O carinha do TI parte 1 e 2

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Nunca pensei em relatar os fatos que me trouxeram até aqui, mas depois de ver um post aleatório que, de certa forma, se parecia muito com o que venho passando nos últimos anos, resolvi falar sobre isso.

O post em questão era de uma moça aleatória contando como conheceu o seu marido por conta de um convite para um aniversário. Resumindo de forma básica, a dona da postagem mandou um e-mail para todos da empresa em que trabalhava, convidando-os para seu aniversário, mas no dia em questão a única pessoa que apareceu foi o carinha do TI. A publicação em questão está anexada abaixo.

escreva seu text aqui

Dado esse contexto, óbvio que no meu caso não aconteceu assim, caso contrário eu nem estaria relatando. Bom, eu me chamo Zander e, em meados de 2018, eu trabalhava em uma empresa relativamente pequena, que também tinha por volta de 20 a 30 funcionários. Não era uma empresa muito grande, mas vou ocultar o nome para manter minha opsec. Vou chamá-la de fazVídeo, pois era uma produtora, mas esse não é seu nome real.

Na fazVídeo, meu trabalho era realmente mais na parte de TI. Resumindo: eu dava manutenção nos serviços internos e externos, incluindo o serviço de SMTP e IMAP, que basicamente são os dois protocolos principais para servidores de e-mail. Além disso, eu fazia manutenção em nuvem de arquivos. Por a fazVídeo ser uma produtora, tínhamos que lidar com uma quantidade muito grande de arquivos e vídeos. Isso, no geral, ocupa muito armazenamento. A parte de e-mail não era nada grandiosa, até porque só foi feita para funcionar na rede interna da empresa. Então era super simples: só o Postfix junto com o Dovecot, e para interface usávamos uma genérica rodando por cima do Apache. O cloud de arquivos também rodava por cima do Apache, e de resto era só a rede com um firewall chamado OPNsense. Essa rede era bem simples porque eu era o único funcionário que cuidava da parte técnica. Meu trabalho também incluía instalar ferramentas e/ou formatar os computadores dos funcionários.

Indo para a parte que iniciou tudo que venho relatar: na época, nessa empresa, havia entrado uma moça chamada Júlia. Júlia entrou na empresa para editar vídeos. Na verdade, foi contratada como profissional de motion design, que é a parte de animações visuais dos vídeos e comerciais. Por eu não ser muito próximo de ninguém da fazVídeo (sim, eu sou o estereótipo do nerd antissocial), não sabia muito mais sobre Júlia.

Por volta do fim do ano de 2018, Júlia mandou um e-mail para todos da empresa convidando-os para seu aniversário. No e-mail havia o local, data e hora. Iria ser em um salão particular no dia 8 de dezembro, às 16:30. Eu normalmente não costumava sair, mas resolvi dar uma chance para tentar conhecer melhor meus colegas de trabalho. Chegando na data, foi isso que fiz. Mas aparentemente Júlia era uma pessoa insuportável e só eu não sabia.
Fui a única pessoa a aparecer, e nunca fui bom em socializar. Resumindo: foi algo estranho pra caralho e eu só queria voltar pra casa. Honestamente, até consigo imaginar o que passava na cabeça de Júlia, então tentei ficar na festa fracassada, mesmo que contra minha própria natureza. Nunca fui uma pessoa com grande empatia, e muito menos sabia por que estava tentando ser, até porque no dia seguinte fui chamado ao RH da empresa, acusado por Júlia de ter bloqueado o e-mail que ela enviou para os funcionários, de forma que só eu o recebesse.

Eu realmente não fiz isso, e nem foi difícil provar. Só pedi para outros funcionários mostrarem que também receberam o e-mail. Mas, por algum motivo, isso não adiantou. Mesmo com outros funcionários falando e provando que também receberam o e-mail, fui demitido por justa causa. Honestamente, não sei o motivo, mas se eu fosse chutar, eles já queriam me demitir há muito tempo e só estavam esperando uma desculpa. Eu era a pessoa mais bem paga da fazVídeo, e provavelmente o real motivo foi esse.
Eu até pensei em entrar na justiça e buscar meus direitos, mas sou uma pessoa muito tranquila e resolvi que não valia a pena gastar tempo, dinheiro e sanidade me desgastando com aquilo.

Quando saí da fazVídeo, comecei a fazer coisas no mercado cinza do hacking. O mercado cinza de cibersegurança é tudo aquilo que não é crime, mas é considerado antiético. Coisas como escrever malwares para cibercriminosos, procurar falhas de segurança em plugins do WordPress e, ao invés de relatar, vender o exploit para quem quiser comprar, e coisas do tipo.
Vocês até podem me julgar, mas isso me faz aprender coisas sobre como o mundo funciona. Na verdade, é até bizarro o quanto eu era mais bem tratado por pessoas consideradas ruins e tratado como lixo por pessoas que estão do lado "ético" da sociedade.

Algum tempo depois, por falta de profissionais de TI no mercado — especificamente DevOps — recebi uma proposta de recontratação da fazVídeo, mas recusei na hora. Não que eu estivesse ganhando mais fora da empresa — na verdade, pelo contrário — eles me ofereceram mais do que o dobro do que eu ganhava fora da fazVídeo. Porém, não era pelo dinheiro. Na minha cabeça, não valia a pena passar por tudo novamente, principalmente porque haviam se passado 4 anos desde que saí de lá e, nesse tempo, os sistemas não tinham recebido o mínimo de manutenção e atualizações.
Resumindo: tudo estava vulnerável, funcionando terrivelmente e super desatualizado. Eu realmente não queria encarar aquilo e nem ter a chance de ser jogado no lixo novamente. Eu não sou uma boa pessoa e guardo muito rancor, sendo bem honesto. Então realmente não valia a pena pra mim. Se eu aceitasse, não dormiria à noite com arrependimento.

Alguns meses depois de ter recusado a proposta, recebi uma segunda proposta, com valores mais altos. Honestamente, pensei em aceitar. Todo mundo tem seu preço. Mas ainda assim fui forte e recusei. Sou uma pessoa simples e minimalista, e meu estilo de vida não requer que eu gaste tanto dinheiro.

Depois de mais um mês, recebi um processo sem fundamento algum. Eu basicamente estava sendo acusado de invadir o sistema deles. Por mais que eu pudesse, tendo em vista que o OPNsense deles não recebia atualização desde que saí de lá, eu não o fiz. Na verdade, até duvido que alguém tenha feito. Provavelmente isso só era alguma tentativa desesperada de me obrigar a voltar, ou o sistema estava lotado e com o funcionamento comprometido. Lutei na justiça com a certeza de que iria ganhar — ou pelo menos era o que eu pensava — até porque eu realmente era inocente e não tinha feito nada.

Mas as coisas só pioraram. Comecei a ser perseguido e até ameaçado pelos donos da fazVídeo. Recebi mensagens do tipo: "Sua vida está acabada", "Sua única chance de continuar é aceitando o acordo da empresa", e coisas desse tipo.

Anexo abaixo: escreva seu text aqui Porém, isso foi só o início. Na verdade, piora muito.
Depois de algumas audiências — nas quais eu realmente estava perdendo feio, mesmo sem provas ou nada do tipo — após a última audiência à qual compareci, cheguei em casa por volta do meio-dia e me deparei com tudo em chamas. Eu basicamente tinha perdido quase tudo.

Na minha cabeça passavam mil coisas: eu tinha deixado algo ligado? Foi um acidente? Depois de alguns minutos, peguei meu celular para ligar para um amigo — na verdade, meu único amigo — Alan, e me deparei com outra mensagem, a qual está anexada abaixo: escreva seu text aqui Depois de ler a mensagem, percebi que não havia muito o que eu pudesse fazer. Até a justiça estava contra mim. Mas uma raiva me percorreu, e mesmo tendo perdido quase tudo, eu não iria me render. Liguei para meu amigo Alan e expliquei, dando o contexto sobre tudo o que tinha acontecido.
Eu tinha perdido quase tudo. Na verdade, as únicas coisas que eu não perdi foram meu carro — que recentemente eu tinha acabado de restaurar e estava na garagem do Alan — e alguns bitcoins que estavam escondidos no carro em uma chapa de metal em código BIP39.

O carro era um Camaro Chevelle 70 SS, azul escuro quase preto, com uma listra branca em cima. Lindo, e o meu maior sonho de criança. Falei para o Alan que iria sumir por um tempo, que pegaria o carro, mas manteria contato com ele via comunicação IRC. E esperava que ele pudesse me ajudar, pois era a única pessoa em quem eu realmente confiava.

A primeira coisa que fiz após pegar o meu carro foi comprar um cartão pré-pago em um lugar que aceitava pagamentos em Bitcoin.
Não queria colocar a única pessoa que me era próxima em risco, então me recusei a ficar na casa do Alan. Com o cartão, peguei boa parte do valor e comprei um notebook básico, mas que serviria para rodar o tails Linux, e procurei um hotel barato para me hospedar.

Minha situação naquele momento era: eu estava com pouco dinheiro, em um hotel de péssima qualidade, sem poder confiar nem na polícia e sem saber qual deveria ser meu próximo passo. Uma informação que esqueci de mencionar é que minhas contas bancárias misteriosamente foram bloqueadas. Na verdade, eu só sabia de uma coisa: não iria deixar barato — mas nem sabia como poderia me vingar.

No mesmo dia, ao cair da noite, me dirigi a um boteco meia-boca para tentar conseguir internet, pois o hotel, de qualidade duvidosa, onde eu tinha me hospedado, nem sequer oferecia Wi-Fi. Depois que consegui conexão, a primeira coisa que fiz foi me conectar no servidor IRC e entrar em contato com Alan.

Sei que não deixei claro até agora o que Alan fazia, mas, resumindo: se eu estava no mercado cinza do hacking, Alan estava na parte mais negra. Ele era o típico "chapéu preto" da internet. Se envolvia com tudo de errado, mas tinha um conhecimento absurdo sobre tudo — talvez até mais do que eu poderia imaginar ter em vida. Alan realmente era uma lenda. Uma vez vi ele invadir o sistema de segurança de um aeroporto inteiro usando apenas um roteador velho rodando um sistema chamado OpenWRT.

Eu me sentia até privilegiado de tê-lo do meu "lado". Entrei em contato com Alan tentando conseguir um norte, mas a verdade é que eu estava em uma situação tão delicada que nem ele sabia como me ajudar. Depois de algumas horas, voltei para o hotel, mesmo frustrado, para tentar dormir. Mas não dormi nada aquela noite. Sempre fui o tipo de pessoa que, quando está com um problema, fica acordado até encontrar uma solução.

Depois de uma noite virada, me deparei com uma nova mensagem no celular, vinda do mesmo número de antes. Lembro de ter me assustado só com a notificação. Eu estava tão nervoso que nem sequer lembrava que ainda estava com meu celular. A mensagem que recebi veio como um soco nas costelas: era uma foto da sacada do hotel onde eu estava hospedado, junto de um texto que dizia:
"Eu pensei que você se esconderia em um lugar melhor, Zander."
Imagem anexada abaixo: escreva seu text aqui Me perguntei como caralhos eles sabiam onde eu estava, até que me veio à mente que meu celular era a única opção viável. Pensei nisso naquele momento porque fazia sentido: as audiências não podiam ser gravadas, então tive que deixar meu celular na recepção todas as vezes em que compareci.

Só me restavam duas opções: limpar o celular e regravar o sistema operacional do zero — na época eu usava o GrapheneOS — ou simplesmente jogar o celular pela janela. Como estava sem tempo, escolhi o que era mais simples no momento: joguei o celular pela janela e fui embora o mais rápido possível.

Eram aproximadamente 5h30 da manhã e eu agora estava no meu carro, dirigindo para algum lugar aleatório e tentando conseguir internet para falar com Alan. Quando finalmente consegui conexão, abri meu cliente IRC para tentar falar com ele novamente, mas não foi possível. Por conta do horário, era óbvio que ele estava dormindo.

Não sei se vocês estão familiarizados com o protocolo de comunicação IRC, mas no mundo hacker ele é muito usado por alguns motivos — o principal deles é que nada fica salvo. Resumindo: você só consegue falar com quem está online no momento. Não existe histórico de mensagens nem nada do tipo. O máximo que o servidor registra são suas credenciais de autenticação. Por segurança, dessa vez, não me conectei a uma internet pública — isso por pura paranoia — mas como eu estava usando a rede I2P, não havia real risco de segurança em estar numa rede pública.

Fiquei por horas no carro esperando conseguir contato com Alan, mas esse contato não aconteceu. Acabei pegando no sono dentro do carro e só acordei novamente por volta das 15h20 da tarde, meio desnorteado e todo suado com o calor de ter dormido dentro de um carro. Provavelmente eu estava fedendo pra caralho. Já estava quase sem dinheiro — tudo o que me restava no cartão pré-pago eram R$ 32, que basicamente não serviam pra nada.
Então, precisava logo arrumar uma forma de conseguir dinheiro, ou pelo menos um lugar para tomar banho — de preferência, dinheiro em espécie, pois eu nem acesso às minhas contas bancárias tinha.

Depois de algumas horas, tive uma ideia meio estúpida, mas que talvez pudesse funcionar. Escrevi um código porco em JavaScript para rodar em um arquivo HTML. Não passei muito tempo programando, mas depois de uma hora estava pronto: um sistema de apostas em cavalos genérico que funcionava da seguinte forma — alguns cavalos de cores específicas iriam correr em uma linha, o que ganhasse levava o dinheiro, e se caísse no preto, a casa (no caso, eu) ganhava.
Era algo simples, mas que não tinha como eu perder.
Um segredo que ninguém conta sobre sistemas de apostas: o dono do software nunca perde.

Fui até um boteco aleatório e convenci alguns bêbados a apostar. Fiquei nisso por um tempo, contando com a sorte. Por mais que não houvesse como eu perder, ainda assim existia a possibilidade de eu não ganhar nada. Algumas dezenas de apostas depois, eu tinha acumulado aproximadamente R$ 250. Foi até mais fácil do que eu esperava. Os bêbados que ganhavam ficavam confiantes com suas sortes e acabavam perdendo tudo. Fiz isso até ser expulso do bar, mas honestamente, não era o suficiente.
Com aquele valor eu não conseguiria nem me hospedar por uma noite em outro hotel, e se quisesse comer talvez nem roupas novas.

Nesse momento, me arrependi até de ter jogado meu celular fora. Era quase de noite, e eu estava com um notebook quase descarregado, não tinha comido nada e estava fedendo. Me questionei por horas o porquê de estar naquela situação, quase querendo desistir da vida. Eu não via futuro e nem sabia o que esperar da fazVídeo. Eles estavam tentando me causar medo? Me torturar psicologicamente para depois me matar? Nada fazia sentido naquele momento.
Eu não tinha para quem ligar, com quem falar, nem nada do tipo.

Na minha mente, só me ocorria que eu não duraria nem mais uma semana daquela forma. Não sei como explicar o sentimento. Acho que só passando por isso para entender.
Senti vontade de chorar e gastei o dinheiro que me restava comprando algumas roupas e algo para comer no shopping. Afinal, era o máximo que eu podia fazer naquele momento.
Pensei no shopping porque lá teria uma chance melhor de encontrar uma tomada para carregar meu notebook e tentar conseguir mais dinheiro na madrugada ou no dia seguinte.
Segui esse plano, e felizmente deu certo.
Depois de comer e comprar roupas novas, tentei encontrar um lugar para tomar banho e me vestir de forma mais apresentável.

Nunca fui muito bom em âmbitos sociais, mas li as obras do Kevin Mitnick, um dos maiores gênios da engenharia social — basicamente a arte de hackear humanos — então sabia que, estando limpo e mais bem vestido, teria mais chances de passar uma "credibilidade" para as pessoas.

Depois de algum tempo dirigindo, parei em um posto de gasolina que tinha banheiro com chuveiro e consegui tomar um banho. Esse banho, no geral, me custou R$ 10, e eu também consegui roubar um pouco de gasolina enquanto ninguém estava olhando.

Quando começou a ficar mais tarde voltei para a estrategia de fazer bêbados perderem tudo apostando, fiz isso em vérios bares, sempre que era expulso de um já dirigia ate outro, fiz isso ate amanhecer e dessa vez consegui uma continua reusavelmente melhor, 500 reais em uma noite era bastante, acho que so conseguiria uma quantidade parecida assim fazendo algo a noite se eu fosse uma garota de programa ou algo do tipo, porem ainda sim os riscos no meu caso eram menores, nesse momento eu ja não estava me sentindo arrependido de não ter desistido de tudo e pulado de uma ponte, claro ainda não sabia muito oque fazer e me questionava se valeria epena só sumir e recomeçar uma nova vida em outro lugar com documentos falsos, ate porque mesmo se eu conseguisse me vingar minha vida não seria a mesma coisa e eu teria que recomeçar do zero em outro lugar e com uma nova identidade, no nascer do sol eu ainda não havia dormido nada, porem estava com tanta ansiedade que o sono nem me ocorria. Ao nascer do sol, finalmente consegui falar com Alan via IRC.
Perguntei se ele havia pensado em algo e Alan respondeu que finalmente tinha uma possível solução — mas que precisaria falar comigo pessoalmente.
Em seguida, mandou eu esperar onde estava, pois chegaria em 2 horas.
Eu concordei, mas questionei por alguns instantes:
por que ele não poderia simplesmente me contar pelo IRC?
Até que então, percebi algo errado em tudo isso...

Como o Alan sabia onde eu estava? Eu me conectei para falar com ele usando o socket do Tor, e o notebook que eu estava usando era praticamente novo. Não havia como ele saber minha localização — a não ser que tivesse colocado um rastreador GPS no meu carro. Mas por que ele faria isso? Eu não fazia ideia.

Para ter certeza, saí do carro e comecei a procurar. Fiquei em choque quando realmente encontrei o dispositivo.

O rastreador era algo totalmente improvisado: um Raspberry Pi Zero com uma placa GSM genérica soldada, junto a um chip SIM de operadora para acesso à internet. A placa GSM era um módulo GPRS SIM800L, desses que você compra no Mercado Livre ou em lojas de eletrônica. Tudo estava conectado a uma pequena bateria, que era recarregada quando o carro estava em movimento.

Desliguei o rastreador e abri o notebook. Eu, naquele momento, não sabia exatamente o que estava fazendo, mas segui o instinto. Entrei em contato com o Alan novamente e mandei um blefe.

escreva seu text aqui Sendo bem honesto, nem sei como aquilo funcionou — mas também não queria arriscar ficar ali só para descobrir se ele tinha acreditado mesmo. Saí do local o mais rápido que pude.

Dirigi por horas, tentando entender por que tudo aquilo estava acontecendo.
A estrada parecia infinita à minha frente, enquanto uma náusea tomava conta do meu corpo. Naquele momento, eu sentia a pior dor da minha vida — não apenas emocional, mas também física. Era como se algo no meu peito tentasse me rasgar de dentro para fora. Havia também um peso na garganta, como se uma pedra estivesse presa ali, impossibilitando qualquer palavra ou suspiro.

Durante horas me perguntei o motivo de tanta traição. Por quê? O que o levaria a fazer aquilo? Meu ex-amigo — alguém que durante anos vi como um irmão mais velho — agora queria me destruir de forma cruel e pessoal. E o pior de tudo: eu nem sabia o motivo. Ou talvez... nem existisse um.

Eventualmente, depois de tanto tempo na estrada, parei em uma cidade que eu nem saberia apontar no mapa. E então, tive uma constatação paranoica: Alan ainda podia me encontrar. Talvez fosse melhor eu estar preparado.
No som do carro, tocava Another Brick in the Wall, do Pink Floyd, enquanto eu arquitetava um plano para me defender — ou, pelo menos, para não ser encontrado por Alan ou pela fazVideo, que naquele momento eu já não sabia se era apenas uma fachada criada por ele. Não duvidava dessa possibilidade. Eu sabia do poder que ele tinha no submundo hacker.

As hipóteses que passavam pela minha cabeça eram duas. A primeira: a fazVideo era controlada por alguma organização hacker da qual Alan fazia parte. A segunda: os donos da empresa estavam sendo chantageados por alguém — ou alguma entidade — muito maior. Não dava para saber. Talvez fosse algo tão grande que eu jamais conseguiria compreender, nem o motivo de todo esse foco em mim.

Decidi que precisava de uma arma, mesmo que de forma ilegal. Preferencialmente algo pequeno, como um revólver 38 RT856 ou até menor. Algo que pudesse passar despercebido, discreto o suficiente para garantir um elemento surpresa, caso necessário. Isso me daria, se não segurança, ao menos uma chance.

O problema é que eu não consegui resolver essa parte.
Sim — eu sei que não é o esperado, mas isso não é apenas uma historinha de internet em que tudo dá certo para o protagonista. Isso é a minha vida. E eu estava completamente ferrado naquele momento.
Depois de um tempo tentando entender como conseguiria a arma, percebi que já era tarde demais. Acabei dormindo dentro do carro. Quando amanheceu, fui até uma loja de pesca e comprei uma faca. Era o melhor que eu podia fazer.

Não sei de onde você está lendo meu relato, mas no Brasil a caça não é algo comum — então o melhor lugar para comprar uma faca tática é, de fato, uma loja de pesca.

Passei o dia usando a mesma prática de antes para conseguir dinheiro e, felizmente, por sorte, aquele dia era feriado. Isso fez tudo dar mais certo do que o normal.
Acabei conseguindo o suficiente para não precisar passar outra noite dentro daquele carro — ou era o que eu esperava. Honestamente, o carro já estava fedendo depois de tanto tempo trancado e com o calor dentro dele. Bancos de couro são lindos e perfeitos... mas só até você começar a suar neles por dias seguidos.

Mesmo tendo dinheiro suficiente para um hotel decente, optei por ficar no lugar mais barato que consegui encontrar. Eu não sabia até quando conseguiria me sustentar daquela forma, então era melhor me prevenir. Tudo que eu queria naquele momento era sumir do mapa.
Minha esperança era conseguir documentos falsos e começar do zero — fugir para outro lugar, se necessário.

Quanto aos documentos, eu já tinha um plano... e um contato. Alguém que já tinha me ajudado com isso antes, em alguns serviços que fiz para outras pessoas.
Se você quiser me julgar, fique à vontade — nunca disse que era um santo. Na verdade, o contrário. Sempre deixei claro que já fiz coisas antiéticas na vida. E, sinceramente? Não me arrependo.
Do jeito que vejo, documentos são apenas uma forma do governo te controlar. Usar a arma deles contra eles mesmos chega a ser satisfatório. De um jeito que nem sei explicar.

Fiquei no hotel e, por não ter documentos, paguei tudo adiantado. Quando a noite caiu, deixei meu notebook carregando enquanto assistia qualquer porcaria na TV. Acho que estava passando algo como Chaves ou Todo Mundo Odeia o Chris — não lembro exatamente. Mesmo sendo um hotel barato, aquilo estava perfeito para mim. Era melhor que a poltrona traseira de um carro.
Não sei se já comentei isso, mas tenho 1,89 de altura. Então não sou exatamente do tamanho ideal para dormir num lugar apertado. Não me leve a mal, eu amo aquele carro — e ele era a única coisa boa que me restava. Tanto que, naquele mesmo dia, fiz questão de comprar produtos de limpeza e dar um trato no interior. Ficou ótimo, até coloquei um aromatizante de limão.

Voltando ao assunto: quando acabou o que eu estava assistindo, começou a passar um jornal — não lembro exatamente qual era — mas aquilo me destruiu.
A notícia era sobre mim.
Diziam que eu estava foragido, que era perigoso. Tinham até colocado uma recompensa por informações que levassem até mim.

Peguei minha mochila e comecei a encher com tudo que consegui tirar do frigobar do quarto. Joguei as garrafas e os pacotes no espaço que restava, desconectei o carregador do notebook e, quando fui abrir a porta para sair, escutei uma batida seca, seguida de um grito:

— Polícia! Abre essa porta e saia com as mãos para cima!

Quando ouvi aquilo, percebi que já não tinha muito tempo para reagir. Usei a primeira ideia que me veio à mente para sair da situação em que me encontrava: peguei o colchão da cama e joguei pela janela. Minha ideia era pular em cima dele para amenizar o impacto da queda. Embora eu genuinamente não recomende que você faça isso.

Por mais que eu estivesse apenas no primeiro andar, ainda eram aproximadamente cinco metros de queda sendo amortecidos por apenas um colchão.

Mesmo assim, pulei.

E não vou mentir: a queda doeu pra caralho. Não sei nem como consegui me levantar logo em seguida para correr até meu carro. Talvez por toda a adrenalina do momento ou apenas por eu ainda ter forças para continuar. Também não sei o motivo de a polícia não estar me cercando. Provavelmente era só sorte por eu estar em uma cidade pequena o suficiente para nada de tão interessante acontecer normalmente.

Corri até meu carro ainda me recuperando do impacto e comecei a acelerar. Lembro de estar com os nervos à flor da pele, questionando como tudo aquilo tinha escalado para aquele nível. E, por algum motivo que até hoje não sei qual era, a polícia não estava me perseguindo. Aquilo era, no mínimo, estranho. Parecia que eles nem estavam tentando me alcançar.

Depois de um tempo dirigindo para longe, quando eu já estava um pouco mais calmo, percebi algo diferente dentro do carro.

A trava do porta-luvas estava destrancada.

E eu tinha absoluta certeza de que não havia deixado aquilo daquela forma.

Abri o porta-luvas e me deparei com uma carta escrita às pressas junto de um pendrive velho.
Na carta, só estava escrito: Você não é o único. Olha esse pendrive.

Lembro exatamente de como estava escrito porque usei a câmera do notebook para tirar uma foto — usei porque não tinha um celular no momento, então a qualidade da câmera não é muito boa, mas ainda assim ficou legível.

escreva seu text aqui

Estava receoso de olhar o conteúdo do pendrive. Aquilo podia facilmente conter algo malicioso e eu honestamente não queria pagar para ver — pelo menos não no meu notebook.

Então resolvi ir até um cyber café para verificar o conteúdo primeiro. Muito mais pelo medo de ignorar algo importante do que qualquer outra coisa.

Ao abrir o pendrive percebi que ele realmente era inofensivo, mas continha algumas coisas. Como não havia nada malicioso, resolvi conectar no meu notebook mesmo, dentro do pendrive havia uma chave PGP pública, um arquivo chamado leia.me e uma pasta de mídias.

Basicamente, essa era a árvore de arquivos: escreva seu text aqui

Dentro do arquivo leia.me havia a seguinte mensagem:

Olá, Zander, por hora vou me apresentar como Li.
Se você está lendo isso, provavelmente não está fazendo do seu notebook. Você é paranoico demais para isso.

Eu venho te observando há algum tempo, mas não se preocupe: estou na mesma situação que você, só que há mais tempo.

Aposto que, nesse momento, você está se perguntando sobre algumas coisas.

Como eu cheguei até você.
O porquê de Alan estar fazendo isso.
E provavelmente outras mil coisas.

Vai por mim, eu sei exatamente como é.
Mas quero deixar claro uma coisa: não existe motivo.
Alan é louco e não existe explicação para aquele lixo fazer o que faz.
Ele simplesmente gosta de brincar e destruir a cabeça das suas vítimas.

Nós não fomos as únicas vítimas dele. Fomos apenas os que sobraram.

Bom, primeiramente: eu cheguei até você porque invadi o sistema do Alan.
A forma como fiz isso não é segredo. Eu apenas paguei uma garota de programa para conectar um Digispark na máquina dele.

Você também sabe que isso não explica como sei onde você está, já que removeu o rastreador que Alan colocou no seu carro.
Fico feliz que tenha descoberto aquilo e feito ele parar de te rastrear, mas eu também coloquei um rastreador no seu carro.

Você não encontrou porque esse está ligado em uma bateria própria e preso próximo ao painel traseiro esquerdo do carro.
Ele vai descarregar eventualmente, porque essa foi a única forma que encontrei de não deixar fácil de achar.

Desculpa por não ter entrado em contato antes. Acredite, eu queria muito, mas estava com medo.

Não sei se você confia em mim ou se acha que isso tudo é uma armadilha, mas gostaria de me encontrar com você para conversar.

Eu preferiria que fosse pessoalmente, mas, caso não queira, deixei uma chave PGP para você me contatar.
Me mande a sua **tambem** para que possamos falar.

Use o email: [censurado]

Se quiser me dar um voto de confiança — e eu realmente peço que sim — me encontre no Bar Do Português, às 17:30 de sexta-feira.

Ele fica em uma cidadezinha chamada [censurado], na Rua [censurado] - [censurado]

Peço que confie em mim. Você é minha única esperança.
A propósito: estou com seu celular. Juro que tentei consertar, mas acho que não vai ter jeito.

A pasta “mídias” contém algumas coisas que provam o que estou falando.

também tenho uma screenshot disso. escreva seu text aqui Os dados daquele pendrive também estavam modificados de forma que sua data de criação e seus metadados eram falsos ou inexistentes: escreva seu text aqui

Aqueles três arquivos realmente pareciam provas do texto, comecei abrindo a imagem: seu celular.jpg e me lembro de sentir um nó no estômago e uma vontade absurda de vomitar.

Isso provava que Li poderia muito facilmente me ferrar se quisesse, mas também era a primeira coisa, em dias, que me fazia acreditar que nem tudo ali era mentira. escreva seu text aqui O segundo arquivo que abri foi o foda-se Alan.jpeg, ao abrir essa imagem em específico voltei a ter esperanças de que tinha alguma chance, minha mente no momento queria muito acreditar que eu não estava sozinho e que eu conseguiria dar a volta por cima, mas ao mesmo tempo eu não conseguia confiar cegamente em Li, afinal de contas ele poderia simplesmente ser o Alan tentando destruir mais ainda minha cabeça.

Eu honestamente, depois de tudo que aconteceu, não tenho dúvidas que ele iria longe só para isso.
escreva seu text aqui O terceiro arquivo se chamava documentos que roubei do Alan.mp4 e o nome era tão autoexplicativo que me fez hesitar por alguns segundos antes de criar coragem para abrir.

Eu honestamente não sabia dizer se aquilo era real, até porque o arquivo era só um script Python que facilmente poderia estar gerando textos com uma animação bonitinha.

documentos que roubei do Alan.mp4

Mesmo com toda a desconfiança em relação à Li, resolvi que deveria dar uma resposta.
Não porque acreditava, mas porque, sendo verdade ou mentira, aquilo ainda era minha única chance de revidar.

Sei que, olhando de fora, parece uma decisão burra, mas, naquela situação, eu não tinha exatamente muitas opções.

Se Li estivesse falando a verdade, então eu finalmente tinha um aliado.

E, se tudo aquilo fosse mentira, então eu ainda tinha alguma forma de chegar até Alan — ou pelo menos até alguém ligado a ele.

Claro, eu também sabia que dificilmente seria fácil.
Quem quer que estivesse por trás daquilo claramente entendia de engenharia social melhor do que eu gostaria de admitir.

Me levantei para ir embora do cyber café. Eu suava frio e sentia a constante sensação de que alguém estava me observando.

Minhas mãos tremiam levemente enquanto eu guardava o pendrive no bolso da mochila. Tive a impressão de que todos estavam olhando para mim. Saí rápido demais de lá.

Minha percepção de tempo já estava completamente ferrada naquele ponto. Senti como se tivesse passado horas analisando os arquivos do pendrive, mas tenho certeza de que não se passaram nem dez minutos.

Voltei para o carro e fiquei sentado por alguns minutos, tentando pensar em como deveria responder Li. A verdade é que eu não sabia se aquilo era uma boa ideia.

Passei quase uma hora encarando a tela do notebook antes de decidir que seria direto. Sem joguinhos, naquele momento eu já estava cansado demais para isso. Criei um Proton Mail descartável só para aquele contato e gerei uma nova chave PGP temporária.

O funcionamento daquilo era simples: eu escrevia o que queria em um arquivo .txt, criptografava usando a chave pública que veio no pendrive e enviava junto da minha própria chave pública para resposta.

Nada sofisticado. Só o suficiente para dificultar que alguém interceptasse a conversa sem ter trabalho, sei que o quão inaproveitável isso era, mas de verdade eu não queria arriscar.

Comecei a escrever o arquivo que iria enviar. Meu plano era escolher eu mesmo o local do encontro, garantindo que não existisse a possibilidade de algo já estar preparado contra mim com antecedência.

Eu pretendia manter a cidade que Li havia sugerido, porém só revelaria o local exato uma hora antes do horário combinado.

Segue abaixo o que escrevi no e-mail:

-----BEGIN PGP SIGNED MESSAGE-----
Hash: SHA512

Eu não confio em você.

Mas também não tenho muito para onde correr. Você é minha única opção agora, então, querendo ou não, vou ter que te dar um voto de confiança.

Só que não vai ser do seu jeito.

Eu aceito falar com você pessoalmente, mas eu escolho o lugar. Vai ser na mesma cidade que você citou no arquivo, porém não no local que você sugeriu.

Também só vou te mandar o endereço uma hora antes do encontro.

Se você estiver falando a verdade, acredito que vai entender o motivo disso e concordar.

Amanhã às nove eu envio o local, mas espero uma resposta sua antes.

Como você já deve ter visto, deixei minha chave pública junto deste arquivo para continuarmos a comunicação.

-----BEGIN PGP SIGNATURE-----

iQIzBAEBCgAdFiEEVgl97jp2OmDoIcxsQ8ORPutnrJIFAmoX5yoACgkQQ8ORPutn
rJIKtA//cIEMHJnAB6caPgzkM3e36VHxwI34QvDIgaqhtpJJNRMkFyhAH5COXFs1
Btgr2/auQYfC/Cw+g4isoGGhSix+YxGR1yY0OBgVoZrbpLrsxLEv/xX5SJLziQpF
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Depois de enviar o e-mail, minha mente ficou maquinando se aquilo realmente era uma boa ideia. Eu realmente deveria encontrar uma pessoa estranha?

Eu não sabia exatamente o que esperar. Talvez uma resposta longa, tentando me convencer a mudar o plano. Talvez uma negação direta, ou até uma tentativa de negociar alguma outra forma mais conveniente para si.

Porém, a resposta veio mais rápido do que eu esperava.

Direta ao ponto. Seca. Sem explicação, sem contexto, sem nada além do essencial. Eu abri e era apenas um arquivo gpg criptografado.

Descriptografando, havia apenas uma linha:

Ok, eu aceito seus termos.

Depois de ler isso, o sentimento não foi de alívio. Na verdade, eu me senti travado. Eu estava esperando tudo, menos aquilo. Para mim, aquilo não parecia uma reação normal de uma pessoa. Fiquei alguns segundos quieto. Sabe aquele tipo de sensação que você só percebe depois, quando já passou?

Para mim, não parecia só uma confirmação simples. Agora era como se eu já estivesse dentro de um processo ao qual eu concordei e do qual não dava mais pra voltar atrás, apenas seguir em frente.

O problema não era a resposta, mas sim o que não havia nela.
Não havia tentativa de mudar horário, nem contra-proposta, nem dúvida ou curiosidade sobre os termos ou o local.

Simplesmente não tinha nenhum detalhe que uma pessoa normal teria. Nenhuma reação. Só algo direto ao ponto, de certa forma até cansado. Não sei exatamente como explicar isso.

Foi aí que a ficha começou a cair de forma lenta. Quase irritante.
Porque, na prática, aquilo não parecia uma resposta.
Parecia continuidade.
Como se a decisão já tivesse sido tomada antes mesmo de eu enviar o e-mail. Talvez eu só estivesse pensando demais. Hoje em dia eu acredito que realmente era isso.

Não tenho vergonha de dizer, eu estava morrendo de medo. Me sentia como se estivesse em uma queda constante, sempre próximo da morte. Talvez esse seja o sentimento que alguém tem segundos depois de se arrepender de ter pulado de uma ponte, ou simplesmente impotência.

O pior de tudo é que eu só tinha 24 horas para me preparar. Sei que parece bastante, mas quando você não confia em alguém e acredita que essa pessoa pode estar planejando te matar, esse tempo se torna quase nada.

Durante o resto do dia, eu simplesmente não conseguia parar de pensar em formas de escapar caso precisasse. Comecei a imaginar mil lugares onde aquele encontro poderia acontecer e em como minimizar os riscos.

Naquele momento, eu já sabia que precisaria dormir bem naquela noite para estar com a cabeça no lugar no dia seguinte e conseguir pensar direito, mas também tinha total certeza de que não conseguiria descansar.

Não consigo expressar aqueles sentimentos em palavras. Para mim, aquilo era um ultimato. Ou eu ganhava alguém para me aliar, ou Alan me derrotaria simplesmente confiando no meu próprio desespero.

O mais irritante era que eu queria acreditar que Li realmente estava tentando me ajudar.

Depois de tudo o que tinha acontecido, a ideia egoísta de não estar sozinho era quase reconfortante.

Mas era justamente isso que me deixava desconfiado. Não parecia possível. Parecia absurdo que alguém fosse capaz de dedicar tanto tempo apenas para destruir a cabeça de outras pessoas.

No dia seguinte, eu não tinha pregado os olhos e estava extremamente exausto, mas já tinha planejado tudo.

O local seria uma rodoviária. Escolhi esse lugar porque, mesmo muito cedo, sempre tem pessoas indo e vindo. Além disso, eu conseguiria manter distância antes de me aproximar.

Só me aproximaria quando tivesse certeza de que daria certo. E, se algo parecesse errado, eu simplesmente iria embora. Não pretendia dar uma segunda chance para o meu azar.

Finalmente enviei o e-mail para Li, informando o local do encontro e onde eu supostamente estaria esperando.

Menti sobre minha posição.

Depois de tudo o que tinha acontecido, não fazia sentido entregar minha localização de graça. Se algo desse errado, eu queria ser a pessoa observando, não a observada.

Li me respondeu quase imediatamente.

Nem se deu ao trabalho de criptografar a mensagem em um arquivo dessa vez. A resposta veio direto no corpo do e-mail, o que me fez pensar que talvez ele estivesse acompanhando a caixa de entrada a noite inteira, tão ansioso quanto eu.

A mensagem era curta: estou perto, não vou demorar. De uma forma estranha, aquilo me fez confiar um pouco mais em Li.

Pela primeira vez, ele não parecia alguém tentando me convencer de nada ou esconder alguma coisa. Parecia apenas uma pessoa tão desesperada quanto eu.

Talvez eu estivesse projetando meus próprios sentimentos nele. Mas, naquele momento, tive a impressão de que eu era a única esperança dele também.

Comecei a esperar observando de longe, mas logo percebi um problema óbvio: eu não fazia ideia de como Li era. Ele nunca tinha me dado uma descrição. Absolutamente nada que me ajudasse a identificá-lo.

Então comecei a me apegar a estereótipos. Provavelmente era alguém parecido comigo. Um cara cheio de olheiras, vestindo um moletom velho e surrado, com aparência de quem não dorme direito.

Talvez também estivesse olhando para os lados o tempo inteiro, desconfiado de tudo e de todos.

Não sei se isso parece estúpido, mas era a única referência que eu tinha. Então fiquei observando as pessoas que passavam pela rodoviária e, procurando alguém que parecesse tão ferrado quanto eu.

Em algum momento, depois de vários minutos que pareciam horas, uma garota sentou-se no local onde eu tinha marcado com Li.

Ela era pálida, tinha olhos verdes e aparentava estar muito cansada. Imaginei que talvez tivesse precisado fazer alguma viagem de última hora, visitar a família ou estivesse passando por alguma tragédia na vida.

Por um instante, me senti um idiota. Qualquer pessoa poderia simplesmente sentar exatamente naquele lugar. Eu não tinha como saber se era Li ou não.

Mesmo assim, continuei observando. Foi então que ela tirou da mochila um notebook velho e surrado. Na mesma hora, senti como se tivesse levado um tiro no peito. Eu reconhecia aquele notebook. Era o mesmo que aparecia no vídeo dentro do pendrive. Só então percebi que ela era Li.

Agora escrevo com toda a sinceridade do mundo: perceber que Li não era um homem, mas uma mulher, me fez desconfiar muito mais.

Não sei como isso soa para vocês, mas, naquele momento, aquilo parecia exatamente o tipo de truque que Alan usaria.

Ninguém desconfia de uma garota com aparência indefesa. É quase instintivo para a maioria dos homens baixar a guarda perto de uma mulher que aparenta precisar de ajuda. Eu sabia disso. Alan também saberia.

Por causa disso, toda a minha vontade de me aproximar desapareceu. Não porque eu achasse que seria morto em uma rodoviária suja. Mas porque me senti manipulado. Parecia conveniente demais. Um rosto bonito e, no fundo do poço, tão ferrada quanto eu.

Depois de tudo o que tinha acontecido, aquilo me parecia mais suspeito do que encontrar um nerd estranho me esperando.

Comecei a pensar em ir embora, mas ao mesmo tempo questionava a possibilidade de aquilo não ser mentira.

Fiquei observando a garota. Queria ver se ela dava algum sinal de algo. Para falar a verdade, eu nem sabia que sinal estava esperando, mas continuei olhando.

Quanto mais tempo eu observava, mais vontade tinha de virar as costas e ir embora. Ao mesmo tempo, continuava me forçando a esperar, simplesmente porque queria que fosse verdade.

Meu psicológico estava completamente ferrado e eu queria muito não estar sozinho. Eu sei como isso soa visto de fora e é horrível, mas só passando por algo parecido para entender como me sentia.

Fiquei aguardando, mas nada realmente acontecia e também percebi que ela parecia cada vez mais ansiosa.

Olhava para a entrada da rodoviária, depois para o notebook e então voltava a olhar para a entrada novamente.

Li parecia alguém esperando uma notícia ruim ou simplesmente alguém prestes a ser abandonada.

Foi nesse momento que algo me chamou atenção, ela não parecia estar procurando por mim, mas sim torcendo para que eu aparecesse.

É claro que aquilo não provava absolutamente nada para mim.

Ela podia ser apenas uma boa atriz. Podia até ter percebido que eu estava observando e simplesmente estar encenando tudo aquilo para me convencer.

Ainda podia ser uma armadilha. Eu tenho certeza de que Alan era muito mais inteligente do que eu. Admitir isso me dava raiva.

Porém, não dá para negar a realidade: eu estava caindo feito um patinho no jogo dele, caso tudo aquilo realmente fosse alguma ideia daquele miserável.

Mas, se eu continuasse ali parado, analisando cada detalhe e imaginando mil possibilidades diferentes, nunca teria uma resposta. E eu já começava a ter medo da possibilidade de Li simplesmente levantar e ir embora em algum momento.

Eu precisava tomar uma decisão antes que fosse tarde. Então decidi parar de pensar e escolhi falar com ela. Peguei minha mochila e comecei a caminhar em sua direção.

Cada passo parecia errado. Parte de mim queria voltar, mas outra queria desesperadamente acreditar que aquilo tudo não era uma mentira criada por Alan.

Continuei andando até ela. Li ainda não tinha me notado. Quando finalmente cheguei perto o suficiente para desistir, não desisti. Apenas puxei a cadeira vazia à sua frente e me sentei.

Acho que ela demorou alguns segundos para perceber que eu estava ali.

Quando finalmente tirou os olhos da tela do notebook e olhou para mim, pareceu confusa por um instante.

Depois disso, apenas me encarou.

Nenhum dos dois falou nada imediatamente. Depois dos e-mails, dos arquivos no pendrive e de toda a paranoia, eu simplesmente não sabia o que dizer.

Na verdade, eu nem sabia se deveria ser o primeiro a falar. Me senti ridículo e completamente perdido.

E, olhando para a expressão dela, acho que Li estava se sentindo exatamente da mesma forma.

A garota foi a primeira a quebrar o silêncio. Não lembro exatamente como foi nosso diálogo, mas foi algo mais ou menos assim:

— Zander?

Assenti com a cabeça. Ela pareceu aliviada.

— Eu me chamo Liz. Sei que provavelmente não era o que você estava esperando.

Ela fez uma pausa, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.

— Olha... obrigada por ter vindo. Eu tenho muita coisa para te mostrar.

Por um instante, desviou o olhar para a tela do notebook antes de voltar a me encarar.

— E, para ser sincera, fico feliz por finalmente não estar mais sozinha.

Em seguida, Liz virou o notebook na minha direção.

Havia uma mistura estranha em seu rosto. Parecia um pouco de felicidade, cansaço e adrenalina, tudo ao mesmo tempo. Eu não saberia explicar exatamente.

Ela apenas apontou para a tela, esperando que eu olhasse.

Naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, eu tive a sensação de que talvez eu realmente não estivesse sozinho.

Continua...