O Sermão da Longa Noite

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Para as criaturas que penam nesta terra dia e noite, que vivem suas vidas em suas comunidades, resguardadas das intempéries vindas do norte, do sul, do oeste e do leste, e das sombras que espreitam além dos muros e cercados. Digo a vocês, com pesar, que se aproxima mais uma Longa Noite.

Antes que o último raio de sol abandone suas vistas, seus corações quebrantados e suas almas maculadas, reúnam-se diante de suas residências e certifiquem-se de que todos os que vivem sob seu teto estejam convosco. Fechem suas janelas, tranquem suas portas, coloquem as crianças para dormir e, ao deitar, segurem firmemente a mão de seu parceiro, o símbolo sagrado das Matres Vitales ou, se puderem, façam ambas as coisas.

Do templo, através dos vitrais, vejo a noite chegar, revelando no horizonte sua pálida face reluzente. Sob o manto obscuro desta hora macabra, também enxergo os prenúncios dos atos abomináveis que logo mancharão de vermelho as ruas, as escadarias e os infelizes lares que receberão sua visita. Por um breve instante, tudo parece silencioso. Então, como uma respiração profunda antes do golpe, o vento cessa... e os primeiros ecos surgem.

Pode-se escutar o ranger de dentes, os uivos e os murmúrios vindos dos quatro cantos desta cidade.

Fecho meus olhos, tentando ignorar a sinfonia do inferno que ressoa além das portas do templo. Penso nos rostos que talvez eu nunca mais veja — nem nas ruas, nem nos cultos, nem em qualquer outro lugar — a não ser na barriga de uma besta, quando enfim estivermos juntos.

Tudo o que posso oferecer são minhas solenes preces às Matres Vitales. Que suas mortes tenham sido rápidas. Que suas almas encontrem repouso nos Campos Elísios.

Àqueles que sobreviverem a mais uma Longa Noite, peço que, apesar de tudo, venham ao primeiro cantar do galo até nossa casa. Precisaremos identificar quais irmãos abandonaram este mundo para que, ao menos, o que restou deles possa retornar ao aconchego seguro e reconfortante do solo.