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_Aviso ao leitor_
Esta é uma obra de ficção que aborda temas psicológicos e situações de violência de forma narrativa. Alguns trechos podem ser intensos e causar desconforto emocional em pessoas mais sensíveis. Se esses assuntos são difíceis para você, considere prosseguir com cautela.
**Casa Nova**
A casa surgiu numa tarde cinzenta de novembro, dessas em que o céu parece velho demais para continuar sustentando a própria chuva. Elisa se apaixonou por ela antes mesmo de entrarmos.
— Tem personalidade — disse, observando as janelas altas cobertas por poeira.
Eu achei a palavra estranha. Personalidade. A casa parecia morta.
O jardim estava tomado por ervas secas, os portões enferrujados gritavam quando o vento os movia, e as paredes externas tinham manchas escuras que lembravam hematomas espalhados sobre pele doente. Mesmo assim, ela sorriu. E eu teria comprado qualquer ruína do mundo se aquilo significasse continuar ao lado dela.
Nosso casamento tinha apenas sete meses. Sete meses tentando fingir que ainda nos entendíamos.
No começo, pensei que a mudança pudesse salvar alguma coisa entre nós. Recomeços têm esse efeito nas pessoas; fazem parecer que o passado pode ser deixado encaixotado em algum lugar, junto com móveis velhos e fotografias esquecidas.
Mas certas coisas atravessam qualquer mudança. Entram na nova casa antes mesmo da gente.
Na primeira noite choveu forte. O som da água escorrendo pelo telhado antigo preenchia os cômodos como uma respiração lenta e pesada. A energia caiu pouco antes da meia-noite, e ficamos apenas com a luz amarelada de um pequeno abajur ao lado da cama.
Elisa permaneceu em silêncio quase o tempo inteiro. Deitada de costas para mim. Observando a janela.
— Está arrependida? — perguntei.
Ela demorou para responder.
— Não sei.
A voz dela saiu baixa. Distante. Como se viesse de outro cômodo.
Fechei os olhos por alguns segundos, tentando ignorar a sensação desconfortável que crescia dentro do meu peito. Meu médico dizia que eu precisava evitar pensamentos paranoicos durante períodos de estresse. Mudanças bruscas podiam piorar os episódios.
Esquizofrenia. Ainda odeio essa palavra. Ela transforma qualquer medo em algo desacreditável. Qualquer sensação em defeito. Qualquer memória em suspeita.
Foi então que ouvi a primeira batida.
Toc.
Abri os olhos imediatamente. Olhei para a porta do quarto.
Toc.
Mais forte dessa vez. Sentei devagar na cama enquanto meu coração acelerava.
— Você ouviu isso?
Elisa não se virou.
— Ouvi.
Levantei e caminhei até a porta. Conforme me aproximava, senti um cheiro estranho vindo do corredor. Um odor úmido, azedo, como madeira podre misturada com algo pior. Minha mão hesitou na maçaneta. Então abri.
O corredor estava vazio. Escuro. Silencioso. Apenas a chuva ao longe e o rangido ocasional da madeira da casa. Passei alguns segundos observando o corredor estreito até fechar a porta novamente.
— Não tinha ninguém.
Elisa permaneceu imóvel.
Na manhã seguinte tentei esquecer aquilo. Passei horas carregando caixas enquanto Elisa organizava a cozinha. Às vezes eu a observava de longe e sentia algo estranho nela. Como se estivesse cansada demais. Pálida demais.
Ela quase não falava. Evitava contato físico. Quando tentei abraçá-la na cozinha, ela apenas ficou parada entre meus braços, fria e imóvel, como alguém suportando algo desagradável em silêncio.
Talvez estivéssemos apenas desgastados. Casamentos também apodrecem.
À tarde encontrei a parede. Ficava no fim do corredor do segundo andar, parcialmente escondida atrás de uma estante antiga presa à madeira. Havia uma mancha escura crescendo perto do rodapé.
Aproximei-me. O cheiro vinha dali. Forte. Denso. Passei os dedos sobre a parede e senti a umidade fria impregnando minha pele.
— Essa infiltração está piorando — murmurei.
Elisa apareceu atrás de mim tão silenciosamente que me assustei. Ela encarava a parede. Os olhos fixos. Vazios.
— Não mexe nela — disse.
Franzi a testa.
— Por quê?
Ela demorou alguns segundos para responder.
— Só não mexe.
Depois saiu andando pelo corredor.
Naquela noite ouvi os passos pela primeira vez. Acordei às três da manhã com o som de alguém correndo acima de mim. Passos rápidos. Desesperados. Indo de um lado para o outro no corredor.
Abri os olhos no escuro e senti meu peito apertar imediatamente. Os passos pararam diante da porta do quarto. Silêncio. Então começaram de novo. Mais rápidos agora. Como alguém tentando fugir.
Olhei para o lado da cama. Elisa não estava lá.
Levantei quase tropeçando nos lençóis e abri a porta de uma vez. O corredor permanecia vazio.
Exceto por Elisa.
Ela estava parada perto da parede. Imóvel. Os cabelos escondendo parte do rosto.
— Elisa?
Ela não respondeu. Apenas continuou encarando a madeira úmida. Então ouvi. Bem baixo. Uma voz.
— Para…
O sussurro atravessou o corredor inteiro. Meu corpo congelou.
— Você ouviu isso? — perguntei.
Elisa virou lentamente o rosto na minha direção. Havia algo profundamente errado nos olhos dela. Algo morto.
— Ouço isso todas as noites — respondeu.
Depois voltou a encarar a parede.
Comecei a dormir cada vez menos. Os sons aumentaram com o passar dos dias. Batidas na porta. Passos correndo. Arranhões dentro das paredes.
Às vezes eu escutava choros abafados durante a madrugada. Outras vezes, jurava ouvir alguém respirando ao meu lado enquanto tentava dormir. Meu médico aumentou a dosagem dos remédios. Disse que o isolamento piorava meus quadros psicóticos.
Talvez ele estivesse certo. Porque comecei a ver Elisa em lugares onde ela não deveria estar. Parada no corredor. Observando o jardim pela janela. Imóvel no escuro da cozinha.
Certa madrugada acordei e encontrei ela ao lado da cama. Parada. Me olhando dormir.
— Elisa…?
Ela não respondeu. Seu rosto estava parcialmente escondido pela sombra, mas percebi algo estranho na pele dela. Escura. Manchada. Como carne apodrecendo sob maquiagem mal feita.
Pisquei assustado. E então ela parecia normal novamente.
Comecei a acreditar que estava enlouquecendo. Mas os sons continuavam. Sempre iguais. Sempre repetindo a mesma sequência. Os passos correndo. As batidas. O grito. “Para.”
Às vezes vinham acompanhados de outro som. Algo pesado atingindo madeira.
Toc. Toc. Toc.
Violento. Úmido.
Comecei a evitar o segundo andar. Especialmente a parede. Mas a casa parecia me empurrar para ela. O cheiro aumentava a cada dia. Moscas começaram a surgir no corredor. A tinta da parede inchou lentamente até formar pequenas bolhas escuras.
E Elisa… Elisa passava horas parada diante dela. Às vezes sussurrando coisas que eu não conseguia entender. Outras vezes apenas observando em silêncio.
Numa madrugada acordei com o som de choro vindo do corredor. Saí do quarto ainda sonolento e encontrei Elisa ajoelhada diante da parede. Ela tremia. Os ombros subindo e descendo devagar.
— O que aconteceu?
Ela ergueu a cabeça lentamente. Havia lágrimas descendo pelo rosto dela. Mas algo estava errado. Os olhos... Meu Deus… Os olhos dela estavam afundados. Escuros. Fundos demais. Como cavidades vazias.
— Ele não queria parar… — ela sussurrou.
Senti o ar desaparecer dos meus pulmões.
— O quê?
Ela começou a chorar mais forte.
— Eu pedi para ele parar…
Então ouvi as batidas. Não na porta. Na parede.
TOC. TOC. TOC.
Algo dentro dela. Recuei imediatamente. Meu coração parecia prestes a explodir.
— Elisa…
Ela apontou lentamente para a parede. E naquele instante… as memórias começaram a voltar.
Fragmentos. Sangue espalhado no corredor. Os gritos. Elisa correndo. Chorando. Tentando abrir a porta do quarto. E eu atrás dela. Segurando sua cabeça. Batendo. De novo. De novo. De novo.
Toc. Toc. Toc.
Cambaleei para trás sentindo o estômago revirar.
— Não…
As imagens atravessavam minha mente como facas. Ela implorando. “Para.” Meu Deus… O grito. A voz. Os passos. Não eram assombrações. Eram lembranças.
Elisa nunca esteve viva naquela casa. Nunca.
Eu trouxe o corpo dela comigo.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto enquanto eu encarava a parede. Então finalmente entendi por que ela nunca comia. Nunca dormia. Nunca tocava em mim. Nunca saía de casa.
Porque ela estava morta. O tempo inteiro.
Olhei lentamente para onde ela estava ajoelhada. Mas não havia ninguém ali. Apenas o corredor vazio.
As batidas voltaram. Mais fortes agora. Vindo de dentro da parede.
Num surto desesperado, agarrei um martelo na caixa de ferramentas e comecei a destruir a madeira. A parede rachou. O cheiro explodiu no corredor. Podre. Doentio. Insuportável.
Continuei golpeando até abrir espaço suficiente. Então vi.
Cabelos. Ossos. Tecido apodrecido. E o rosto. Ou o que restava dele.
Elisa. Escondida dentro da parede.
Os dedos deformados pareciam arranhados até o osso. Como se ela tivesse tentado sair. Como se tivesse permanecido consciente por algum tempo depois.
Caí de joelhos sem conseguir respirar.
E então ouvi novamente. Atrás de mim. Bem perto do meu ouvido.
— Por que você não parou…?