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Antes, quando eu pensava em você, tudo voltava inteiro.
Não eram só lembranças, era como viver tudo outra vez.
Eu conseguia sentir o peso da sua presença. Te sentia em cada canto do meu mundo.
O jeito que seus olhos se encontravam com os meus. Como eles brilhavam ao me olhar. A forma delicada que seu rosto mudava quando você sorria sem perceber. O calor do toque da sua pele. A maciez do seu corpo. A calma da sua voz nas madrugadas silenciosas.
Você existia viva dentro de mim. Completa. Intocada.
E eu revisitava isso o tempo todo, como alguém que volta para uma casa abandonada só para sentir que ela ainda existe.
Mas aos poucos, essa parte começou a morrer em silêncio.
As memórias começaram a se dissolver devagar, como tinta desaparecendo dentro da água.
Primeiro eu perdi detalhes pequenos. Depois perdi expressões. Depois comecei a perceber que já não conseguia lembrar exatamente do seu olhar.
Inicialmente isso me assustou.
Porque eu ainda lembrava do que sentia por você, mas já não conseguia lembrar direito da pessoa que causava aquilo.
Sua voz ficou distante. Seu sorriso começou a mudar toda vez que eu tentava imaginá-lo. Seu rosto virou algo instável, como um sonho acabando segundos depois de acordar.
E mesmo assim, você ainda aparecia nos meus sonhos.
Às vezes de forma tão real que doía.
Eu via você parada em lugares vazios, falando coisas que eu esquecia segundos depois de acordar.
Às vezes eu só enxergava seu rosto me olhando em silêncio, como se soubesse que estava desaparecendo da minha memória.
E sempre que eu percebia que era você, eu acordava.
Assustado. Ofegante. Com uma dor no peito. Ou em prantos.
Como se meu próprio corpo recusasse continuar olhando para aquilo. Como se lembrar de você por tempo demais tivesse se tornado insuportável.
Então eu abria os olhos no escuro, com aquela sensação horrível no peito, tentando segurar fragmentos do sonho antes que eles desaparecessem também.
E como tudo que envolvia você… eles desapareciam.
Como uma chama queimando uma fotografia antiga pelas bordas, você foi desaparecendo primeiro nos cantos. Depois no centro. Até restarem apenas cinzas.
Hoje, quando fecho os olhos, ainda sinto a falta daquilo que você era para mim.
Mas o traçado do seu rosto… o seu olhar… o seu sorriso…
A sua face já está indo embora.
E existe algo desesperador nisso.
Porque significa que um dia eu vi você pela última vez e não sabia.
Que um dia eu ouvi sua voz pela última vez sem perceber que o silêncio viria depois.
Agora tudo o que sobra é essa sensação estranha de tentar alcançar alguém que continua caindo para longe dentro da minha própria memória.
E talvez seja isso que mais dói:
não lembrar de você triste, ou feliz, ou me amando.
Mas perceber que estou lentamente perdendo a única memória de alguém que hoje já não existe mais.