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ATENÇÃO! HISTÓRIA LONGA. TEMPO MÉDIO DE NARRAÇÃO DA HISTÓRIA COMPLETA: 1h.
Capítulo 5:
Eu me vi correndo pelas ruas de Plainview desesperadamente, como se minha vida dependesse daquilo — e dependia —. Diante de tantos horrores, estar na rua tão tarde era um risco enorme. Mas era um risco que eu precisava correr, pois não poderia continuar debaixo do mesmo teto daquela que acobertou o monstro da minha infância.
Eu só parei de correr quando me vi diante daquela porta. Eu mal notei que havia estabelecido um destino durante a minha corrida frenética.
E esse destino era a casa de Antony, o único que poderia me ajudar.
Eu não sabia se ele ainda morava naquela casa, mas me agarrei a isso e toquei a campainha enquanto as lágrimas molhavam o meu rosto.
— Vai, Antony, atende, por favor! — falei para mim mesmo enquanto apertava a campainha.
Então a porta se abriu. Antony surgiu com o cenho franzido e uma expressão de quem tinha acabado de acordar.
Assim que ele notou que era eu, sua expressão mudou, como se ele tivesse despertado imediatamente.
— Mike?
Eu só queria falar, queria contar tudo e pedir ajuda, mas tudo o que eu consegui foi chorar enquanto tentava buscar o ar que faltava em meus pulmões.
— Vem, entra! — Antony falou.
Entrei e ele fechou a porta atrás de nós. Depois subimos as escadas e fomos para o quarto dele.
Mesmo em um momento de profundo desespero, não pude conter a forte nostalgia que me atingiu ao adentrar o quarto de Antony e perceber que ele continuava exatamente igual ao que era há dois anos. Com a mesma cor de parede, os mesmos móveis nos exatos mesmos lugares de antes e os mesmos pôsteres de bandas e filmes preenchendo as paredes.
Meu ex-melhor amigo olhou para mim com uma expressão que misturava preocupação e confusão.
Depois, ele foi até a janela e abriu a mesma, permitindo que o vento entrasse no quarto.
— Aconteceu alguma coisa, cara? — ele perguntou, se sentando na cama.
Respirei fundo, tentando me acalmar. Meu corpo ainda estava trêmulo.
— Minha mãe me contou uma coisa... e acho que isso pode nos ajudar a encontrar a Olívia. — falei.
— O quê? — Antony perguntou com urgência.
Eu suspirei e me sentei em uma cadeira de frente para Antony. Se eu ficasse em pé, iria cair.
— Você... você lembra do homem-oco?
Antony franziu o cenho.
— Lembro. Era só uma lenda que, na verdade, escondia um maníaco real. — ele respondeu.
Fiquei em silêncio, tentando encontrar as palavras certas. Enquanto isso, Antony me olhava confuso.
— Na segunda série, eu... — fiz uma pausa. Minha voz falhou diante das memórias horríveis — eu fui pego por ele.
Antony arregalou os olhos, mas não disse nada.
— Eu tinha apagado isso da minha mente por ser um trauma muito forte, mas hoje minha mãe trouxe tudo à tona e eu percebi que ela está mais do lado desse monstro do que do meu. E é por isso que eu vim para cá.
Antony separou os lábios, pronto para dizer algo, mas eu interrompi.
— Ela disse que esse homem ficou obcecado por mim, e por isso... matou meu pai e sequestrou Olívia — fiz uma pausa, buscando por ar — para chamar minha atenção e me trazer de volta.
— Meu Deus — Antony falou — era ele aquele dia na sua casa?
— Sim. Por isso que meu pai fez eu me mudar para Saint Charles às pressas. — respondi.
— E quem é ele? — Antony perguntou com urgência.
— Minha mãe não quis falar — suspirei, encostando minhas costas na cadeira — ela disse que é uma pessoa de alto poder.
— Isso é loucura — Antony disse se levantando — como vamos encontrar ela?
Ele parou no meio do quarto com uma expressão aflita e passou os dedos pelos fios de seus cabelos negros.
— Tem mais uma coisa — falei, atraindo a atenção dele — eu costumava ter um sonho com uma estranha casa no campo depois da floresta. Acontece que eu percebi que nunca foi um sonho, mas sim uma memória. A única memória que havia restado daquele dia horrível.
Antony olhou surpreso.
— E eu acho que a Olívia pode estar naquela casa. — completei.
— Você tem certeza de que essa casa existe e de que esse maníaco realmente pode estar lá com a Olívia?
— Olha, certeza eu não tenho, mas já é alguma coisa.
Antony suspirou e se sentou na cama novamente.
— Tá. E como é essa casa? — ele perguntou.
— Amarela, tem um formato retangular, uma pequena escada, uma varanda e... uma cortina de pompons coloridos.
Antony cruzou os braços e fez uma expressão séria.
— Você tá de brincadeira, Mike? Você acha mesmo que um psicopata viveria e levaria vítimas para uma casa assim? — ele fez uma pausa — isso deve ter sido um sonho seu.
Eu me senti completamente descredibilizado.
— Brincadeira, Antony? Você acha que estou de brincadeira? Eu acabei de te contar o maior trauma da minha vida e você nem disse "sinto muito" — ele abaixou a cabeça diante da minha acusação — e não existe uma regra clara para onde psicopatas decidem viver! — concluí, falando mais alto do que pretendia.
— Você tem razão. — ele respondeu baixo e evitando contato visual.
O silêncio pairou no quarto por alguns segundos, sendo substituído somente pelo som do vento e dos grilos lá fora.
E lá, naquele quarto, eu me vi diante de Antony, sabendo que nossa amizade estava completamente quebrada e que nenhum de nós seria como antes.
Perceber isso doeu e me feriu profundamente.
— E quando nós vamos atrás disso? — a voz de Antony cortou o silêncio.
— Essa noite — respondi sem hesitar — eu tenho um plano. Você ainda tem aqueles walkie-talkies?
Antony assentiu.
— Perfeito — respondi — um de nós vai procurar pela casa e o outro vai para a delegacia.
— Tá. Mas quem vai procurar pela casa? — Antony questionou.
Parei por um instante. Eu não estava pronto para voltar naquele lugar.
— Deixa que eu vou — Antony falou — você não precisa voltar naquele lugar. — ele completou, se levantando.
Fiquei surpreso e feliz, pois pela primeira vez desde que o reencontrei, ele se parecia com o antigo Antony, aquele que eu costumava conhecer.
Antony caminhou até a mesa e pegou dois walkie-talkies. Ele ergueu um na minha direção e falou:
— Vamos. Meus pais estão dormindo.
Peguei o walkie-talkie e me levantei.
Não foi difícil fugir da casa de Antony. Mesmo o quarto dele ficando no segundo andar, a janela não era tão alta, então conseguimos pular com facilidade. Depois passamos pelo portão e saímos para a noite com nossos walkie-talkies em punho.
Fizemos todo o trajeto em silêncio, até que chegamos na rua que dividiria nossos caminhos e paramos.
— Se você encontrar a casa me avise e eu entrarei na delegacia. Se aproxime com cuidado e me conte se ver algo estranho, então eu falarei com os policiais. — falei.
— Ok. — Antony respondeu.
Ele deu as costas, pronto para seguir seu caminho até a floresta com sua lanterna ligada.
— Antony. — chamei.
Ele se virou, olhando confuso para mim.
— Boa sorte. — falei, estendendo minha mão para ele.
Antony olhou para minha mão, desviou o olhar, se virou para frente e saiu, me deixando lá, sem resposta.
Quando sua silhueta sumiu na linha das árvores, eu finalmente voltei para a realidade e segui meu caminho na direção oposta.
Em poucos minutos, eu já estava na rua da delegacia. Eu só entraria quando Antony localizasse a casa e detectasse atividades suspeitas lá dentro. Assim, não correríamos o risco de enviar a polícia atrás de uma casa que deixou de existir ou que ficou vazia.
Antony estava demorando para dar algum sinal, e aquilo estava me deixando preocupado.
Depois de longos quarenta minutos, finalmente ouvi um chiado vindo do walkie-talkie.
— Mike, na escuta? — a voz de Antony ecoou.
Aproximei o walkie-talkie da minha boca rapidamente.
— Sim. Estou na escuta. — respondi.
— Certo. Você já está perto da delegacia? — ele perguntou. Sua respiração estava alta, um provável reflexo do cansaço e do frio.
— Sim. Algum sinal da casa?
— Acabei de atravessar a floresta. Estou em um campo que parece vazio, mas não tenho certeza, pois tudo está escuro, já que eu desliguei a minha lanterna para não chamar atenção.
— Perfeito, você fez certo. Continue seguindo em frente. Quando encontrar a casa, fale comigo.
— Ok. Câmbio, desligo. — Antony falou.
Ele continuava seco, e isso era um lembrete cruel do fim da nossa amizade.
Suspirei, vendo a fumaça branca saindo de meu nariz por conta do frio. Eu mal tinha notado que estava tão frio, pois ainda vestia o terno.
Pensei em como Antony deveria estar congelando, já que ele usava apenas uma camiseta azul-marinho de manga curta e uma calça cinza de moletom.
Um novo chiado do walkie-talkie me puxou para fora de meus pensamentos.
— Mike. Eu encontrei a casa. Puta merda... é exatamente como você descreveu! — ele disse, tentando conter a voz.
— Como você sabe? Não está escuro aí? — questionei com urgência.
— Algumas luzes estão acesas. — ele respondeu, com a voz trêmula por causa do frio.
— Meu Deus. — falei nervoso.
— Vou me aproximar de uma das janelas com cuidado.
— Ok. Eu vou chegar mais perto da delegacia.
Alguns segundos se passaram.
— M-Mike. Eu estou na frente da janela. Tem uma pequena abertura na cortina. Eu vou tentar ver o que tem lá dentro. — ele sussurrou.
Resolvi não responder, pois não sabia o quão alto o walkie-talkie dele poderia estar.
— Meu Deus... tem uma garota lá dentro. Não consigo ver ela muito bem, mas sei que ela está amarrada! — Antony falou, ainda tentando conter sua voz, mas o desespero era nítido.
Continuei sem responder, mas dessa vez eu precisava agir.
Eu estava do lado de fora da delegacia e não hesitei em avançar para dentro imediatamente.
Meus pés adentraram o cômodo frio, iluminado por uma luz pálida.
Eu apertei o walkie-talkie com mais força em minhas mãos e caminhei decidido.
Um policial carrancudo ergueu seu olhar para mim e quando eu separei meus lábios para falar...
Ouvi o chiado do walkie-talkie e a respiração ofegante de Antony.
— Mike! Sai de perto da delegacia agora! É o xerife Collins, porra! — ele falou, desesperado.
Eu demorei um pouco para assimilar o que ele estava dizendo.
Minhas pernas vacilaram. Meu coração disparou. O ar ficou denso e tudo pareceu ficar em câmera lenta. Só o olhar daquele policial me fuzilava, e eu sabia, sabia que naquele momento aquilo não significava uma coisa boa.
— Mas que merda! Ele me viu! — Antony gritou com a voz trêmula, o desespero atravessando os alto-falantes do walkie-talkie, selando nosso destino.
E então, um baque surdo, seguido de silêncio. Um silêncio cruelmente doloroso.
Me virei para trás, pronto para sair correndo pela porta, mas senti algo se chocando contra meu rosto de forma violenta, causando uma dor lancinante em cada extremidade do meu corpo.
Despenquei para o chão, sentindo aquele forte cheiro metálico.
Minha visão ficou turva, mas eu ainda pude ver um policial segurando um bastão, e essa cena era tão errada quanto eu poderia descrever. Aquele homem que deveria proteger e trazer justiça estava lá, diante de mim, segurando a arma que arrancou sangue do meu nariz.
Eu só queria me levantar e fugir dali, mas eu não tinha forças. A impotência me abraçou e me carregou para a escuridão.
Eu apaguei.
[...]
Abri meus olhos lentamente, sem entender bem onde eu estava ou o que tinha acontecido.
Com o tempo, minha visão foi tomando forma, e eu pude ver paredes amarelas desbotadas, com respingos de sangue, e uma televisão antiga exibindo o filme It, de 1990.
Assim que recuperei todos os meus sentidos, vi o desespero se apossando de mim e as memórias das últimas horas me atingiram em cheio.
Eu me debati, mas percebi que estava com os braços e pés amarrados em uma cadeira de madeira. Também havia uma mordaça cobrindo minha boca, impedindo que meus gritos saíssem.
Então, aquela voz rouca e áspera surgiu em algum canto daquela sala, forçando meus instintos a procurar seu dono com minha visão periférica.
— Mike Chambler. Eu esperei tanto por você.
Acompanhei o maldito xerife Collins com os olhos. Seu distintivo brilhava contra a luz e cada vez que eu pensava sobre o quanto ele não merecia usar aquilo, mais eu sentia vontade de avançar sobre ele para arrancar aquilo de sua farda desbotada.
Ele parou diante de mim, com os braços cruzados e um sorriso que me embrulhou o estômago.
Olhei para ele com ódio, enquanto meu peito subia e descia rapidamente.
— Esse é seu filme favorito, não é? — ele falou se virando para a televisão — lembro de ver um pôster em seu quarto. — ele se virou para mim novamente, com aquele sorriso maldito.
— Bem, você não vai conseguir me responder com essa mordaça. Eu vou tirar. Você pode gritar se quiser, ninguém vai te ouvir de qualquer maneira — ele começou a se aproximar — e se alguém ouvisse, quem iria chamar? A polícia? — ele riu e tirou o pano da minha boca.
Eu não gritei.
— Bom garoto. — ele falou dando um tapinha na minha cabeça.
— Onde tá o Antony e a Olívia?! — gritei.
Albert fez uma careta.
— Esquece esses dois Mike. Nós... vamos conversar primeiro. — ele falou com uma empolgação estranha. Puxou um pequeno banco e se sentou na minha frente.
— Me tira daqui! — gritei.
— Ainda não. Você ainda está muito... arisco.
Até o jeito de falar dele me causava nojo.
Mas eu não podia fazer nada.
Eu estava completamente refém.
— Ah, Mike. Se você soubesse o quanto é especial para mim...
— Eu ainda me lembro da primeira vez que te vi — ele falava com brilho nos olhos, um brilho perverso — você estava lá, conversando com seus amigos na escola. Seu olhar cruzou com o meu. Você não deve ter percebido, pois eu estava de óculos escuros, mas você não sabe o quanto aquilo me marcou. — ele concluiu, olhando para a janela ao nosso lado.
— Vai se ferrar. — falei com os dentes cerrados.
Ele riu como se fosse uma piada.
— Não se faça de difícil Mike. Você acha que eu me esqueci? Você veio atrás de mim primeiro... você veio até a porta da minha casa... ah Mike, eu já estava curioso sobre você, mas nesse dia... nesse dia você me deixou encantado!
Fiquei sem reação. As palavras pareciam presas em minha garganta, enquanto o horror transparecia em minha face.
— Eu... eu era só uma criança! — respondi.
Albert riu.
— Seu desgraçado!
— Não adianta se revoltar. Você sabe que todos estão do meu lado!
— Não é possível que todos estejam! — falei, balançando a cabeça em negação, enquanto as lágrimas ardiam em meus olhos.
— Ah! Claro que não. Mas os que não ficaram do meu lado... foram silenciados. — ele falou se aproximando.
— O-o meu pai. — falei com a voz trêmula.
— É. E alguns dos meus colegas de profissão também. O FBI deixou o caso em minhas mãos, então sumir com algumas pessoas não traria consequência alguma para mim. Eles só pensariam que era mais uma obra do criminoso que eu precisava capturar. — ele disse, dando de ombros.
— Eu matei seu pai por múltiplos motivos. Ele estava me dando muito trabalho, te levou para longe de mim… e eu precisava fazer algo contra ele para chamar sua atenção e te trazer de volta. — ele completou.
— Seu filho da puta desgraçado! Eu te odeio! — gritei me debatendo na cadeira.
— Ah, Mike... você é assim desde sempre... eu me lembro do dia que você veio até mim junto com seu amigo Antony para reclamar de Amber, tão ousado...
— A-Amber... — murmurei em choque — cadê a Amber?
— Amber — ele falou se virando para a janela outra vez — bem, um colega meu agradou dela.
— Ela era sua filha! — gritei.
— Sim. E eu sou extremamente grato a ela — ele fez uma pausa — foi ela quem trouxe Olívia para mim.
Senti uma pontada no peito.
— Cadê a Olívia?!
Albert se aproximou de mim, com os olhos fixos nos meus e um sorriso sem mostrar os dentes.
— Vou te mostrar. — ele falou, ajeitando o meu paletó.
Depois, ele se levantou e saiu da sala.
As lágrimas queimavam meus olhos, e minha respiração alta preenchia a sala, juntamente com o som das batidas aceleradas do meu coração.
Então, ele voltou...
Albert Collins voltou segurando algo.
E quando eu vi o que era... senti como se tivesse levado um soco no estômago.
As lágrimas escaparam dos meus olhos.
Eu me senti ainda mais tonto.
Minha visão ficou turva.
E meus gritos escaparam, enquanto eu me debatia violentamente contra a cadeira.
Albert segurava... um olho humano e uma mecha de cabelos castanhos.
Eu conhecia bem aquele cabelo.
Já o olho estava tão deteriorado que eu não pude confirmar se realmente era dela.
— Não. — murmurei, incrédulo.
Collins se aproximou e segurou meu queixo.
— Eu matei aquela cadela, Mike. Agora, ela não pode mais ficar entre nós.
— NÃO. NÃO. NÃO. — eu gritei, balançando minha cabeça contra seu toque áspero.
— O QUE EU TE FIZ? O QUE EU FIZ PARA MERECER ISSO? — lamentei com minha voz embargada.
Albert sorriu.
— Você não fez nada, meu querido. Eu só não quero que fiquem no nosso caminho.
Abaixei minha cabeça, enquanto chorava alto.
Albert continuou parado diante de mim.
Então eu me lembrei... tinha mais uma pessoa.
Busquei conter o choro e ergui minha cabeça lentamente para olhar para Albert.
— Por... favor — falei com dificuldade — d-deixa... deixa o Antony ir. — supliquei.
Albert se virou para o lado.
— Vou pensar... mas ele não está merecendo, me deu bastante trabalho hoje.
— O-o quê — murmurei com dificuldade — O QUE VOCÊ FEZ COM ELE?! — gritei.
Albert me ignorou e começou a caminhar para fora da sala.
— ME RESPONDE! O QUE VOCÊ FEZ COM ELE?! — vociferei, me debatendo.
Sem resposta. Collins tinha saído da sala.
E, nesse momento, eu fui atingido por um lampejo de lucidez.
O xerife que regrediu à barbárie não teria piedade de nós. Então, se eu quisesse me salvar e salvar Antony, teria que fazer isso por conta própria.
Examinei o lugar com meus olhos dolorosamente inchados e encontrei algo.
Havia uma pequena faca no sofá atrás de mim. Se eu passasse minhas mãos pelos vãos da cadeira, conseguiria alcançá-la, mesmo com as mãos amarradas.
Me perguntei como Albert poderia ser tão idiota a ponto de deixar aquela faca ali.
Depois de um breve esforço, consegui alcançar a lâmina e comecei a cortar as cordas freneticamente. Essa tarefa levou um bom tempo e eu fiquei verdadeiramente decepcionado por não ser rápido como nos filmes.
Depois de liberar minhas mãos, me livrei das cordas em meus tornozelos e limpei meu nariz, que escorria e ainda possuía resquícios de sangue seco.
Quando me levantei, quase caí. Meu corpo estava tão mole e fraco que o simples ato de ficar de pé exigia grande esforço.
Larguei a faca sobre o sofá e tentei pensar em algo, mas minha mente estava uma bagunça, em um turbilhão de pensamentos.
Meus olhos encontraram a porta da frente, e eu corri desajeitadamente até lá.
Minhas mãos trêmulas tocaram a maçaneta fria, mas... a porta estava trancada. Claro que estava.
Suspirei frustrado e cambaleei para trás.
Então... ouvi uma voz atrás de mim.
— Eu sabia que você iria aprontar, Mike.
Então eu entendi.
Collins não foi descuidado ao deixar aquela faca lá. Ele fez de propósito. Aquilo era a porra de um teste.
Me virei para trás apenas para encontrar Albert segurando um Antony mutilado pela camisa.
O rosto de Antony estava tão machucado que ele estava quase irreconhecível. A carne parecia remendada em diversos pontos. Algumas partes estavam com a pele pendurada, outras com hematomas roxos ou amarelados. Os olhos dele estavam tão inchados que ele mal conseguia abri-los. E sua blusa azul-marinho tinha uma enorme mancha de sangue que ia da gola até a área de seu abdômen.
Ele não tinha forças para lutar.
E eu também não.
Novas lágrimas trilharam o meu rosto, cobrindo as antigas que estavam secas.
E eu separei meus lábios ressecados para tentar dizer qualquer coisa que impedisse o pior.
— A-Albert — murmurei — solta ele! — falei um pouco mais alto, mas ainda assim, minha voz estava trêmula.
— Seu pedido é uma ordem, Mike. — Albert falou sarcasticamente e soltou Antony, que caiu de joelhos no chão.
Ele pedia socorro com o olhar, enquanto algumas gotas de seu sangue caíam sobre o piso.
— D-deixa... deixa ele em paz! — falei, dando um passo à frente.
— Fique onde você está! — Albert gritou, apontando o braço em minha direção.
Ele respirou fundo, virando—se para outra direção.
— Você sabe o quanto eu me esforcei para ter você, Mike? — ele gritou, voltando seu olhar para mim — pra você simplesmente tentar fugir assim?
Não consegui dizer nada.
O horror corria pelas minhas correntes sanguíneas, enquanto meu olhar continuava fixo em Antony.
Eu só queria acabar com aquilo.
Só queria tirar Antony de lá.
Levá-lo para longe daquele monstro.
E talvez, um dia, pudéssemos voltar a ser amigos como antes. Talvez eu pudesse vê-lo sorrindo de novo.
— A-Albert... por favor... eu imploro!
Meus olhos nadavam em lágrimas.
— Ah, Mike. Você precisa entender que certas ações precisam ter consequências! — Albert falou.
Em seguida, ele agarrou a gola da camisa de Antony. O corpo do meu amigo balançou com o solavanco repentino, mas ele ainda ergueu sua cabeça e olhou diretamente nos olhos de Albert Collins, de uma forma desafiadora.
— V-vai... vai se ferrar! — ele cuspiu as palavras com dificuldade.
Albert sorriu e largou a gola da camisa de Antony, tomando certa distância dele.
Quase suspirei de alívio, mas...
Albert ergueu seu pé, coberto por um coturno pesado...
— NÃO! — gritei.
Mas foi inútil.
Ele acertou um golpe em cheio no rosto de Antony, que caiu de bruços sobre o assoalho frio. Seus olhos vidrados em mim e sua mão ensanguentada tendo espasmos.
— M-M-Mike... me d-desculpa. — ele murmurou com dificuldade.
Albert ergueu seu pé outra vez e desferiu mais um golpe.
Pude ouvir o som do crânio de Antony se quebrando.
Foi fatal.
Um zumbido tomou conta do meu ouvido, e tudo ficou sem sentido.
— A-Antony... — murmurei, mas pareceu mais um ruído estranho.
Albert sorriu quando eu caí de joelhos sobre o chão, com uma expressão de completo choque.
As lágrimas caíam de meus olhos, enquanto eu via o corpo do meu amigo imóvel perto do pé de Albert.
Eu não tinha mais motivos para lutar.
Eu não tinha mais pessoas para salvar.
Não havia esperança.
— SEU FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! — gritei entre lágrimas.
Albert Collins desviou do corpo de Antony e veio em minha direção.
— Agora, Mike... você vai aprender a me respeitar.
Ele se aproximava cada vez mais, com aquele jeito monstruoso e com o rosto salpicado de gotas do sangue de Antony.
Albert parou diante de mim e, quando estava prestes a tomar alguma ação, arregalou os olhos.
Gotas de sangue surgiram de sua cabeça, descendo pela testa. Eu olhei atordoado, e ele finalmente despencou para o chão, revelando quem havia o atingido.
Era... Olívia.
Tudo aconteceu tão rápido, mas eu ainda pude notar como ela estava diferente.
Seus olhos estavam carregados de fúria, seus cabelos bagunçados e com algumas mechas grudadas com sangue seco.
Ela possuía alguns cortes pelo rosto e vestia roupas levemente sujas.
Olívia segurava um enorme e pesado objeto que eu não consegui identificar, pois minha visão começou a ficar turva.
Foi esse objeto que ela usou para atingir a cabeça de Albert Collins inúmeras vezes.
Eu ainda pude ouvir o som dela esmagando o crânio dele.
E o cheiro metálico flutuando pelo ar.
Antes de perder a consciência completamente.
Capítulo 6 (final):
Senti como se tivesse sido arrancado de um sono profundo. Eu havia despertado, mas minhas pálpebras pareciam tão coladas que eu pensei ser impossível abrir os olhos.
Separei meus lábios secos e tentei respirar, como se precisasse de todo o ar do mundo.
O som das coisas ainda era turvo, como se tudo estivesse debaixo d’água, mas eu ainda pude distinguir os equipamentos de rodinhas sendo arrastados pelos corredores, vozes distantes e o bip de algum aparelho.
Lentamente abri meus olhos, sentindo um forte incômodo ao desgrudá-los. Tudo estava embaçado, mas eu quase fui cegado pela luz branca.
Uma silhueta sentada em minha cama tomou forma diante daquela luz alva e, ao notar meus pequenos movimentos, chegou mais perto.
Tudo foi ficando mais claro aos poucos, inclusive aquela pessoa diante de mim.
— O-Olívia... — murmurei, mas tive certeza de que ela não ouviu, pois minha voz parecia só um ruído estranho.
Ela se aproximou mais e eu pude ver seus olhos castanhos arregalados.
— Mike! — ela falou — finalmente você acordou!
Coloquei minha mão sobre a cabeça, sentindo uma leve dor tomar conta de mim.
— Q-quanto tempo... quanto tempo eu estou aqui? — falei, tentando me colocar sentado. Olívia me ajudou.
— Já faz alguns dias. — ela disse, se afastando.
O silêncio pairou no ar por alguns instantes. Olívia fitava o chão com seus olhos cansados e sua expressão abatida.
— O-o que aconteceu? — questionei.
Olívia olhou para mim. Ela demorou um pouco para começar a falar, parecia procurar pelas palavras certas.
— Depois que... que o Albert morreu — ela fez uma pausa, abalada ao citar aquilo — o FBI finalmente levou o caso a sério. Eles investigaram toda a situação e todos os outros envolvidos foram presos.
Separei meus lábios para dizer algo, mas Olívia continuou.
— Mesmo sendo óbvio que foi legítima defesa, ainda teremos que prestar depoimento e comparecer ao julgamento.
Olívia respirou fundo.
— Eu... eu tô cansada dessa história! Eu só queria ficar em paz depois de tanto sofrimento! — ela disse se levantando da cama.
— Eu sinto muito... por você ter passado por todas essas coisas. — falei, atraindo a atenção dela.
— Também sinto muito, Mike. Eu fiquei sabendo de tudo que aconteceu. Meus pêsames pela morte do seu pai.
Assenti com a cabeça e o silêncio tomou conta do quarto outra vez. Olívia olhava para o chão com os olhos marejados.
— O Albert — comecei a falar — ele fez eu pensar que você estava morta.
Olívia riu sem humor.
— Aquele desgraçado... espero que ele esteja queimando no inferno agora.
Respirei fundo, sentindo o forte cheiro de desinfetante na sala e me ajeitei na cama.
— Sabe... eu senti falta da nossa amizade. — falei meio sem graça.
Olívia olhou surpresa para mim.
— Eu pensei que você não se importava. Você foi embora para Saint Charles tão de repente. — ela falou com os olhos úmidos.
— Meu pai fez eu ir morar com a minha mãe, para me proteger do Collins... eu não tive tempo de avisar, sinto muito.
— Tudo bem... isso não importa mais, de qualquer maneira. — ela falou, secando os olhos.
Olívia cruzou os braços e olhou para o chão.
— E a sua mãe? — ela questionou, levantando a cabeça novamente — onde ela está? Ela não veio te ver?
Desviei o olhar para a janela.
— Espero que não tenha vindo. Meu pai ainda tentou fazer alguma coisa para me proteger daquele monstro. Já ela, era quase uma cúmplice. — falei com voz embargada.
— Por quê? — Olívia questionou com o cenho franzido.
— Ela não quis revelar que era ele. Se ela tivesse revelado, eu teria entendido a dimensão das coisas e isso teria evitado muita coisa — suspirei — então não quero vê-la tão cedo.
— Meu Deus... — Olívia balbuciou.
Não sabíamos o que dizer ou como agir na presença um do outro. Olívia e eu tínhamos nos tornado quase desconhecidos.
Ela deu a volta na minha cama e foi para perto da janela.
Fiquei com meu olhar fixo na parede branca à minha frente, nadando no silêncio.
Até que uma memória atravessou minha mente e atingiu meu coração como uma lâmina.
— A-Antony... — murmurei — cadê o Antony? — perguntei com urgência, me virando para Olívia.
Ela não se virou para mim, mas pude ver que abaixou a cabeça.
— O Antony... — ela começou a falar com a voz fraca — o Antony sobreviveu. — Olívia concluiu, se virando para mim.
Olhei surpreso e uma onda de alívio tomou conta do meu corpo.
— E-ele está vivo?!
— Está... os médicos consideraram um milagre — ela fez uma pausa enquanto se aproximava um pouco da minha cama — ontem... ontem eu encontrei os pais dele em um dos corredores.
Olhei atentamente para Olívia.
— Eu perguntei como ele estava, mas eles não quiseram falar comigo... eles estavam... destruídos.
Senti meu coração se partindo em mil pedaços.
Olívia secou as lágrimas que começavam a surgir e umedeceu os lábios.
— Hoje o quarto dele foi aberto para visitação, mas... eu não tive coragem de ir lá. Eu não sei se estou pronta para o que vou encontrar — ela desabou em lágrimas — é culpa minha ele estar lá!
— Ei... — falei colocando a mão no ombro dela — não foi sua culpa.
Isso não pareceu consolar Olívia, já que as lágrimas continuavam a cair de seus olhos.
— Ele fez tanto por mim... — ela voltou a falar — e eu nem consegui proteger ele.
Fiquei em silêncio, pois eu também sentia aquela culpa... eu também não tinha conseguido proteger Antony.
— Ei, vamos visitar ele... juntos. — sugeri, atraindo os olhos vermelhos dela para mim.
— Isso é tudo que podemos fazer por ele agora. — completei.
Ela secou as lágrimas que estavam em suas bochechas e falou:
— Tudo bem.
Olívia tomou distância e eu comecei a me levantar.
Mas parecia que eu estava há anos deitado naquela cama. Meu corpo todo estava dormente e meus ossos estalavam a cada novo movimento.
Com muita dificuldade, eu me coloquei de pé. Estava tão fraco que só não caí para trás porque Olívia estava me segurando.
Ela me ajudou a sair do quarto e nós começamos a caminhar pelo corredor pálido.
Meus braços estavam em volta dos ombros de Olívia e ela segurava minha cintura. Eu me sentia completamente miserável com aquela roupa hospitalar e aquela fragilidade.
Finalmente, chegamos na frente do elevador. Olívia apertou o botão correspondente ao andar em que Antony estava e nós ficamos esperando.
Quando as portas do elevador se abriram, pude ver o rosto de Olívia ficando pálido. Eu quase caí, pois ela parou de me segurar com tanta força.
Eu também fiquei em choque, já que... Amber Collins estava dentro daquele elevador, com seus cabelos loiros caindo sobre os ombros e um rosto tão surpreso quanto o de Olívia.
Ela também usava uma camisola hospitalar e tinha cortes espalhados pelo rosto.
Aquele momento pareceu congelado, até que Olívia deu um passo para trás, forçando que eu fosse junto e desviou o olhar.
Amber abaixou a cabeça e passou ao meu lado, quase esbarrando em meu ombro.
Olívia me arrastou para dentro do elevador às pressas e apertou os botões de fechar as portas freneticamente, enquanto Amber sumia no fim do corredor.
— Você tá bem? — questionei.
— Claro! Eu não estou nem aí pra essa cadela. — Olívia respondeu.
Ela tentou soar firme, mas sua voz trêmula deixava claro que estava abalada com aquele encontro.
As portas do elevador abriram e Olívia saiu na frente, em passos largos e apressados.
Eu ainda estava um pouco tonto, mas já conseguia parar de pé e caminhar sozinho, então comecei a segui-la.
Mas ela caminhava tão rápido que eu mal conseguia acompanhar.
O nervosismo transparecia em cada movimento dela.
— Espera, Olívia! — gritei enquanto atravessávamos o corredor.
Ela diminuiu o passo, até que eu a alcançasse.
— Me desculpa. — falou com a voz fraca e com a cabeça baixa.
Continuamos nosso trajeto em silêncio, até que Olívia ergueu a cabeça e parou na frente de um quarto.
Na porta havia um papel com o número do quarto e o nome do paciente...
Antony Peletier.
Senti um aperto no peito e um frio na espinha.
Olívia estendeu a mão na direção da maçaneta, mas hesitou.
Ela respirou fundo, fechando os olhos.
— Deixa que eu faço isso. — falei.
Dei um passo à frente, toquei a maçaneta, abaixei-a e soltei um suspiro quando a porta começou a se abrir. Ela se moveu lentamente, revelando um trecho do quarto de Antony de cada vez.
Até que se abriu totalmente e finalmente tive a visão de tudo.
Havia uma cama perfeitamente arrumada, com um criado-mudo ao lado e um abajur em cima. Havia também uma enorme janela, que exibia a floresta e o céu nublado lá fora. Os únicos sons presentes no quarto eram o som da chuva batendo contra o vidro e o bip dos aparelhos.
E junto à janela, de costas para nós, sentado em uma cadeira de rodas, estava Antony.
Olívia deu um passo para trás. Eu olhei para ela e dei um passo à frente, tentando encorajá-la, mas ela não me seguiu.
Então eu adentrei o quarto e comecei a caminhar lentamente na direção de Antony.
Ele não havia notado nossa presença e continuava parado, olhando para a janela.
— Antony? — chamei.
Sem resposta.
Eu podia jurar que conseguia ouvir o som do meu coração junto ao som da respiração pesada de Olívia.
— Antony... sou eu... o Mike. — falei chegando mais perto.
Sem resposta.
Parei a poucos metros dele e me virei para Olívia, vendo a aflição em seu olhar.
Sem aguentar mais, dei outro passo e parei na frente de Antony, entre ele e a janela.
Senti meu coração se estilhaçando dentro do meu peito.
Olívia deve ter percebido o choque em meu olhar, pois ela gritou perguntando o que estava acontecendo.
E eu não tive forças para responder. As palavras morreram dentro de mim.
Os olhos de Antony nem se moveram diante da minha presença. Ele continuava olhando fixamente para a janela, que era refletida em seus olhos azuis vazios.
Nada nele se movia. Nada. Ele estava completamente paralisado.
As marcas da violência sofrida ainda estavam presentes. Seu nariz continuava fora do lugar, e seu rosto estava coberto por cortes, pontos e curativos.
Mas ele não tinha reação alguma.
Foi aí que eu percebi que Antony estava morto.
Não morto da forma que te deixa sem sinais vitais, com a pele fria e decomposta, mas morto de uma forma pior... morto por dentro.
Aquilo era só sua casca vazia.
E ele nunca voltaria a ser o mesmo de antes.
Cambaleei para trás.
— A-Antony... — murmurei enquanto as lágrimas queimavam em meus olhos.
Olívia finalmente saiu da porta e veio correndo em nossa direção.
Quando ela viu o estado de Antony, colocou as mãos sobre a boca e começou a chorar.
Aquilo foi como levar um soco no estômago.
Quando somos confrontados por algo tão absurdo e inconcebível, nos agarramos à esperança de estar em um pesadelo.
E eu tentei acordar.
Mas não consegui, porque não era um pesadelo.
Era real. Amargamente real.
— A-Antony... pelo amor de Deus... — supliquei com a voz baixa demais.
Mas foi inútil.
Meu amigo nunca voltaria a ser quem ele foi um dia. Ele nunca voltaria a sorrir ou a contar piadas idiotas.
E perceber isso fez com que um abismo se abrisse em meu peito.
Me ajoelhei diante de Antony, segurei suas mãos e abaixei minha cabeça, permitindo que as lágrimas escapassem de meus olhos, enquanto eu ouvia o som da chuva batendo contra o vidro e os soluços de Olívia.
Ergui minha cabeça novamente e notei algo que, por um instante, me fez pensar que estava delirando.
Algo... brilhou em um dos olhos de Antony...
Então, uma única e solitária lágrima caiu de seu olho esquerdo.
De alguma forma, ele ainda estava lá.