O MISTÉRIO DO FIO DE CABELO

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O sol do meio-dia no sertão rachava o cocoruto da gente e fazia a terra estalar de quente. Era só ver a fumaça azulzinha subindo pela cumeeira da cozinha que eu largava a enxada no canto do terreiro, arrastava os pés na poeira e tomava o rumo de casa, já com o estômago roncando de antecipação. Maria já deixava o prato pronto na mesa: feijão grosso, arroz estalando de toucinho, farinha d’água e um pedaço de carne de sol fritando na banha. Coisa simples, mas abençoada.

No primeiro dia, eu nem liguei. Dei a primeira colherada caprichada, levei à boca e senti um negócio esquisito, meio travado na ponta da língua. Puxei com os dedos.

Era um fio de cabelo comprido.

— Mulher, tenha Santa Paz! Presta mais atenção quando for mexer nas panelas! — reclamei, já meio contrariado.

Maria jurou por Deus e pelos santos do altar que o cabelo não era dela. No dia seguinte, aconteceu de novo. No outro também. Depois de uma semana inteira achando aquela desgraça no feijão, no arroz, no cuscuz e até na farinha seca — o que, cá entre nós, desafiava as leis da física e da culinária —, eu já tava com a pulga atrás da orelha, desconfiado de que Maria fazia aquilo de propósito só para provar a minha paciência.

Aí a casa virou um verdadeiro cenário de guerra psicológica. Maria começou a cozinhar com um pano amarrado na cabeça, parecendo uma rezadeira.

O cabelo apareceu.

Ela raspou o cabelo todinho, ficou careca que nem uma cuia.

O cabelo apareceu.

Passou a usar duas toucas de natação empilhadas.

O cabelo apareceu.

Perdendo o juízo, mandei comprar marmita na venda do Seu Zé.

O cabelo apareceu.

Fui almoçar na casa da minha mãe.

O cabelo apareceu.

Até o padre, com pena do meu tormento, me chamou para almoçar na casa paroquial depois da missa de domingo. Adivinha? Achei dois fios enrolados na batata cozida. O vigário me olhou com os olhos arregalados, benzeu-se com a mão esquerda e disse, com a voz mansa:

— Meu filho... desculpa, mas isso aí já foge da minha alçada e vai direto pro setor do nosso inimigo.

Foi aí que a paciência estourou de vez. O povo diz que o homem nasce com duas fomes: a de comer e a de reclamar. No meu caso, eu tinha as duas dobradas, e a birra já tinha virado uma questão de honra.

Bati com a mão na mesa de madeira com tanta força que o prato de barro quase estilhaçou.

— Hoje essa palhaçada acaba! Maria, bota dois ovos pra cozinhar na água e sal! Só isso!

Maria arregalou os olhos, assustada lá do fogão a lenha:

— Dois ovos, homem? E a carne? E a sustança?

— Hoje eu não tô brigando com a fome, Maria. Hoje eu tô brigando é com a ciência e com o capeta! Quero ver agora esse maldito cabelo entrar dentro de um ovo fechado pela casca!

A água ferveu, os ovos cozinharam. Ela tirou da panela e botou os dois fumegando no prato, no meio da mesa. A cozinha silenciou. Maria ficou espiando pelo batente da porta, segurando a barra do avental, achando que eu tinha perdido o juízo de vez.

Peguei o primeiro ovo, bati de leve na borda da mesa para trincar a casca e fui descascando com cuidado. Tirei a película branquinha. E lá estava ele: um fio de cabelo preto, grosso e insolente, perfeitamente deitado em cima da gema amarela.

Olhei pro ovo. Olhei pra Maria lá longe. Olhei de novo pro ovo.

Foi bem nessa hora que a porta da cozinha bateu com um vento frio que nem era daquele tempo de calor. A cadeira da minha frente se arrastou sozinha no assoalho.

Um cabra esquisito sentou-se à mesa como se fosse o dono da casa. Estava todo vestido de preto, com um chapéu de couro batido, um sorriso amarelo de orelha a orelha e um garfo enferrujado na mão. Olhando bem de perto, dava para notar os detalhes: o casco da botina estalando no chão, o rabo peludo balançando disfarçado por baixo do assento e os chifres retorcidos tentando se esconder debaixo da aba do chapéu.

Era o próprio Cão em pessoa.

O Coisa Ruim puxou o segundo ovo para perto dele, bateu na quina da mesa, descascou com uma unha pontiaguda e encontrou outro fio idêntico. Ele arregalou os olhos, bateu com a mão na mesa e gritou, indignado:

— MISERICÓRDIA! DE NOVO ESSA DESGRAÇA?!

Ficou uns dez segundos encarando o ovo com uma cara de tacho insuportável, bufando enxofre pelas ventas. Depois, levantou-se resmungando pelos cantos, ajeitou o chapéu de couro na cabeça e foi saindo resmungado:

— Num aguento mais... Faz três séculos que eu rodo o mundo inteiro tentando achar quem é o infeliz que espalha cabelo na comida dos outros, e essa praga me persegue até no ovo cozido! Se eu descobrir quem é o dono dessa cabeleira, juro que arrasto pro inferno hoje mesmo!

E sumiu na poeira da estrada, deixando um cheiro de enxofre misturado com feijão queimado.

Eu fiquei estático na cadeira. Olhei pra Maria. Maria olhou pra mim.

Nunca mais toquei no assunto, e muito menos voltei a brigar com a minha mulher por causa de fio de cabelo. Afinal de contas, se até o próprio Diabo estava sofrendo com a mesma praga e usando a velha desculpa de que a culpa era dos outros... quem era eu para duvidar da inocência da minha patroa?