Entre mundos parte 5

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ATENÇÃO: História longa! Tempo médio de narração da história completa: 1h.

Capítulo 8 (final):

Alex agarrou minha mão e me levou com ele até o lado de fora. Quando chegamos lá, finalmente entendi a origem de todos aqueles gritos.

Aqueles dois monstros que passaram grande parte daquela noite me perseguindo e me aterrorizando… estavam mortos e brutalmente dilacerados.

O corpo da mulher estava retorcido de uma maneira impossível sob a calçada. Era… horrível de se olhar.

E o homem parecia apenas uma bagunça de sangue e vísceras. Havia muito, mas muito sangue, e toda aquela carne descansava sobre o capô da van, enquanto o sangue negro gotejava no asfalto.

Eu podia sentir o cheiro metálico no ar, e aquilo me causava náuseas.

Era absolutamente horrível, mas eu também não poderia simplesmente esquecer tudo o que eles haviam feito anteriormente.

Alex olhou para mim, percebendo o meu desconforto.

— Isso foi pra esses dois aprenderem a nunca mais explodir minha cabeça — ele disse em um tom bem-humorado.

Um silêncio desconfortável preencheu o ambiente.

— Ei — Alex voltou a falar. — Não se preocupe com esses dois, eles são imortais como eu.

— Não ligo para eles — falei antes mesmo de Alex concluir a frase.

Em seguida, olhei para ele, que ainda segurava o meu braço. Eu estava bem fraca e muito tonta, já podia sentir meu corpo queimando por conta da febre, mas não queria que Alex pensasse que eu ainda era a mesma do início daquela noite.

— Então, vamos dar o fora daqui antes que eles voltem, porque olha… eles vão estar furiosos! — Alex disse, me puxando com ele para perto da porta da van.

— Vamos aí? — questionei.

— Sim, queria que tivéssemos outra opção, mas estamos sem tempo.

Alex abriu a porta e fez um sinal para que eu entrasse, mas eu não pude evitar de lançar o meu olhar para a massa de carne sobre o capô do carro e perguntar:

— E quanto a isso? — acenei com a cabeça, e Alex acompanhou com o olhar.

— Não se preocupe com isso.

Assenti e entrei na van. Alex fechou a porta, e eu pude sentir o cheiro de morte impregnado nas poltronas do veículo.

Era nauseante.

Algo como amônia e carne crua deixada fora da geladeira por muito tempo.

Busquei me distrair baixando o vidro e olhando para o meu reflexo no retrovisor e, devo confessar, me assustei com o que vi.

Eu estava pálida e com olheiras enormes adornando meus olhos opacos. Meus cabelos estavam desgrenhados, e muitos respingos de sangue seco e amarronzado salpicavam meu pescoço, rosto e vestido. E a cartola em minha cabeça só tornava o conjunto mais estranho.

Fui puxada para fora da minha análise minuciosa sobre minha aparência assim que ouvi o som da porta da van se fechando.

Alex estava dentro do veículo agora e eu finalmente obtive a resposta sobre como diabos ele entraria naquela van com aquelas asas enormes. Elas estavam fechadas em suas costas, como as de um pássaro.

— Puta merda, o cheiro desse lugar é horrível. Eu não poderia esperar menos daqueles bastardos — Alex disse, abrindo a janela ao seu lado.

Algo que me deixou profundamente grata, pois só a minha janela não era o suficiente. Na verdade, nem as duas eram, mas assim ficava menos pior.

— Mas sabe… achei que seria pior — Alex olhou para mim, meio curioso. — Achei que você me colocaria nas suas costas e sairia voando por aí!

Ele riu.

— Essa ideia nem se passou pela minha cabeça, sabia? — Alex disse, ligando o carro.

— Ainda bem.

Me virei para frente, vendo a massa de carne à nossa frente brilhando contra a luz incandescente do letreiro do supermercado.

Desviei o olhar quase instantaneamente, incomodada, e vi o sorriso de Alex morrendo em seus lábios enquanto seus olhos encontravam algo no retrovisor.

— Merda.

— O que foi?!

— Eles estão vindo!

Senti meu sangue congelar dentro das veias e olhei para o meu retrovisor.

O que eu vi gela meus ossos até hoje.

Em um horizonte não tão distante, um exército de silhuetas obscurecidas marchava em nossa direção.

A pouca luz que havia na rua fazia suas sombras se precipitarem, parecendo gigantes.

Alex pisou no acelerador, e a van arrancou, produzindo o som moribundo de sempre e fazendo uma rajada de vento atingir o meu rosto.

O “corpo” sobre o capô caiu em um baque surdo, e eu pude ouvir o som molhado quando os pneus passaram por cima da carne.

Alex só desacelerou quando as casas e comércios deram lugar às árvores, muitas delas.

E ele finalmente quebrou o silêncio depois de tanto tempo.

— Estamos quase chegando — fez uma pausa. — Você… você já se decidiu? — perguntou com certa hesitação.

Respirei fundo, sentindo todos aqueles cheiros nauseantes impregnados na van misturados com o cheiro de terra úmida do lado de fora.

— Sim. Eu me decidi — respondi, firme.

Alex desviou seu olhar para mim, sua expressão carregada de apreensão.

Desviei meu olhar para o lado de fora, olhando para o céu nebuloso acima de nós, enquanto sentia a brisa das árvores e saboreava as palavras que estavam na ponta da minha língua.

— Eu quero voltar, Alex — fechei meus olhos, permitindo que meu corpo focasse apenas nas sensações. — Quero voltar para o meu mundo.

Soltei todo o ar em meus pulmões e abri meus olhos, encontrando os olhos verdes brilhantes de Alex.

— Eu encontrei minha faísca.

Alex estava atônito. Ele olhava para mim, mas, ao mesmo tempo, se esforçava para prestar atenção na estrada à nossa frente.

Ele sorriu e se virou para a frente.

— Eu sabia que você faria a escolha certa.

Alex estacionou, e eu pude ver através da janela que estávamos em uma ponte.

E do outro lado da ponte havia uma densa floresta. Não parecia existir nada além dela.

Olhei confusa.

— Nós chegamos — Alex anunciou.

Nós descemos e eu finalmente me dei conta de como estava no meu limite, já que mal conseguia parar de pé.

Alex segurou minha mão e me levou para a beira da ponte, onde eu finalmente pude ver que abaixo de nós havia um enorme lago.

A água tinha um tom azul-marinho profundo por causa da atmosfera noturna.

— Esse é o “portal”, é esse o lugar que vai te levar de volta para o seu mundo. E, em algum lugar dessa floresta — ele apontou com a cabeça —, existe um portal que leva para o lugar que vocês humanos costumam chamar de “paraíso”.

Eu estava atônita com tudo aquilo e acho que, naquele ponto, já estava ficando um pouco fora de mim.

O céu ficou cheio de estrelas de repente, de uma forma que eu nunca tinha visto antes, e eu mal podia desviar o olhar.

— Alex… posso te fazer uma pergunta?

— Você já fez várias — ele respondeu, sarcástico.

— Quem criou esse lugar? Foi Deus?

Alex riu.

— Mesmo que eu tentasse te explicar, você jamais entenderia — ele disse, estendendo sua mão para pegar a cartola em minha cabeça.

— Infelizmente você não vai poder levar isso como um troféu por ter derrotado a Carmilla. Ela ficaria uma fera e iria atrás de você aonde quer que você fosse — ele completou, rindo.

Olhei confusa para ele.

— Como você sabe o que eu fiz com ela? Você consegue ler os meus pensamentos?

— Hahaha, não, como eu disse antes, eu não consigo, é que… é meio óbvio — ele disse, olhando para o meu vestido manchado de sangue.

Sorri, mas meu sorriso morreu assim que a vertigem se abateu sobre mim.

— Você está péssima — Alex disse, preocupado. — Estaria ainda pior se eu não tivesse transferido um pouco da minha energia para você.

Um quebra-cabeça se formou em minha mente de repente.

— Meu Deus. Foi por isso que você não conseguiu lidar com aqueles dois naquela hora?

— Foi.

Senti uma onda de culpa tomar conta de mim.

— Meu Deus, Alex, eu sinto muito!

— Ei, não se preocupa com isso. Você é a única mortal nesse maldito lugar, eu tinha que te proteger.

Alex soltou um suspiro.

— Está na hora de ir… Cecília.

Aquelas palavras entraram como facas em meus ouvidos, assim que me dei conta de que nunca mais veria aquele serzinho pálido em minha frente.

— Eu… eu nunca mais vou te ver? — perguntei com a voz embargada.

Ele hesitou em responder.

— Não…

Mais uma vez, saltei sobre ele, envolvendo meus braços ao redor de seu pescoço. A diferença é que, dessa vez, eu chorava feito uma criança.

— Muito obrigada por tudo. Muito obrigada por aparecer, por ter paciência, por me guiar, por me proteger e principalmente… por salvar a minha vida!

Tenho certeza de que Alex não ouviu nem metade do meu belo discurso de agradecimento, pois eu chorava tanto que algumas palavras saíram incompreensíveis.

— Vocês humanos são muito engraçados — ele disse, sarcástico como sempre, enquanto dava alguns tapinhas nas minhas costas.

Soltei Alex e me permiti rir um pouco, entre as lágrimas.

Ele colocou uma mão no bolso e pegou a minha mão com a outra.

Fiquei confusa até ele colocar o bloco de notas na palma da minha mão e depois fechar a mesma sobre ele.

— E-eu posso levar isso?

— Pode, mas depois que você atravessar não terá nada escrito.

Olhei para o bloco de notas.

— Obri-

Um barulho muito alto em algum lugar entre as árvores fez eu cortar a palavra no meio e fez Alex virar a cabeça de súbito.

Vi seus olhos se arregalarem e ele se virou para mim, assustado.

Suas mãos se estenderam, atingindo minha caixa torácica e me empurrando com força.

Senti o ar faltar em meus pulmões quando meu corpo pendeu para baixo, em direção ao lago.

Minha mão se estendeu no ar como uma súplica silenciosa para algo me segurar e eu pude ver o rosto triste de Alex antes que meu corpo finalmente fosse embalado pela água.

Meu corpo parecia congelar conforme eu afundava, e cada coisa parecia se desligar aos poucos.

Até que acabou.

Tudo ficou escuro, mas não era como a escuridão de estar dentro de um quarto escuro… era como estar… em lugar nenhum.

De repente, senti aquela terrível sensação de acordar depois de sonhar que estava caindo, com aquele pânico de não saber onde diabos eu estava.

Meus olhos se abriram levemente, e eu me senti atordoada ao ver, pela minha visão desfocada, uma sala toda branca, com uma luz cegante, pessoas andando de um lado para o outro e algumas muito perto de mim.

Eu mal sentia o meu corpo, mas podia sentir com uma clareza assustadora uma pressão no peito.

Minha respiração estava irregular, e eu podia ouvir sons e vozes, embora fosse totalmente impossível entender exatamente do que se tratava cada um.

Meus olhos vaguearam mais um pouco pelo ambiente, com dificuldade, e eu pude ver alguém do lado de fora da sala.

Mesmo com a visão não tão clara, eu podia ver o desespero e a aflição do garoto do outro lado.

Era… era até difícil de olhar.

Naquele momento, eu não conseguia identificar quem era ele, nem que espaço ocupava na minha vida, mas tinha certeza de que era importante para mim e que segurava minha mão no início de tudo.

Por algum motivo, meu olhar se desviou dele e foi para o criado-mudo ao meu lado… e eu pude sentir meu coração batendo ainda mais rápido quando vi…

Um bloco de notas.