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Uma das antigas pr'ocês curtirem.
Beep, beep, beep, beep…
A infinita pilha de compras deslizou na esteira do caixa, chegando cada vez mais perto de uma atendente que parecia tão entediada quanto eu. Ela pegava, encontrava habilmente o código de barras e beep; ele era colocado na fatura. A caixista então o atirava para uma outra pilha de compras, lá do outro lado, onde produtos e mais produtos se apinhavam numa montanha que emanava um sentimento de “puts, estourei o limite do cartão, mas a dispensa tá cheia”. Enquanto isso, uma senhora, frágil e corcunda demais para carregar aquilo tudo sozinha, estava tirando novos produtos do carrinho (que ainda parecia bem cheio pra mim) e os despejava mais uma vez na esteira — e o ciclo se repetia: roda a esteira, beep, joga o produto na pilha; tira do carrinho, roda e esteira, beep, joga o produto na pilha e bla-bla-bla… naquela altura, eu já havia aceitado que não sairia daquele atacado antes do horário de pico, então viraria mais um carro comprimido num trânsito infinito que só São Paulo num sábado à tarde de feriado pode nos oferecer. Mas tudo bem; se eu chegar em menos de uma hora eu consigo arrumar tudo antes dele voltar; vai dar certo, vai dar. O problema é aguentar toda essa lerdeza mesmo.
Suspirei, colocando o peso do meu corpo na outra perna e ajustando a coluna pra uma posição mais confortável e menos ergométrica. Olhei pr’um lado, olhei pro outro, me voltei então pro meu carrinho e resolvi conferir mais uma vez os produtos pra passar o tempo, afinal, pressa era a última coisa que eu deveria ter nesse momento. Pesquei meu celular do bolso, fui pro whatsapp e entrei no meu próprio contato, onde uma série de mensagens se empilhavam uma atrás da outra — nenhuma respondida. Escorreguei o dedo na tela um pouco até achar. Certo. “Leite, ok; pão, ok; papél higiênico, ok; café, caro, mas ok;” e segui assim por um tempo: “Detergente, ok; guardanapo, ok; pasta de dente, ok; silêncio… o quê?” voltei rapidamente até aquela mensagem. Silêncio? Sim, eu tinha escrito isso na lista de compras, mas o que isso deveria significar? Ah, sim, deve ter sido o corretor, o que quer dizer que eu esqueci um produto graças à esse errinho do meu celular — cara, eu deveria desabilitar isso logo. Larguei de mão o celular e forcei a mente à pensar no que eu tô esquecendo, no que falta em casa, mas eu só focava na palavra “silêncio” como se ela fosse uma presença palpável dentro do meu cérebro. Não, eu não vou lembrar; eu deveria saber, mas por que que eu…
— Próximo.
Acordei daquele devaneio e me vi de volta àquele supermercado; a senhora já havia sumido com suas compras e o caixa estava completamente vazio, com a moça agora me encarando como se eu fosse um maldito problema no seu dia que já estava ruim. Soltei um leve “opa” e comecei a descarregar o carrinho.
A esteira rola, beep, produtos atirados pro outro lado; descarrego o carrinho, a esteira rola, produtos atirados… esse ciclo se repetiu por um tempo, mas na minha cabeça só ecoava uma única coisa, silêncio, mas o eco do pensamento logo sumia no vazio da mente, nunca encontrando uma resposta. Silêncio.
Compras pagas, segui com meu carrinho lotado de sacolas plásticas marcadas com uma logo até que bacana do atacado. Achei o rumo do meu carro e atirei tudo no porta malas, com exceção de uma coisa: a nota fiscal — ria se quiser, mas eu sou uma daquelas pessoas que leva esse papo de “consciência financeira” muito à sério; eu guardo a notinha de tudo, coloco os gastos na planilha do mês, desconto os valores das minhas reservas de dinheiro para, nesse caso, mercado, então vivo tranquilamente até mesmo durante a época do imposto de renda, afinal eu já agilizei e muito o trabalho do meu contador. Entrei no carro, afivelei o cinto e parei pra ler a nota — hora da facada.
Olhando pra isso agora, vi que saiu mais caro do que eu esperava, mas fazer o quê se precisamos comer mistura e o preço da carne tá uma loucura? Ele vai entender, sim, ele vai.
O porém foi que, passando a vista pelos itens, eu gelei ao ler o último — a realidade se distorceu e seus contornos se reviraram feito vórtice para aquele único ponto, aquela única palavra. “Silêncio". Era em letras simples e garrafais, só que elas, de alguma forma, me transmitiam um desconforto de revirar o estômago; uma ânsia; um… O que… o que é esse tal de silêncio que eu comprei? Digo, se tá na nota eu comprei, então deve ser… ah, sim, talvez uma daquelas esponjas que diminuem o ruído, daquelas que a gente vê em estúdios de gravação? Deve ser isso — tem que ser. E… não; por que isso estaria à venda num mercado qualquer? Não; não é isso.
Olhei então o preço; a notinha tinha falhado na impressão mais pro final do papel, dissolvendo a tinta lentamente até desaparecer bem antes do valor final da compra; o que quer dizer, basicamente, que eu não sei o valor desse único produto.
Enfiei aquele pedaço de papel no bolso assim que eu percebi que todos esses questionamentos não me levariam a lugar nenhum; pelo menos nenhum lugar bom. Meti a chave e dei ignição, saindo daquela vaga dando ré. Suspirei.
O carro começou a rodar lentamente já na avenida, avançando a cada poucos minutos e por poucos metros cada vez; indo à passos de tartaruga até minha casa. Lá fora, berros do vendedor de água e sorvete; os motoristas reclamando com os limpadores do para-brisas no farol; buzinas, muitas buzinas mesmo, que palpitavam esporadicamente num movimento orgânico toda vez que alguém dentro do carro tinha a brilhante ideia de abrir o trânsito ao ressoar do berro, assim como Moisés no Mar Vermelho, pra que deixasse ele passar triunfantemente — ri com esse pensamento.
Então os céus começaram a se fechar, mas diferente de uma punição divina, o que eu via era o lento espreguiçar das nuvens, buscando aconchego uma na outra; escurecendo a vista e amenizando o clima. Vendedores, limpadores, pedestres, todos correram; só ficaram os carros — e a gente seguiu na luta; avança, para, avança, para, avança… A garoa caía em ritmo frenético, mas, assim como tudo nessa cidade, gerava em mim só mais exaustão. Lenta:, eu ‘tava lenta; consegui me acalmar. O torpor do tédio tomou conta de cada centímetro do meu corpo, apenas com exceção de meu pé direito, para acelerar; minha mão esquerda, que guiava o volante; e meus olhos, para não se fecharem e eu dormir de vez. Lá estava eu, calma, contida, quase relaxada acima de tudo, desse dia de merda. De repente, o mundo se calou; as buzinas, os roncos dos motores, as vozes, até mesmo a chuva; tudo; o que sobrava era aquele chiado que se tem quando tudo está muito quieto, aquele som que percorre suas orelhas na calada da noite e nina teu sono. E o mundo dilatava lentamente e sumia, sumia, sumia e…
Foi então que meu celular tocou e tudo foi pros ares — pulei no assento. Olhei pro banco do carona, sentindo o torpor ainda se esvaziar lentamente, e vi a tela se iluminando enquanto tocava aquele sonzinho chato. Senti a ânsia súbita percorrer meu peito, se enlaçando ao redor de meu coração junto de seu corte farpado e me livrando de qualquer preguiça quando vi a mensagem dele — “Onde você tá?”
Nesse momento subi um pouco a vista até o relógio; uma hora, havia se passado uma hora e eu estava na metade do caminho. Isso quer dizer que eu não vou conseguir chegar em casa antes dele, fazer sua comida, terminar de arrumar tudo; quer dizer que ele vai ficar zangado, que vai se enfurecer e… não. Não, não, não, não. Eu tô no trânsito, é só falar isso pra ele; daí vai entender que só me atrasei porque algum idiota congestionou tudo fazendo sabe-se-lá o quê — isso sempre acontece! Simples. Postura firme, respira e responde.
Peguei o celular, destravei a tela e digitei rapidamente um “presa no trânsito”, então desliguei e larguei aquilo de lado. Estava feito. Estava feito…
Na outra metade do caminho eu não relaxei por um segundo sequer; estava tensa, ansiosa e, bem mais pra dentro, lá no meu âmago, com medo. Quanto mais perto de casa, mais eu tinha a certeza de que algo ruim iria acontecer; que eu, mais uma vez, tinha irritado ele. Por que eu sou assim? Por que eu sempre o decepciono? Sim, ele é uma pessoa muito estressada e eu entendo que ele não deveria agir com tanta violência, mas tudo o que eu faço desde o momento em que ele me mostrou esse seu ladinho complicado foi evitar ao máximo que ele sentisse uma fração sequer de raiva. Eu uso roupas simples, sem graça e cumpridas, diferentes da extravagância de antes, para que assim ele saiba que os homens tem menos o que olhar e ele sinta menos ciúmes — e antes que diga, eu sei que é errado esse ciúmes dele, mas a gente não tem que se esforçar pra manter o relacionamento? Eu trabalho em casa, vivo em casa, faço tudo em casa, porque assim, segundo ele, posso me concentrar nos meus deveres de mulher; cozinhando, lavando, passando e, um dia, mais pra frente, cuidando de um bebê — coisa que ele não fala muito, quase nunca, porém, depois de… bem, discutirmos, ele costuma passar a mão no meu rosto e dizer sobre comos vamos fazer uma família linda. Eu acredito nisso, preciso acreditar. Olha, eu até larguei meus amigos, não falo com meus familiares, deixei de lado meus hobbies, eu… Deus, o que eu não fiz por esse homem? Eu fiz tudo! Tudo! Então por que ele não… por que eu… Silêncio. As palavras queriam vir, estavam na ponta da língua, mas eu sabia que era errado colocá-las pra fora. Engoli então; senti como se uma pedra descesse rasgando a minha garganta enquanto um choro rouco engasgava em meus pulmões. Silêncio. Não chora, não fale, não pense, não aja, não seja. Silêncio. Você é a esposa dele, não é? Você o quer ver bem? Não quer? Você faz de tudo por ele, não faz? Então vai e faça o que você sabe de fazer de melhor, desde o primeiro dia que você o ouviu gritar de raiva por coisas estúpidas, e faça o seu tão maldito, profano e sufocante silêncio. Então puf. Todo o sentimento ruim se foi.
Quando me dei conta, estava parada de frente à nossa casa, encarando o carro dele com tanta intensidade que as órbitas doíam. Parei, pisquei algumas vezes, olhei no retrovisor; eu tava acabada; uma sombra me caia por sob a face; parecia morta, cansada demais pra qualquer coisa. “É só um dia de merda”; mentalizei enquanto arrumava meu cabelo e ensaiava algumas expressões tensionando os músculos do rosto e maxilar. Pronto. Saí do carro e fui pro porta-malas. Meti a chave na entrada, girei e dei de cara com aquele amontoado de sacolas brancas com uma logo maldita tingindo o plástico vagabundo. Fui pegando, uma à uma, e enrolando em meus braços, até que todas estivessem presas, seguras. Foi desajeitado fechar o porta-malas, mas consegui. Andei até em casa sentindo a dor nos músculos; cheguei em frente à porta e a abri antes que pudesse me arrepender de qualquer coisa. Vai dar tudo certo; vai dar.
— Querido… — Tentei falar, só que a palavra saiu áspera e com dificuldade de minha garganta, como se eu não tivesse forças pra sequer falar. Tosi — Querido, cheguei.
Cruzei a sala, passos rápidos, e despejei as sacolas na mesa.
— Onde tu ‘tava, Bianca? — Uma voz grossa e de tom firme ecoou de minhas costas.
Me virei num estalo: — Ah, você já chegou?
Ele parou um tempo, me analisando, então ergueu de leve sua sobrancelha e seus lábios de uma forma que me causou arrepios. Eles estava bravo, claramente bravo. Não me abalei, pelo menos não por fora.
— Sim… eu cheguei em casa — Enquanto falava, começou a andar de um lado para o outro da cozinha, movimentando seus braços com vigor, sempre contorcendo os dedos. — mas quando eu chego, que surpresa, cadê a minha esposa? Cadê a minha comida? Cadê as roupas fora da máquina? Cadê tudo, mulher?! — Terminou seu sermão me encarando; sua expressão, ainda mais firme, era tingida pelo vermelho de sua pele, manchando a minha visão com a pigmentação de seu ódio. Ele estava realmente bravo, muito bravo mesmo.
Não falei por um momento: — Eu… querido… — as palavras me faltavam, se engasgavam na laringe como que se estivessem entre grades.
— Sim — Agora se virou completamente em minha direção. Parecia uma sombra, completamente negra e sem olhos, me encarando enquanto sua aura emanava aflição e desespero. Começou a bater os pés quando viu que eu recuei — Sim, me explique, Bianca.
— Eu… — indiquei rapidamente as sacolas — eu tava no mercado e…
Um movimento rápido, súbito, quase instantâneo, invadiu a minha visão embaçada pelo torpor do medo e se clareou pelo som avassalador de um baque tão alto quanto o de um tiro. Então várias coisas caindo.
Eu estava paralisada, não me movi um centímetro sequer, apenas encarei a cena — ele havia dado um murro tão forte numa pequena mesa de canto, à seu lado, que ela se desmantelou inteira e atirou pra todo lado um retrato de quando éramos felizes, algumas bugigangas de enfeite e um calendário de papel. Silêncio. Sua respiração acelerava; ele bufava, caçava um ar que parecia nunca vir enquanto levava sua mão grossa pra massagear o cenho. Silêncio. Deu alguns passos, de um lado para o outro. Silêncio. Me encarou com raiva, ódio e muito mais. Silêncio. Avançou na minha direção. Silêncio. Olhar mortal. Silêncio. Sua mão se ergueu. Silêncio. Alcançou o topo. Silêncio. Abriu a palma. Silêncio. Desceu. Silêncio. Disparou. Silêncio. Me alcançou num tapa. Gemido.
Eu estava caída, às margens da mesa da cozinha, sentindo minha bochecha esquerda esquentar e congelar feito pedra, dilatando entre vários choques e espasmos constantes de dor e a certeza de que eu não deveria ter lhe dado sequer o gosto de soltar algum som de agonia. Mordi o lábio.
— Quem é o cara? Ein, sua puta, me diz quem é o cara!
Agora um chute, bem na minha costela direita. Senti meus ossos rangerem e a carne palitar. Fiz silêncio.
— Fala!
Um chute.
— Me fala!
Um soco.
— Puta, me fala!
Uma chuva de agonia completa. Silêncio.
Estava deitada, atirada sob o piso branco, agora manchado com alguns respingos do meu sangue. Eu enxergava turvo, o mundo tinha bordas de breu. Minha respiração era falha, doída, exausta, mas eu não sentia mais nada; dor, cansaço, raiva; nada. Eu apenas me mantive ali, ouvindo o silêncio. Talvez, se eu sentisse a pele, poderia ver que me escorria uma única lágrima do olho; ela caia lentamente pela bochecha, manchas vermelhas e um grande hematoma, então escorregava pelo queixo e caia no chão, despencando ao abismo como eu. Despencando num abismo que era eu.
— Bianca! — Ele cuspiu a palavra com uma respiração ofegante — Vai ser assim, é? Você… você simplesmente não vai me falar? Ele é melhor que eu? Mais bonito? Mais rico? Mais simpático? Ou você só é uma vadia que não conseguia segurar essa sua buceta molhada um dia sequer sem trepar? É disso que você gosta, não é? Já que você uma puta… isso, você é só a porra de uma puta de merda e eu não preciso de você!
Recebi um único golpe, agora completamente indetectável pelos sentidos, mas que moveu a minha visão estática para o outro lado. Eu o via. Estava mais alto do que nunca, tão alto quanto sua arrogância. Subia ao topo do mundo e me encarava aqui de baixo como se eu fosse o pior dos lixos dessa terra — e eu de fato era. Seus olhos eram inflamados por uma chama amarga, seus punhos rasgados em alguns hematomas de tanto me socar, sua respiração era ainda mais pesada como se tivesse acabado de fazer uma maratona. Era selvagem sua presença; muito, muito odiosa. Seu rosto vermelho tomate era a expressão de um demônio selvagem; o demônio que me arrastou pra esse inferno.
Foi então que eu me perguntei: “Quem é esse homem? Por que o detesto tanto? Por que ele me odeia e me despreza? Por que sinto nojo, raiva e… não, pra ser sincera não sinto nada por ele; isso já passou. Isso mesmo, já passou.” Agora minha mente, meus sentidos, meu corpo, tudo faz o mesmo perpétuo silêncio. Eu desisti. A letargia, que nem hoje mais cedo, rastejou lentamente pela casa e invadiu meu corpo, percorrendo cada centímetro de pele, escorregando pelos machucados, entrando em minha boca. A respiração ia diminuindo. Lentamente, o breu ao redor da vista parecia crescer, consumindo o mundo. A casa ia sumindo e a silhueta da besta também. Foi então que me veio de novo aquele chiado; ele invadia os tímpanos e entrava direto na mente; era tão despreocupado, tão infinito; não ligava para o que aconteceu ali comigo, apenas queria me reconfortar. Silêncio. Tudo se dissolvia e o mundo fez silêncio. Olhei pra ele uma última vez, queria lhe cuspir na cara pra dizer como me sinto — essa vontade instantaneamente se apagou. Olhei pros lados, olhei pro chão, tentei olhar pra algo; a vista paralisou. Enfim, a escuridão me chamou, e tudo sumia, sumia e sumia… Mas antes, num último instante de consciência, eu pensei: “Sim, é isso; a minha vida; esse é o preço do silêncio.
Nota do chat 9,03
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