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E apenas assim, de forma tão ingênua e despreocupada, aquilo vem para mim. Havia algo lá fora e agora a madeira range, meus pensamentos, vozes inconcretas, correm desesperadamente dentro de minha cabeça obtusa enquanto a coisa se arrasta. Tábuas que gemem, e gemo de volta, meio sem saber porquê. De alguma forma, o som não faz sentido. Ecoa dentro de meu peito oco e novamente, algo quer florescer em mim. "As flores do mal", é? Eu deveria saber, houvera a necessidade de me acostumar com meus pequenos rastejadores, escorrendo corpo abaixo por debaixo desta pele, resquícios carnais, bolhas virais e tudo mais. Talvez seja este problema que me assola, no fim, meu calejado, palpitante coração, estas restritivas costelas, poderiam ser a tal Caixa de Pandora? Seria isso a base, apenas esperando para ceder, o cessar da firmeza que provém destas exaustas vértebras? Um som terminal, um craque que não causará arrepio nenhum pois catalisará o fim de qualquer sensação neste corpo contaminado pela mente?
Quem sabe. E a coisa parou. Dentro de casa, no limiar, em uma outra borda, minha porta arranhada e de pregos enferrujados. E essa coisa, que começarei a chamar de "Trimegisto", deixa de ficar tão inerte e minha porta vira só uma memória. Lascas de madeira e os tais pregos se materializam onde costumava estar minha tão querida e amada porta. Ah, de qualquer forma.
Trimegisto então, com seus olhos injetados e carne porosa e esfumaçada, lança seu olhar em minha direção e encontra uma figura sentada na cama, tão despreocupada quanto meu amigo destruidor de portas. Deveriam fazer uma estátua em seu nome, o filho da puta. Espero que se lembrem de seus feitos até o fim dos tempos e que até então haverá ainda um outro pobre coitado que escreverá em seu túmulo: "Aqui jaz Trimegisto, Conquistador de portas." "Cala boca. Cala a porra da sua boca, sua puta idiota.", diz meu pequeno pedaço de inferno! Rude. Por que tão grosseiro? Mas assim como é de praxe entre nós, falei nada. Deixe-me explicar bem brevemente: Trimegisto é a cristalização de meus problemas, de minha raiva e tristeza. Pense no sofrimento como uma ferida, e sendo uma ferida, existe o lado de fora e o lado de dentro. Pois bem, Trimegisto se odeia devido sua própria natureza, e também me odeia e odeia o mundo, mas principalmente a mim, por tê-lo "criado".
Ainda me lembro do dia de sua concepção, o tal milagre da vida! Eu descia as escadas noutra madrugada solitária e como de costume, a paranoia era minha companhia. Ainda era bem solitário, no entanto. Isto é, entenda: Eu estava de fato só, mas havia uma sensação nova, algo novo embrulhado em sentimentos antigos. Meu estado de alerta piorou, e se antes eu tinha certas compulsões, certos maneirismos incomuns, começaram a virar obsessões. Antes eu evitava me olhar em espelhos, meus olhos podiam ser portas (tomara que isso dê nenhuma má ideia a Trimegisto, agora que paro para pensar...), talvez janelas, eu tinha medo que alguém ou algo pudesse ver meu reflexo na superfície plana. Censurava meus pensamentos, talvez pudessem ser concebidos por um outro. E então, aquele tal apogeu. Apaguei a luz da cozinha e me virei para subir as escadas, e aí o vi. Ou melhor, não vi, apenas ouvi um farfalhar ruidoso e paralisei quando a voz começou. Essa ainda não era a voz de Trimegisto, no entanto, se tratava de um tom gutural e animalesco, como uma lâmina arranhando qualquer pedra de amolar, e com o passar dos segundos, outras vozes também foram se juntando em uníssono, falando sem parar. A princípio, não me atrevi a olhar. O som errático e quebradiço me chamava, como se viesse de minha mente e de todos os lugares, ao mesmo tempo.
Aquilo, a coisa, soava como eu. Dor, sofrimento, reclamações, lamentos. Pude ouvir tudo ecoar em minha mente diversas e diversas vezes. Precisei me forçar a subir as escadas, mas de nada adiantou isso e me virei, e assim havia nada além de mim e o gotejar de minha curiosidade se esvaziando. Eu estava só. Foi quando aquele pensamento se alastrou por minha mente como uma doença pestilenta: "Seria possível a cristalização da dor?" E agora, como bem sabemos, a resposta é sim. Foi possível que meus problemas se tornaram matéria sólida, isso foi o que me ocorreu. Minha própria desgraça criou vida e lhe foi dada a missão de me matar, apenas por que a alimentei. Meus problemas tomaram forma e um agouro de morte nasce deles, uma amálgama de desgraças. Nessa época, as batidas não paravam, por mais que eu sempre as ignorasse. Batida, batida, batida. Repetidamente nas paredes de meu crânio, rachando e permitindo escorrer o líquido viscoso. Os ponteiros giraram fervorosamente pelo relógio, assimétricos, mas sobretudo com certa melodia e não com o tique taque ordinário. "Não vai parar de se desconvidar tão rudemente? Não? Então tenha em mente, o apogeu é apenas o início do fim." E então, antes de voltarmos para o presente momento, vou apenas completar que Trimegisto acabou por se cansar de me atormentar apenas em minha mente, e suas batidas, antes reservadas apenas a minha cabeça doente e atormentada, vieram a ser de propriedade de minha (agora falecida) porta. Bom, agora que ela se foi, me pergunto se Trimegisto está considerando voltar com certos hábitos. Ele me encara, tremendo e de punhos fechados, mas acho que seu péssimo humor já era evidente, afinal, minha porta jaz em pedaços diante de mim e minha cama desarrumada. Facínora.
"Foda-se.Cansei de você e de seus solilóquios intermináveis! Para o caralho com isso, hoje você me paga. Vou cravar a palavra 'Verdade' naqueles pregos enferrujados e seus olhos finalmente saberão o preço do conhecimento, a luz que tu antes ansiou tão fielmente!" Trimegisto, será que você poderia parar de drama um pouco? Estou de luto pela minha porta. É, isso. Estou tão triste por ela que nem ouvi o que você estava dizendo? E agora, silêncio enquanto a besta ensandecida me encara no espaço que antes era... Espere um pouco, o que você disse? "Que queria que você morresse, Kim." Não, isso não. A outra coisa, o que era? "Você sabe que não vou te matar, que eu nunca faria isso. Você sabe porque fosse esse o caso, eu não estaria aqui parado na sua porta falando um monte de bosta enquanto tu continua mofando nesse quarto." Ah, é. É verdade, que engraçado. Então, o que você sugere que façamos? "Como assim?" Não sei. Você sempre vem, faz um pequeno teatro para mim e então se vai por sabe se lá quanto tempo, para fazer... Bom, seja lá o que você normalmente faz. Por que não tentamos algo diferente, desta vez? E Trimegisto, nem um pouco impressionado ou qualquer coisa, se senta do meu lado na cama velha, rangendo madeira, novamente.
Nota do chat 10