Entre mundos parte 1

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ATENÇÃO: História longa! Tempo médio de narração da história completa: 1h.

Capítulo 0:

— Os batimentos estão ficando fracos!

— Rápido!

— Estamos perdendo ela!

A cada segundo, as vozes ficavam mais fracas e distantes.

Senti alguém apertando minha mão com força, em uma súplica silenciosa para que eu não fosse embora. Mas aquele toque se transformou em uma simples sensação de dormência.

E depois…

Sumiu.

Tudo sumiu.

As vozes, a mão sobre a minha, as sirenes… toda aquela agitação.

E eu me vi em um lugar tão silencioso, tão vazio…

Nunca me senti tão em paz.

Meu corpo mergulhava naquela escuridão, caindo naquele abismo, naquele espaço oco, no vazio da inexistência.

Então… nada.

Simplesmente nada.

Capítulo 1:

Meus olhos se abriram de súbito.

Demorei para olhar ao redor. Antes, tentei me lembrar do que havia acontecido comigo, por que minha cabeça latejava tanto e por que eu me sentia tão tonta.

A única coisa de que eu consegui me lembrar com muita dificuldade foi meu nome… Cecília.

Depois, me permiti olhar ao redor e fiquei ainda mais confusa.

Eu esperava ver um quarto de hospital ou coisa do tipo, mas, ao invés disso, eu estava parada no meio de uma rua deserta, em frente a uma grandiosa casa verde de dois andares.

Era noite, uma daquelas noites escuras como um abismo sem fim e, para piorar, uma forte tempestade caía.

Eu estava encharcada e totalmente atordoada, então decidi buscar ajuda.

Avancei cambaleante em direção ao portão de grade marrom da casa e por sorte o mesmo se abriu, produzindo um ruído metálico.

Subi a rampa da garagem ainda sentindo as gotas de chuva tocando minha pele e finalmente alcancei as escadas.

Agora com um teto sobre a minha cabeça, o som da tempestade parecia bem menos violento.

Suspirei, apoiando minhas costas na parede e fechei meus olhos.

A água pingava pausadamente do meu corpo e o frio começava a tomar conta de mim.

Abri os olhos e olhei para o breu da escada. Eu precisava de ajuda. Então, comecei a subir.

Logo cheguei em uma varanda onde era possível avistar a rua.

Tudo estava vazio, escuro e silencioso — se não fosse pelo som da chuva.

Me aproximei da porta da casa e notei que a mesma estava entreaberta.

— O-olá? — falei, estranhando minha própria voz. — Tem alguém aí? Sem resposta.

Me aproximei e vi parcialmente o interior da casa, que estava iluminado fracamente pela luz que vinha do lado de fora.

Empurrei a porta quase de modo automático e entrei.

Eu estava em uma lavanderia. Não era possível visualizar os móveis com tanta clareza, mas havia uma enorme janela de vidro na lateral, por onde eu podia ver a cidade sendo banhada por aquele temporal. Estranhei, pois não havia tanta luz na cidade.

Caminhei em direção ao próximo cômodo, meus olhos ainda fixos na paisagem.

Passei pela cozinha, os raios periodicamente iluminando meu caminho.

Depois passei por um corredor escuro, por uma copa e finalmente alcancei uma sala — a única que estava com as luzes acesas, e aquilo me atraiu de alguma forma.

A sala tinha paredes brancas, cadeiras da mesma cor posicionadas nos cantos e quadros coloridos.

Senti um aperto no peito.

Eu estava sozinha.

Sozinha e desamparada em uma casa desconhecida.

Mais uma vez tentei me lembrar de qualquer coisa que fosse.

Mas todo aquele esforço só fez minha cabeça latejar ainda mais.

Pensar demais inibia toda a adrenalina que eu sentia e isso trazia toda a dor de volta.

Um barulho alto me puxou para fora de meus devaneios.

Me virei assustada e meu olhar foi direto para o corredor escuro.

Senti meu coração palpitar dentro do peito, de um modo que eu podia ouvi-lo com uma clareza assustadora.

Enquanto isso, o som ficava mais alto.

Eram batidas, batidas furiosas.

Me forcei a sair daquele estado de paralisia e comecei a caminhar lentamente na direção do corredor, enquanto o piso rangia abaixo dos meus pés.

Depois do que pareceu uma vida inteira, finalmente cheguei no corredor. Parei no meio dele e rapidamente descobri a origem daquelas pancadas.

Havia uma porta, coberta por correntes grossas. Ela tremia a cada novo golpe e as batidas ressoavam no meu corpo, arrepiando a minha espinha.

O horror preencheu cada extremidade do meu corpo, meus pés pareciam colados no piso de tacos e as lágrimas arderam em meus olhos.

Eu podia sentir, podia sentir aquele cheiro de carne podre e o quanto a coisa atrás daquela porta desafiava tudo em que eu já acreditei algum dia.

Então, uma pequena fresta se abriu na porta ainda segurada pelas correntes, e os meus olhos se encontraram com o par de olhos mais horríveis que eu já vi.

Olhos vermelho-sangue, exorbitantemente grandes e coagulados.

Dei um passo para trás, enquanto uma lágrima caía pela minha bochecha.

Eu nem conseguia piscar.

Aquela coisa… olhava diretamente para mim e não era humana.

Seu corpo era como uma sombra e ele tinha longos pares de chifres em sua cabeça deformada.

O ser se enfureceu ainda mais diante da minha presença e começou a esmurrar a porta com mais violência. Em seguida, ele passou seus longos dedos finos pela fresta e começou a tentar puxar as correntes.

Saí do meu estado de transe e fui tomada por um forte senso de urgência, aquela porta não aguentaria por muito tempo.

Meus pés finalmente saíram do lugar e eu comecei a correr por cada cômodo, esbarrando em cada móvel, enquanto os gritos guturais daquele monstro ainda ecoavam.

Ao passar na frente da janela, a beleza da paisagem não mais me atraía. Saí da casa batendo todas as portas atrás de mim e quando finalmente alcancei as escadas, desci dois degraus por vez.

Não foi uma boa ideia.

No meio da minha corrida frenética, eu tropecei no meu próprio pé, mas, antes de alcançar o chão, bati minha cabeça no corrimão da escada.

Minha visão foi tomada por uma escuridão momentânea e meu corpo rolou pelos últimos degraus.

Por sorte milagrosa, continuei consciente.

Me levantei com dificuldade e passei a mão na testa, vendo todo o sangue que emanava do ferimento.

— Merda.

Tudo estava silencioso novamente e o silêncio era mais inquietante do que qualquer coisa.

Eu sabia que aquele monstro estava lá, mas, diante do seu silêncio, eu não poderia saber onde exatamente, então, me apressei em correr para longe daquele lugar.