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A última vez que ouvi a voz de Charlie foi logo após ela bater a porta da frente. Da cozinha, virei apenas o suficiente para ver a madeira estremecer no batente. Mas, antes de desaparecer de vez, ela colocou metade do rosto para dentro novamente, como sempre fazia, esperando minha reação. Sorriu.
E eu, segurando um prato molhado entre as mãos, consegui colocar todo o amor que sentia por ela em uma única frase:
— Muito cuidado. Volte cedo para casa.
Foram as últimas palavras que disse para minha filha.
Agora, o relógio da cozinha marcava onze da noite. A casa inteira parecia afundar junto com cada segundo que passava.
Minha folga, que deveria servir para descansar e colocar a casa em ordem, havia se transformado numa tortura silenciosa. O tic-tac do relógio parecia alto demais, como se cada segundo estivesse batendo diretamente dentro da minha cabeça. Enquanto esfregava os pratos na pia, minha mente repetia a mesma pergunta num sussurro:
“Por que a Charlie ainda não voltou?”
Lá fora, eu ainda conseguia ouvir as crianças da rua.
Miguel, o filho da Fátima, gritava alguma coisa enquanto corria. Sabrina ria daquele jeito escandaloso dela. Até o filho do Alex, do mercado — aquele menino encardido que vivia aparecendo com os joelhos ralados — ainda estava brincando na calçada.
Mas a voz da minha filha, nada. Nenhuma risada baixa. Nenhum “mãe” atravessando a rua. E foi aí que aquele instinto horrível de mãe começou a apertar meu peito. Larguei o prato dentro da pia, sem me importar com o barulho. Passei as mãos úmidas pelos olhos cansados enquanto caminhava rápido até a porta da frente, já pensando na bronca que iria dar nela.
Quando me aproximei da entrada, levantei os olhos para a rua escura e comecei a chamar:
— Já tá na hora, Charlie, bora pr—
Aquilo congelou minha espinha.
Na janela da sala, uma mulher sorria para mim.
Por um instante, tentei culpar meus próprios olhos. O cansaço. A ansiedade. A escuridão da minha casa brincando com minha cabeça. Mas, quando fixei o olhar naquela figura, senti meu corpo inteiro estremecer.
Lá estava ela. Parada diante da janela. Imóvel.
Seus olhos eram negros, presos em mim como se atravessassem minha pele e tocassem algo muito mais profundo. Seu cabelo caía em fios desgrenhados pelos ombros, armado por um frizz estranho que parecia crescer sob a luz amarelada do poste da rua.
E o pior de tudo…
Ela estava com uma feição completamente séria, não como aquelas imagens de terror, com sorrisos enormes e macabros. E sim, algo que beirava o vale da estranheza. Seus lábios pareciam tremer. E o espaçamento entre seus olhos parecia quebrar qualquer figura humana que eu já tivesse visto na Terra.
Por um momento, perdi a noção de tudo. Não consegui pensar em nada, apenas dizer baixo:
— Charlie…
Minha voz ecoou alto demais. No entanto, pouco eu teria me importado com isso se a voz…
Dela.
Não tivesse reverberado como o alarme do inferno.
— Você quer mesmo que sua filha volte para casa?
Houve um momento de silêncio. Não consegui formar nenhuma frase.
— Se ela passar por essa porta ao meu lado, pouco vai conseguir abrir a mesma. Vou desmembrar cada centímetro do corpo daquela merda.
Engoli a própria saliva como se fosse veneno.
Ao longe, consegui escutar a voz escandalosa da mãe da Sabrina atravessando a rua:
— Bora, bora! Já tá na hora de dormir! Vocês deviam ir também!
Minhas pernas quase perderam a força. Cambaleei para trás, sentindo o coração bater tão forte que chegava a doer.
A mulher na janela pareceu gostar daquilo.
Ela inclinou lentamente o rosto para a esquerda, deixando o cabelo esconder parte da face. Só o olho direito continuou visível, parado em mim.
— Você sabe o que fazer — a voz voltou, mais forte agora, vibrando dentro da minha cabeça. — Vai. Grita por ela. Diz para continuar brincando.
Senti meus pensamentos começarem a colapsar. O medo estava esmagando tudo dentro de mim.
Não consegui segurar:
— Vai se foder, puta.
As palavras morreram no ar.
Pela primeira vez, a mulher sorriu.
Não um sorriso exagerado ou monstruoso. Era pequeno. Torto. Humano. Os dentes quebrados apareciam entre os lábios úmidos, escurecidos por alguma coisa grossa e melequenta.
— Vou, é? Tá bom então.
Ela começou a recuar da janela.
Desesperadamente, dei um passo à frente.
— Não. Não, pera aí—
Entendi na mesma hora.
Eu não podia deixar ela ir embora. Charlie ainda estava lá fora. E tudo o que eu tinha era aquela esperança miserável de alcançar minha filha antes daquela coisa.
Mas meu cérebro já estava desmoronando. Eu não conseguiria salvá-la.
— E-eu fiz alguma coisa para você? — minha voz saiu fina, rápida, quase sufocada pelo desespero. — Desculpa… desculpa. Você é a ex do meu marido?
Silêncio.
E aquele silêncio respondeu tudo. Eu havia errado.
Senti minhas últimas esperanças afundarem dentro do peito. Comecei a chorar sem perceber.
— Então o que você quer de mi—
— Abra a porta.
Meus olhos se arregalaram.
— Você quer sua filha viva, não quer? Então abra a porta.
Ela inclinou a cabeça mais um pouco.
— P-o-r-t-a — ela soletrou cada sílaba como uma canção infernal.
— Eu abro… eu… — o ar mal entrava nos meus pulmões. — Eu abro ela.
Levantei lentamente os braços. Minhas pernas tremiam tanto que precisei me apoiar na parede enquanto caminhava até a porta. Parte de mim só conseguia pensar na Charlie. Mas outra parte imaginava, sem controle, o que aquela coisa faria comigo quando entrasse.
— Você vai me matar? — perguntei sem coragem de olhar novamente para a janela. — Vai me esfaquear?
Minha mente começou a desmoronar. Pensei na minha mãe. Nas minhas amigas de infância. Em como reagiriam ao me encontrarem morta no chão da sala, aberta como um animal.
Quando finalmente parei diante da porta, minha mão tremia sobre a maçaneta.
E então fiz a pergunta que minha mente gritava desde o começo:
— Se eu não abrir… você me deixa em paz?
O ambiente inteiro pareceu ficar mais pesado.
Depois de vários segundos, a voz dela voltou, baixa, irônica:
— Você se lembra do que eu disse? Você nunca mais vai ver a Charlie.
Meu rosto caiu para baixo. Os cabelos esconderam meus olhos molhados.
— Lembro… — minha voz falhou. — Lembro, sim.
Continuei com os olhos, prestes a dizer aquilo que eu sabia que era a melhor opção:
— Mata ela. Pode matar.
Não consegui ouvir mais nada vindo da mulher na janela, mas já entendia perfeitamente o que aquele silêncio significava. Ela estava indo embora. Indo até minha filha.
E depois…
Para ser sincera, tentei não pensar nisso.
Tudo o que construí na vida não podia simplesmente acabar daquela forma. A casa que lutei para mobiliar. Os amigos que mantive por anos. Minha rotina. Meu trabalho. Minha própria vida.
Tudo aquilo precisava valer mais do que uma única pessoa. Mais do que Charlie. Porque, no fundo, eu já sabia desde o começo.
A gravidez dela parecia um presságio ruim. O parto quase me matou. Meu marido desapareceu poucos meses depois do nascimento, como se tivesse entendido algo antes de mim.
E ela… nunca pareceu realmente minha.
Havia alguma coisa errada nela desde o início. Talvez ela fosse o prenúncio do inferno que minha vida iria se tornar.
Desci lentamente a mão da maçaneta até o cadeado. E girei. Uma vez. Depois outra. Até ter certeza absoluta de que a porta estava trancada. Senti a vibração metálica correr pelos meus dedos. Quase como um estalo, uma risada.
“Você sabe o que fez, puta.”
Comecei a cair no chão. Já não conseguia ouvir quase nada vindo da rua, mas minha cabeça preenchia o silêncio sozinha. O sangue espalhado no asfalto. Os gritos da Charlie rasgando a noite. O rosto dela deixando de parecer assustado para parecer morto. Tentei expulsar aquelas imagens, agarrando desesperadamente minha própria vontade de viver. Mas tudo dentro de mim parecia apodrecer.
Levei as mãos ao rosto e comecei a repetir frases automáticas, rápidas, como uma máquina enlouquecida presa no mesmo comando:
— Por favor… mata ela logo… por favor… por favor…
Minha voz saía abafada entre os dedos molhados de lágrima.
— Por favor… faz ser rápido.
Continuei repetindo aquilo sem perceber o tempo passar. Minha garganta queimava. Cada palavra parecia arrancar pedaços de carne por dentro. Comecei a bater na própria barriga, golpes rápidos e tortos, tentando apagar qualquer coisa dentro de mim que ainda estivesse consciente.
— Cala a boca… cala a boca… cala a boca…
Nem percebi que estava falando comigo mesma.
A casa inteira parecia girar. O relógio. As paredes. A minha respiração. Tudo ficou distante, infernal.
Então algo bateu na janela.
O som atravessou minha mente como um tiro. Abri os olhos no mesmo instante. E, por um segundo, senti como se Deus estivesse me olhando através do vidro.
Era Charlie.
Parada do lado de fora.
Me olhando.
Não havia sangue. Não havia ferimentos. Mas os olhos dela… os olhos dela me destruíram por dentro. Um misto de raiva, traição e angústia. Ela me encarava como alguém encara um inimigo.
Meu corpo inteiro gelou.
Tentei fingir que nada havia acontecido. Me aproximei depressa da janela, quase tropeçando.
— V-você tá bem?
Charlie não respondeu.
Continuou apenas me olhando.
Do mesmo jeito que aquela mulher olhava.
Meu coração começou a desacelerar devagar, como se meu próprio corpo estivesse entendendo alguma coisa antes da minha mente.
Charlie estava do lado de fora da janela. Mas a rua atrás dela parecia escura demais.
Escura não.
Familiar.
Meu estômago afundou.
Aquilo não era a rua. Era a sala.
Sem coragem de respirar, deixei os olhos percorrerem lentamente o vidro da janela. A mesa refletida. O corredor da cozinha. A parede torta perto do relógio. Meu próprio corpo parado diante do vidro.
E Charlie.
Alinhada comigo.
Eu não estava olhando para minha filha através da janela. Eu estava vendo o reflexo dela…
atrás de mim.
Então ouvi o choro de Charlie preencher o espaço abruptamente. E, antes mesmo que eu tivesse coragem de me virar, outro som surgiu atrás dela.
Aquele riso torto. Anormal.
Vindo da cozinha.
Naquele instante, uma lembrança atravessou minha cabeça como uma piada cruel:
Eu havia trancado a porta.