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Ernest Woodbacker era seu nome. Nasceu numa família abastada e desde cedo recebeu tudo aquilo que o fundo econômico pudesse lhe proporcionar, ou seja, o melhor, o mais alto nível da elite de sua época. Brincava com os mais finos brinquedos - cavalinhos esculpidos em madeira, entalhados da forma mais cuidadosa possível; Soldadinhos de chumbo pintados com a tinta mais viva e, é claro, as bolas de futebol do material que fosse excepcionalmente de qualidade. Comia das mais vastas e diferentes comidas - pernil assado, camarão, lagosta, aquele fricassê... Ah, olha... Aquele fricassê delicioso! Vestia as roupas dos mais leves tecidos e costuradas com cautela, como se as mãos que fizessem aquelas vestimentas fiassem e costurassem com a mesma leveza que leva o andar de um antílope. Estudava com mestres renomados, desde música clássica à álgebra mais avançada. Nada nunca lhe faltou... Nada que o dinheiro não pudesse comprar. Sua infância foi uma vastidão, porém, apesar de tudo que recebera, aprendeu a mais importante coisa de sua família e que, com o passar do tempo, começou a cultivar também e a gostar como se fosse o seu bezerro de ouro - a ética inversa da sordidez. Veja bem, o papai não ficou mais tempo fora de casa porque estava traindo a mamãe, ele estava na verdade fazendo hora extra, apesar da mancha de batom em sua boca. A mamãe não é narcisista e vaidosa ao extremo, ela na verdade apenas gosta de se cuidar bastante e tem mais cuidado e zelo por sua própria vida, só isso. O irmãozinho não é um pervertido sexual, ele apenas faz oque todo adolescente faz na puberdade, ué. Ernest aplicava essa mesma lógica com coisas pequenas até as maiores: "Não papai, eu não desrespeitei o Sr. Bronson. Na verdade, ele que é um mal professor e não gosta de ensinar as tarefas direito e isso me deixa irritado"; "Não mamãe, eu não matei o gato da Senhora Gordon. Eu apenas estava brincando com o bichinho"; "Não irmãozão, eu não roubei dinheiro da sua carteira! Nunca faria isso, eu sou seu irmãozinho, e irmão não trai irmão!" Há medida que os anos iam passando o garoto crescia, sempre com as mesmas ideias e filosofia na cabeça. Obviamente, de forma bem clara, vivia uma vida de boêmia da forma mais literal possível. Não existiam regras, ele fazia as próprias. Não existia bem ou mal, só um 'depende da ocasião'. Não existia Deus, pois ele tinha o próprio e ele era o próprio. Ernest Woodbacker era como uma sinfonia melancólica com desafinos constantes em sua composição e que não se comportava como uma melodia musical de fato, mas uma cacofonia fantasiada de música. Bebia, fumava, saía com várias mulheres. Azucrinava com os casais de namorados junto com os amigos na rua, e que azucrinação... Roubava o dinheiro das caixinhas dos altares das igrejas e dizia que depois Deus perdoava, pois ele sempre perdoa. Brigava quase sempre, perdia dentes e as vezes arrancava dentes dos outros com socos e deixava-os sem ar com pontapés bem no estômago. Um dia, acabou por se envolver em mais uma briga. Era em um bar que sempre frequentava. O sujeito era mal encarado, grande e forte, parrudo, bem parrudo. Ernest Woodbacker se preparou para mais um dia de sua matinal existência desregrada e rebelde, porém uma surpresa... Três tiros de revólver, calibre 45. Woodbacker não esperava por aquela ação repentina e, como de praxe, foi ao chão. Um tiro no peito, outro na barriga e por fim, um na cabeça acima do olho esquerdo... Seu corpo ficou na terra, porém, sua alma foi para um lugar diferente... Ernest, que sempre viveu numa irônica crença agnóstica, se viu cercado por gritos agonizantes e fogo por todo o lado... Um lugar com um calor insuportável e que lhe dava uma enorme e monstruosa sede. Estava ele no inferno. Ernest olhou ao redor: "Não, não é possível!" Questionou do porque parou ali, digo, havia ele causado tanto mal assim?... Um grupo de demônios se reuniu ao seu redor e deram todos as mãos e começaram a girar e fazer ciranda, com Ernest no meio. Os monstros cantavam em coro uma perturbadora canção em homenagem a chegada de Ernest no local, ela dizia: "Èô vida sórdida, èô vida mambembe. Acaba-se tua vida de sorte e começa tua vida de morte! Èô vida sórdida, èô vida mambembe. Vem-se dali e morre aqui! Èô vida sórdida, èô vida mambembe. Só se vive uma vez e depois se pergunta o que foi que fez!" Risadas distorcidas saíram daquelas coisas, fazendo Ernest se ajoelhar no chão e começar a entrar em estado de loucura, o gran finale daquela peça que era a vida daquele homem. Uma peça sórdida... Uma peça mambembe... Uma peça onde o protagonista era personagem único e era uma tragédia do início ao fim... Senhoras e senhores, essa é a história de Ernest Woodbacker.