer cortava as marcas em seu torso grosseiramente.

Ela parecia sorrir, um sorriso sincero, que perturba meus sonhos ainda, de vez em quando.Anos depois, as vozes sussurradas ecoam em minha mente, com o tinido dos instrumentos metálicos, os gritos, as mesas improvisadas no galpão vazio. As pessoas que se voluntariavam para aquilo. O encorajamento que nós precisávamos, segundo Letícia. É verdade que algumas coisas precisavam vir para este mundo. Coisas grotescas desesperadas para nascer. Um trabalho aos predestinados.

Tudo parece loucura. Cada um dos encontros, dos sequestros dos quais participei. O infeliz reconhecimento, a cada vez que eu andava pelas ruas, da música cantada em uma língua estranha, gutural, decorada por cada mendigo, assoviada em cada beco, entonada baixinho em algum lugar das estações vazias do metrô.

As noites de insônia no apartamento improvisado onde passei a morar se tornaram uma obsessão, um objetivo. Eu precisava investigar. O problema é que eu já estava envolvido demais com Letícia, e as marcas no meu corpo atestavam isso. Certa noite, um conhecido da polícia me mandou o relatório do registro cassado no Conselho de Psicologia. E as malditas reportagens.

“Homem de 70 anos atira contra residentes e funcionários da casa de repouso onde morava.”

“Conhecida pianista decepa os próprios dedos em apresentação ao vivo. Fãs e família estão em choque”.

Purificados, finalmente.

Quando Letícia anunciou a gravidez, foi a gota d’água para mim. Não poderia viver essa loucura, não com ela. Fugi no meio de uma noite fria, enquanto ela me observava da janelinha imunda do apartamento, um sorriso sem vida no rosto branco como giz.

Por isso que, há duas semanas atrás, enquanto eu inspecionava a nova loja de departamentos que ironicamente aproveitava as velhas instalações elétricas de um imóvel moribundo do centro (alvo de várias denúncias, que surpresa) me recordei do que meu pai dizia, quando a vi na minha frente.

“Fantasmas não existem, Eric.”, ele dizia, tentando afastar meu medo. “O mal jamais perderia a oportunidade de ser encarnado”.

E naquele momento, percebi que ele tinha razão.

Porque a expressão sem alma, os olhos anormalmente azuis que me encaravam e a pele albina rosada, descascada, atestavam que Letícia era mais real do que eu desejava. E agora parecia trabalhar ali, atrás do balcão, em uma maldita loja de departamentos na cidade onde eu me refugiara há quase uma década, a pelo menos duas centenas de quilômetros distante do lugar onde a conheci.

Eu não me orgulhava de ter fugido, mas foi necessário. Meu noivado com Sheila, a filha do Governador, tinha acelerado bastante o processo para conseguir a vaga na Corporação, e eu tinha conseguido finalmente estabilizar as coisas. Quase podia dizer que estava feliz. Até ela voltar.

Aproveitei que a loja parecia bastante vazia, a não ser pelas centenas de manequins brancos que me rodeavam, curiosos. Puxei-a de lado.

“O que você pensa que está fazendo aqui?”, perguntei. Eu não sucumbiria de novo à lavagem cerebral a que ela me submetera e a tantos outros. À sua seita.

“Você esteve tão perto, Eric. Mas rompeu o processo. É impossível prever as consequências agora, eu receio. A propósito, eu estou exatamente onde precisaria estar. Por ela. Mas principalmente por você, para consertar as coisas. Consertar você.”.

A revelação que se seguiu me atingiu como um soco. A menina nascera em Novembro do ano em que nos conhecemos, o ano em que estávamos irremediavelmente juntos. Morreu cedo, acometida por uma doença grave. Congênita. Atingia uma a cada 10 mil crianças, algo assim.

E atingiu Heloísa.

Não sou um monstro, sabe. Chorei por Heloísa, mesmo sem conhecer, mesmo fugindo como um covarde, como chorei pela minha irmã; mortas tão precocemente! E claro, pelo incêndio que acabo de testemunhar. Tragédias são, pelo jeito, apenas meu motor de vida, como ambição e dinheiro são para certas pessoas. Algumas tragédias, porém, mais anunciadas que outras.

Uma fiação elétrica falha, desgastada por décadas. O material altamente inflamável no forro da loja, sim.Laudos que atestavam a regularidade do imóvel feitas provavelmente por um bombeiro que se venderia por qualquer coisa.

Coincidências alinhadas a um propósito, eu acho. Porque o desfecho não poderia ser diferente do que foi.

Quando cheguei ao local essa manhã, a fumaça negra já tomava conta de metade do quarteirão. “Primeiro as pessoas”, eu murmurava baixinho. O princípio maior da Corporação foi repetido inúmeras vezes antes de adentrarmos o prédio. Entramos em quatro. Dois inspecionaram o térreo, eu e outro colega subimos a escada, rumo à maior área da loja. Cléber partiu para o lado esquerdo, enquanto eu vistoriava a comprida ala que ao fim levava aos caixas. O calor era insuportável, e o barulho das chamas, ensurdecedor. Algumas vigas bloqueavam uma parte do acesso, outras perigosamente penduradas próximas à saída de emergência.

Me curvei para passar até o outro lado. O crepitar das chamas era terrivelmente solitário. O som de materiais se desfazendo para sempre.

Os funcionários e clientes tinham sido todos evacuados, eu atestara. O fogo consumia quase toda a área dos caixas, destruindo rapidamente as banquetas, as araras de roupas, as caixas, o estoque.

E as dezenas de manequins brancos, alguns em pé, outros caídos ao chão, deformados. “Sem vítimas por aqui’, eu gritei. Silêncio. Se Cléber assentiu, eu não consegui escutar.

Eu virava as costas para sair, enquanto ainda havia tempo, mas um ruído me incomodava. Ruído não, mais como um guincho. Vindo do amontoado de manequins retorcidos pelo calor.

Exceto que manequins queimando não gritam.

Não cheiram a carne torrada, não têm a pele desprendida lentamente, ossos expostos, olhos que pendem das órbitas que não os seguram mais.

Manequins não têm olhos azuis leitosos que me observam antes de morrer.

A surpresa me atingiu tão forte quanto o torpor. Fiquei imóvel, os membros paralisados pelo pavor. Mas afinal de contas ela finalmente estava alcançando a purificação que desejava. Pelo próprio fogo, dessa vez.

Está acabado.

Eu saio aturdido do círculo alvoroçado de pessoas ao meu redor, o vômito se agarrando às minhas entranhas pouco a pouco. As perguntas, a polícia, os meus colegas, parecem ecos distantes.

A menina maltrapilha me observa com seus olhos cegos, parcialmente encobertos pelo cabelo loiro, desgrenhado. As queimaduras de sol na pele marcada pela sua condição.

Marcada pelo albinismo.

Hereditário. Transmitido de mãe para filha, como uma sádica lembrança.

Eu corro desesperadamente em direção à rua, sem rumo, sem esperança, minhas pernas recobrando o pouco de força que me resta. Olho para trás, e só consigo enxergar a pequena menina, encostada no muro, perto da faixa de contenção, sentada no chão sobre um velho kimono imundo, manchado de um vermelho-escuro desbotado. Sua mão cuidadosamente envolta no pingente em formato de ‘H’ da pequena corrente que carrega no pescoço.

“É verdade, pai.”, penso, antes de ouvir a buzina repentina do carro que me atinge no meio da pista. “Fantasmas não existem.”.

Porque o mal não se esconde em histórias para manter crianças acordadas, em filmes ruins ou lendas idiotas.

Ele é encarnado.