Apogeu - Parte 2

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O sangue que me agracia goteja e mancha o chão encardido, esse tal carmesim engordurado e espesso escorre e agora há em mim uma vontade noviça, ardente e inconsequente, tão ansiosa e irreverente! E assim, quero satisfazê-la. Quero alimentar esta vontade assim como esta me alimenta, como estes braços e mãos, antes tão ociosos, agora finalmente podem banhar-se em seu tão ansiado alívio, e este alívio, claro, tem uma cor de vermelho ex-vivo que antes pulsava fervorosamente por estas veias, artérias e capilares, um coração palpitante e que muito em breve se ausentará do líquido para bombear.

"É bom ceder, Kim?", Trimegisto se intromete em meu momento de catarse, que coisa! "Ei!? Se não fosse por mim, tu ainda estaria com sua bunda gorda sentada naquela cama arrombada e suada, sabia?" Ah, Trimegisto... Pela sua piada, você quer dizer? Já que você não teve realmente coragem de prosseguir com isso... Tão bom com palavras, tu é. Você prega pelo silêncio, amigo.

"Ah, vai se fo...", mas ele é interrompido pela escória rastejando sob nossos pés, tossindo alto, com bochechas molhadas e rosto inchado. Ele até tenta falar algo, mas ou está engasgando no próprio sangue, ou o choque o impede de formular frases. Vai saber.

Senti que Trimegisto estava prestes a falar algo como "Vamos, Kim. Acabe com ele.", mas não esperei para saber o que sairia de sua boca fedorenta e que começava a se ensalivar e chutei a cara estúpida do infeliz que se segurava em meus jeans. Filho da puta. Trimegisto parecia satisfeito, ainda que um pouco surpreso. Para falar a verdade, até pouco tempo atrás, todas as vezes em que ele aparecia para me atormentar eram apenas isso: Um tormento. Até que comecei a me entediar e agora, até que nos damos bem, até certo ponto. E se eu tivesse mesmo que falar a verdade...

Bom, naquela noite, a que Trimegisto sentiu raiva genuína de mim pela última vez, foi a que tudo mudou. Digamos que eu realmente não tinha essa noção de que apenas sentar-me com a personificação de meu sofrimento pudesse ser tão... Efetivo, acho que essa é uma forma de descrever. No caso, não é isso que chamam de terapia, ou algo assim? De qualquer forma, ali estávamos nós, olhando para a parede vazia e em silêncio. Um tanto perdidos, para falar a verdade. O sentimento era mesmo como se fôssemos apenas bons atores, mas por um breve momento, a cortina desceu tão rápido como uma lâmina de guilhotina e finalmente, agora jazia em nossos pés aquela nossa falsa animosidade. Pudemos ver que de fato, éramos apenas... Aquilo. Uma pessoa quebrada e o monstro que escapou da cabeça dela. A princípio, sequer tentamos nos virar para encarar um ao outro. Acho que no meu caso, eu tinha medo de ver algo que reconhecesse se olhasse nos olhos de Trimegisto, e acho que no caso dele, ele talvez sentisse medo de se ver refletido em meus olhos, afinal, ele nasceu em minha mente, meu cérebro, que fica bem perto dos olhos.

Enquanto o filho da vizinha continuava choramingando suas lamúrias sem sentido e gemendo de dor, eu ignorava Trimegisto vasculhando e lendo meus pensamentos, só continuei me lembrando de mais ou menos uma semana atrás. Em como apenas ficamos ali sentados por sabe se lá quanto tempo, até que como tantas vezes antes, subiu aquele cheiro fodido de marola. E era uma porra, não adiantava fechar a janela ou reclamar, a bosta do cheiro sempre achava um jeito de vir do quarto do vizinho para me foder as narinas, indo de encontro com meu cérebro e aloprando tudo lá. Trimegisto odiava o filho da puta, ele só nunca pensava com essas palavras, já que a mãe de Pedro, dona Helena, era realmente só uma coitada mesmo. Vai saber o motivo, mas Pedro era folgado e se importava com nada. Isto é, com nada senão fumar mais lombra, trazer qualquer rapariga da esquina pra uma foda rápida ou cometer pequenos atos de vandalismo pelos prédios. No caso, isso é só do que sei, se há algo mais além disso que Pedro fazia ou deixava de fazer, não devia ser problema meu, não é?

"Kim, para com essa merda... De novo essa praga está deixando as paredes do quarto dele suadas e cheirando a maconha e a gente é que tem que pagar? Tu sabe que ele...", e Trimegisto só interrompe o que estava prestes a dizer. Vai entender.

Mas de um jeito ou de outro, ele não precisava concluir sua fala, eu sabia do que ele estava se referindo, as tais "quedas" pela casa e "acidentes" nas escadas do prédio de dona Helena. Era de causar espanto, e também curiosidade, já que moramos todos no térreo. E claro, o fator mais elucidante: As brigas, gritos e o dinheiro sumindo. Ela pode tentar enganar os outros idiotas dizendo para eles que "é a crise" ou que precisou gastar por causa de uma emergência, mas que no fim, posso ver daqui de minha janela que Helena não se dá mais o trabalho de andar até o mercado mais próximo, mesmo que não tivesse dinheiro agora ou antes. Ela costumava tentar esconder a falta de dinheiro e evitar brigar com o filho andando até o mercado, passando umas horas lá e voltando para casa de mão vazias, para encontrar geladeiras e armários também vazios. Tudo para proteger esse merda.

"Sabe, talvez você devesse dar algum crédito para os outros condôminos, já que suspeito que eles também sabem e tampouco se importariam se Pedro vivesse ou morresse agora.", diz Trimegisto, trazendo-me de volta de meu pequeno transe.

Mas enquanto Pedro se contorce de dor no chão, continuo me lembrando e voltando mais, parando de pensar em Helena e pensando em como tudo isso começou. Naquela noite, uma semana atrás, eu e Trimegisto estávamos sentados na cama, ele disse algo. Nada mais que um blefe, como ele costumava fazer comigo: "Aí, por que a gente não mata esse cuzão?", saiu como sarcasmo a medida que as janelas ficavam cada vez mais embaçadas pela fumaça. E claro, na hora que Trimegisto respondeu meu pedido de "fazer as coisas diferentes" minutos depois, acho que ele ainda não tinha percebido que estávamos de fato mudando, e é exatamente por isso que apenas respondi com um "É... Por que a gente não mata ele, Trimegisto?"

Ele achou graça. "Ah. Claro, Kim. Vamos apenas matar o filho da vizinha. O que pode dar errado?"

E brinquei também. Disse para Trimegisto que o filho da puta estava sempre fodendo ou chapado... Não seria difícil convencê-lo a fazer um ou o outro, e quando ele aceitasse... Bom, aí é quando nossa diversão começaria. "Ok... Você não acha que precisa pensar um pouco nisso? Primeiro, ele mora com a mãe. E você sabe, ela nem se incomoda em sair de casa mais, só pra trabalhar. E isso é bem de manhã, na claridade do dia, enquanto todos estão acordados. E outra... Você realmente pretende tentar... ugh, seduzir aquele fodido? Ou oferecer drogas pra ele?" Qual é, você se preocupa demais com detalhes... E aliás, você bem sabe que aquele nóia foderia até um buraco na parede. Não seria difícil, confia em mim.

"Olha, talvez você tenha razão... Mas e mãe dele? Você quer tentar isso no meio do dia?" Não, não preciso ir até o apartamento dele ou qualquer coisa nesse sentido. Te lembra, Trimegisto, que esse bosta é um drogado da porra. Ele está sempre comprando lombra na esquina de madrugada e é aí que podemos fazer alguma coisa. Mas vou precisar de sua ajuda, sim. Pode sentir-se um pouco convencido com isso, vamos. Preciso mesmo de sua ajuda para uma coisa.

"Ah, é? e o que seria isso?"

Bom, antes de qualquer coisa... Preciso de um faca, um canivete mesmo. Você pode facilmente arrumar isso. Roube, ache, não interessa, desde que esteja afiado e limpo, sem ferrugem. "Por que se preocupa com ferrugem? Tem medo de dar tétano pro arrombado que vai matar?", Trimegisto se achando engraçado. Não, Trimegisto. Estou pensando em mim, que posso matar o filho da vizinha usando minhas mãos e que não preciso contrair tétano no processo, seu idiota.

Trimegisto apenas lança as mãos para o ar em rendição e diz "É, ok. Justo."

De qualquer forma, quando eu tiver o canivete em mãos, tem uma outra coisa que preciso te pedir. Isto é, que quando estivermos prontos em relação a tudo, hora, lugar e como, preciso que você avance para cima de Pedro e incapacite-o enquanto espero em algum beco escuro ou algo nesse sentido. Na verdade, tem aquela casa abandonada umas ruas de distância. É, talvez ali. E então você o traz para mim e transformo ele em uma bela obra do pontilhismo, um verdadeiro Magnum Opus, peça de arte. Isso deve ser fácil para ti, não? Mas Trimegisto não me respondeu a princípio, pela primeira vez naquela noite, uma semana atrás, desde que nos sentamos em minha cama, ele me olha nos olhos e então, silêncio por alguns breves segundos. De boca ligeiramente aberta, olhos bem menos injetados do que antes e sobrancelhas juntas, ele me perguntou se eu estava falando sério, mas pareceu um fato que ele finalmente entendeu, e menos uma pergunta. E então, sobre a noite de hoje. Foi um tanto complicado, pois Trimegisto acabou arregando, muito para meu desgosto. Ali, bem na madrugada, vimos Pedro comprando mais maconha de algum amigo nóia e ser deixado sozinho ali no banco da praça, fumando e se emburrecendo cada vez mais. Porra, seria fácil pra caralho. Mas tive que me dar o trabalho, que saco.

"Kim, será que você poderia parar um pouco? Isso pode acabar mal..."

Não, Trimegisto. já que você é assim fraco, vai me esperar na casa e quando eu chegar, vou te dizer como vai ser. Não espero Trimegisto protestar mais e saio das sombras, indo de encontro a Pedro, sentando ao seu lado no banco, sem me preocupar muito. Pedro, largado ali, vira o rosto de encontro com o meu, mas apenas continuo olhando a rua deserta e silenciosa, sem me virar em sua direção. Espero ele falar e quando o faz, olho em sua direção, ainda de perfil.

"Aí... Tu mora do meu lado, né? Ahahaha... Que viagem... Que que tu tá fazendo aqui?" Ele arregala um pouco os olhos após eu sorrir e dizer que queria saber se ele ainda tinha um pouco para mim, que eu podia pagar. Ele acha que sou idiota, que pode me cobrar caro por essa bosta que ele fuma. Fácil, fácil, como eu havia dito.

"Ah, isso? Sei não... É só o que vou ter pro mês...", fazendo cu doce pra mim, esse idiota. Me inclino na sua direção e encaro o baseado mal feito em sua mão, franzindo o cenho, digo que essa maconha dele quero nem de graça. Que tenho um bagulho muito melhor, se ele quiser. Quem sabe, até algo mais, falo enquanto ponho minha perna encostada na sua, a mão segurando seu ombro e então, fazendo-lhe um convite. Bem simples, até um drogado violento de merda que nem ele pode entender: "Casa velha, fim da rua. Quinze minutos." E assim, depois de causar fricção entre nossos coxas e sorrir observando sua expressão de choque e excitação, deixo-o sozinho, andando em direção aos apartamento e entrando pelo portão, só por precaução. Pulo o muro e começo a andar de novo, o local da morte de Pedro.

E então, finalmente voltamos até o doce presente.

Depois de chutar a caixa torácica de Pedro, agora sangue escorre pelas suas narinas enquanto ele cospe mais sangue no chão. Caralho, até mesmo seus olhos parecem ter rompido alguns vasos sanguíneos. Fica difícil saber com tudo tão vermelho. Bom, havia chegado a hora de dar fim a essa outra mancha no mundo, mas um problema havia surgido. Não sei se alguém viu Pedro vindo para cá ou pelo menos na direção da casa, não importa. Mas a porta da casa velha rangeu tão alto que pensei se seria a estrutura inteira vindo abaixo. O piso de madeira também rangeu, mas por causa de algo pesado, e entendi: Havia mais alguém na casa, e que quem quer que fosse, seguiu Pedro até aqui.