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Se você está ouvindo isso, eu só peço uma coisa:
Nunca pare o carro em uma estrada vazia durante a madrugada.
Não importa o motivo.
Não importa quem esteja chamando você.
Meu nome é Lucas. Tenho 22 anos hoje, mas o que vou contar aconteceu quando eu tinha 16.
E eu juro pela minha vida que cada palavra desta história é verdade.
Tudo começou durante as férias de inverno.
Meus pais decidiram viajar para uma cidade pequena no interior. A ideia era simples: uma semana longe da correria, pescaria, trilhas e descanso.
Era para ser só uma viagem de férias.
Nada mais.
Saímos por volta das três da tarde.
Eu estava no banco de trás com minha irmã mais nova. Meu pai dirigia e minha mãe mexia no GPS.
As primeiras horas foram normais.
Música tocando.
Risadas.
Paradas para comer.
Nada fora do comum.
Até que o GPS recalculou a rota.
A estrada principal estava interditada.
Ele sugeriu um caminho alternativo.
Meu pai deu de ombros.
— Ah, foda-se. Deve economizar tempo.
Foi a pior decisão da nossa vida.
A nova estrada era estreita e cercada por mata fechada.
Depois de alguns quilômetros, o asfalto começou a ficar esburacado.
Depois vieram os buracos.
Depois veio o silêncio.
Um silêncio estranho.
Pesado.
Não havia pássaros.
Não havia insetos.
Nem mesmo o vento fazia barulho.
Parecia que a floresta inteira estava prendendo a respiração.
Foi quando vimos a primeira placa.
"RETORNE."
Só isso.
Meu pai riu.
— Que merda é essa?
Continuamos.
Cinco minutos depois apareceu outra.
"RETORNE."
Mais alguns quilômetros.
Outra.
Depois outra.
E outra.
Todas iguais.
Como se alguém estivesse desesperadamente tentando avisar alguma coisa.
Comecei a me sentir mal.
Não era medo.
Era uma sensação pior.
Como se alguma coisa estivesse errada com aquele lugar.
Como se não devêssemos estar ali.
O sol desapareceu atrás das árvores.
A escuridão chegou rápido.
Rápido demais.
Então o carro morreu.
Sem aviso.
O motor simplesmente apagou.
Meu pai tentou ligar.
Nada.
Tentou novamente.
Nada.
— Puta que pariu...
Ele saiu do carro.
Abriu o capô.
Mexeu em tudo.
Nada.
Sem sinal no celular.
Sem casas.
Sem outros carros.
Nada.
Apenas a floresta.
Meu pai decidiu caminhar até encontrar ajuda.
Pegou uma lanterna.
E foi embora.
Foi a última vez que vimos ele naquela noite.
Passou uma hora.
Depois duas.
Depois três.
Minha mãe estava quase chorando.
Minha irmã tremia no banco de trás.
Então vimos uma luz.
Longe.
Muito longe.
Alguém vinha caminhando pela estrada.
— É o pai! — minha irmã gritou.
Achei que fosse também.
Até a pessoa chegar mais perto.
Era ele.
Mas havia algo errado.
Muito errado.
A forma como andava.
A postura.
Os movimentos.
Parecia um ser humano tentando imitar outro ser humano.
Como um ator ruim.
Quando chegou perto do carro, ficou parado.
Olhando.
Sem dizer uma palavra.
Minha mãe abaixou um pouco o vidro.
— Carlos?
A figura sorriu.
Meu estômago virou na hora.
Aquilo não era um sorriso.
Era uma rachadura.
Um corte enorme atravessando o rosto.
Os lábios estavam esticados de um jeito impossível.
— Deixem eu entrar.
A voz não parecia humana.
Parecia várias vozes falando ao mesmo tempo.
Como um áudio corrompido.
Minha mãe travou o vidro imediatamente.
— Quem é você?
A coisa inclinou a cabeça.
Devagar.
Estalando o pescoço.
Um estalo.
Outro.
Outro.
Como se os ossos estivessem quebrando.
Então respondeu:
— Deixem eu entrar.
Exatamente igual.
Mesma entonação.
Mesma velocidade.
Como uma gravação repetida.
Foi quando percebi seus olhos.
Não havia pupilas.
Nem íris.
Nem branco.
Pareciam buracos.
Escuros.
Fundos.
Vazios.
Minha irmã começou a gritar.
E a coisa deu um passo para frente.
Outro.
Outro.
Encostando na janela.
Ainda sorrindo.
Ainda olhando.
Então ela disse algo que até hoje me faz perder o sono.
— Ele está gritando lá dentro.
Minha mãe congelou.
— O quê?
A criatura continuou:
— Ele está gritando muito.
Está doendo muito.
Vocês deveriam ajudar.
Naquele momento ouvi um som vindo da floresta.
Um grito.
A voz do meu pai.
Chamando nosso nome.
Lá de dentro da mata.
Desesperado.
Muito longe.
A criatura sorriu ainda mais.
— Estão ouvindo?
Eu comecei a chorar.
Porque percebi uma coisa horrível.
Aquela coisa não era meu pai.
Mas sabia exatamente como ele falava.
Exatamente como ele gritava.
Exatamente como ele soava.
Como se tivesse estudado cada detalhe dele.
Como se estivesse praticando.
Então ela colocou a mão no vidro.
Os dedos eram longos demais.
Finos demais.
Errados demais.
E começou a bater.
Toc.
Toc.
Toc.
Bem devagar.
— Deixem eu entrar.
Toc.
— Deixem eu entrar.
Toc.
— Deixem eu entrar.
De repente o carro ligou sozinho.
Sem chave.
Sem ninguém fazer nada.
O motor rugiu.
Minha mãe não pensou duas vezes.
Pisou no acelerador.
A criatura ficou para trás.
Mas antes de desaparecer na escuridão, vi algo pelo retrovisor.
Ela não estava parada.
Estava sorrindo.
E acenando.
Como alguém se despedindo de velhos amigos.
Encontramos ajuda numa cidade cerca de quarenta minutos depois.
A polícia encontrou meu pai na manhã seguinte.
Vivo.
Mas completamente destruído psicologicamente.
Durante semanas ele se recusou a falar sobre o que aconteceu.
Até que finalmente contou.
Na floresta ele ouviu nossa família chamando por ele.
Primeiro minha mãe.
Depois eu.
Depois minha irmã.
As vozes vinham de direções diferentes.
E cada vez pareciam mais próximas.
Até que ele viu alguém entre as árvores.
Alguém idêntico a ele.
Mesma roupa.
Mesmo rosto.
Mesmo cabelo.
Mas com aquele sorriso.
Aquele maldito sorriso.
Ele correu.
E a coisa correu atrás.
Durante horas.
Segundo ele, o pior não era que ela o perseguia.
O pior era que, às vezes, ela aparecia na frente dele.
Como se soubesse exatamente para onde ele iria.
Nunca descobrimos o que era aquilo.
Mas três anos depois encontrei uma reportagem antiga.
Um jornal amarelado de 1974.
Falava sobre desaparecimentos naquela mesma estrada.
Muitas pessoas.
Muitas famílias.
Todas relatavam a mesma coisa.
Alguém chamando seus nomes na mata.
Alguém usando a voz de parentes.
Alguém tentando entrar nos carros.
No final da reportagem havia uma frase escrita por um policial.
Uma frase que nunca consegui esquecer.
"Se você encontrar alguém na estrada depois do anoitecer, verifique se ele está piscando."
Porque, segundo os relatos...
As coisas daquela floresta nunca piscam.